Papisa, sobre disco com mulheres: ‘Passei a confiar mais em mim depois de trabalhar com elas’

Fabiano Alcântara
Por Fabiano Alcântara

Na última sexta-feira (2), por ocasião da lua nova, a multi-instrumentista Papisa, nome artístico da artista paulista Rita Oliva, lançou seu primeiro disco, Fenda.

Com nove faixas autorais e produção musical assinada por ela mesma, Papisa embala seus cantos interiores sobre a morte e a impermanência em melodias que flertam com o indie rock, o dream pop e a música brasileira.

Já previamente lançados, os singles A Velha, Roda e Terra apresentam algumas direções temáticas exploradas por Papisa nesta obra.

Há cinco anos, a artista presenciou o momento da morte do avô e isso a tocou profundamente. Enquanto escrevia o disco, foi tocada por outras mortes, literais e simbólicas e isso reabriu algumas feridas, possibilitou que outras fossem se curando.

Para ela, um dos significados de Fenda é uma suspensão no tempo-espaço, quando algo termina, mas a próxima fase não começou. É relativo ao mistério e à investigação dele por caminhos de introspecção e de contato com outros planos de percepção.

Os shows trazem uma atmosfera ritualística criada para fazer uma alusão a esse estado de espírito. Fenda foi mixado por Alejandra Luciani, exceto Moiras e A Velha, mixadas por Taian Cavalca e masterizado por Florencia Saravia-Akamine.

Por que o disco se chama Fenda e como chegou no conceito?
Papisa – O assunto estava na minha cabeça desde o começo, é um disco sobre morte, transição, transformação. As músicas foram criadas trazendo várias perspectivas inspiradas em experiências que vivi nos últimos anos e durante a produção do álbum. Fenda dá nome ao disco e também a uma das faixas, que fala sobre olhar pra dentro, assumir as próprias escolhas, se permitir sentir, buscar o que é mais essencial. Ela foi a última a ser feita, durante o processo de gravação, e quando surgiu, senti que sintetizava o estado de espírito que permeia o disco. Fenda pra mim simboliza a rachadura, o vazio, o que está entre um limite e outro.

Seu disco foi feito com a colaboração de muitas mulheres, qual é o resultado político e estético desta opção?
Papisa – Sim, foi um processo conduzido por mulheres, incluindo produção, gravação, mixagem, masterização, capa, arte gráfica, fotografia, e gostaria de deixar claro que o critério da escolha foi trabalhar com profissionais em que acredito e com quem me identifico, acima de tudo. Já faz alguns anos que procuro tocar e trabalhar com mulheres, então essa seleção acabou ocorrendo como um resultado natural do que venho buscando.

O efeito político disso eu ainda não tenho certeza qual é, mas se o pessoal é político, posso dizer que é muito satisfatório saber que o disco foi moldado pelo cuidado e pela sensibilidade de mulheres em todas as etapas, e também percebo que passei a confiar mais na minha própria capacidade depois de trabalhar com todas elas. É muito incrível perceber isso, para te falar a verdade.

Sobre o resultado estético, sinto uma horizontalidade entre as pessoas que trabalharam no disco, houve liberdade e respeito entre nós, então o álbum reflete minha criação e produção, assim como o trabalho minucioso da Alejandra Luciani na mix (duas faixas foram mixadas pelo Taian Cavalca, com mix adicional da Alê para alinhar tudo no final), a lapidação impecável da Florencia Saravia na master, a capa desenvolvida pela Thais Jacoponi com um toque que é só dela, o olhar da Déborah Moreno nas fotos, a bateria vigorosa da Theo Charbel em Semente, os detalhes climáticos do synth da Luna França em Terra e Retrato infinito e o coro com Theo e Luna mais a Stéphanie Fernandes em Espelho, sintetizando essa força coletiva. O resultado final não seria o mesmo sem essas pessoas, disso eu tenho certeza.

Os ataques às minorias promovidos pelo conservadorismo e pela masculinidade tóxica fortalecem quem os combate?
Papisa – No sentido de reunir quem se identifica com o combate, sim. Mas não sei se são os ataques em si que nos fortalecem, porque de certa forma eles sempre estiveram presentes, apenas um pouco mais velados. A partir do momento que certas coisas não são mais toleradas, como o machismo e preconceitos disfarçados de conservadorismo, existe uma resistência a essa mudança, que nega o que é abuso, que finge que certas coisas não existem, porque é mais confortável permanecer dentro da estrutura que já existe. Mas quando nos unimos compartilhando o que sentimos, nos apoiando, priorizando o autocuidado e o respeito, denunciando e apontando comportamentos inaceitáveis, essas opressões que nos afligem e desestabilizam perdem a força.

O que está rolando de mais interessante na música na sua opinião?
Papisa – Os meninos do Supervão, do Rio Grande do Sul, e o Apeles acabaram de lançar discos ótimos. A Ema Stoned está com um show lindo, e ainda no Brasil, gosto muito do que a YMA e a Luiza Lian tem feito. Estive no Primavera Sound em Barcelona esse ano e não pude deixar de notar o forte protagonismo das mulheres no pop, com destaque para Solange, Rosalía e a argentina Nathy Peluso. A FKA Twigs tem uma performance e estética que acho um absurdo de bom. Também me apaixonei pela banda japonesa chamada Chai, só de garotas que fazem um show divertido cheio de energia, ao mesmo tempo que tocam em assuntos relevantes e delicados como o body positive.

Quais são suas maiores influências?
Papisa – Compositores como Beethoven, Chopin, Bach, Claude Bolling fizeram parte da minha formação e me emocionaram muito cedo. Ainda criança ouvi muito Raul Seixas, antes mesmo de saber da grande influência do ocultismo em suas músicas. Depois disso foram muitas fases, onde passei por muitos shows de hardcore e punk, estudei jazz, ouvi muito Chico Buarque, Caetano Veloso, Gal Costa, Novos Baianos, Secos e Molhados, Miles Davis, Chet Baker, Joni Mitchell, Carole King, Fiona Apple, PJ Harvey, Air, Brian Eno, Feist, Juana Molina.

Qual a principal mensagem que tenta passar com suas músicas?
Papisa – Olha, pra mim a composição vem de uma forma bastante intuitiva, então normalmente a mensagem que chega é aquilo que estou sentindo ou vivendo no momento, ou então coisas que parecem surgir para amenizar ou expandir esses sentimentos. Como pano de fundo para essas criações, sinto que existe uma intenção de exaltar a sensibilidade, de mostrar alternativas para velhos padrões e crenças que já não nos servem mais, de buscar a verdade mais primordial se desfazendo das ilusões.

O que tem te deixado animada?
Papisa – Boa pergunta (risos). A arte sempre me anima. A música, a força e a conexão que sinto em relação às pessoas, apesar de tudo o que estamos vivendo politicamente. Me anima o fato de que ao menos uma parte de nós está buscando recursos para se desenvolver internamente como ser, como humanidade, mais do que buscar apenas uma evolução tecnológica e um aparente progresso externo que muitas vezes se desenvolve de forma agressiva e nociva para o planeta e para nós mesmos.

 

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