Pânico e quebradeira na witchlândia: o Crystal Castles está de volta e as lágrimas por Alice Glass já estão secando

Jade Gola
Por Jade Gola

A vocalista Alice Glass foi embora e desfalcou em 2014 um dos projetos mais particulares e amados da música eletrônica recente: o Crystal Castles. Dois anos depois o mentor musical da dupla Ethan Kath está de volta com novas músicas, novas turnês (inclusive uma em maio último na América Latina SEM O BRASIL) e agora com a voz de uma nova guria, com a mesma cara de Caixa de Pandora prestes a explodir o big bang no palco: Edith Frances.

Edith Frances

Edith Frances, a nova vocalista

O som continua o mesmo: ruidoso, industrial, punk distorcido e com uma pegada eletrônica que vai do electro a um post-trance. Aproveitando as boas novas do Crystal Castles, perguntamos a diversos DJs de witch house e afins – a maioria afiliados ao núcleo de festas juvenis e obscuras Sad Rave e DRVMV, de São Paulo – o que eles estão achando desse CCastles Versão 2016 Post-Alice Glass.

Estes jovens DJs cresceram venerando os “batismos” do Crystal Castles e, apesar de muitos lamentarem e lembrarem com ternura da força de Alice, eles estão mais que animados para absorver e vivenciar o projeto com a nova vocalista Edith Frances.

Enquanto você lê as opiniões, ouça preview de Femen e veja o clipe de Concrete abaixo, que devem estar num suposto álbum intitulado Amnesty (I).

 

Ramon Camposky assina como WINGS quando toca na DRVMV. Ele demorou a gostar de Edith Frances, a nova vocalista – “na real, não consigo digerir ela até hoje”, diz o jovem, que apazigua as críticas pela perspectiva de novas músicas do projeto. “Todas as previews, vídeos e shows eu percebo que ela tem feito um bom trabalho com a banda e não me faz sentir decepcionado com a escolha do Ethan. Estou muito animado pra ver o que mais a Edith tem a mostrar ao público do Crystal Castles que hoje em dia é gigante”.

Acredito que é muito cedo pra julgar qualquer atitude que venha da parte dela, mas, até agora ela está entregando trabalhando de uma forma muito boa. Ela e a Alice é como yin-yang. Edith é luz e Alice é trevas. – WINGS

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Brüno Melo também é da DRVMV e toca assinando como ZOWK. Ele concorda com o Wings sobre a luz que emana da nova vocalista nas novas faixas que já estão sendo tocadas por aí – inclusive ao vivo. “Edith é como um presente que você vai ganhar de natal mas simplesmente não sabe o que é. As apresentações ao vivo, do ponto de vista técnico, tem sido ótimas, mostrando como o duo conseguem fazer um bom trabalho. Só o tempo dirá mais sobre. Vamos ter que esperar eles desembrulharem esse presente”. Mas sobram saudades de Alice:

Alice se tornou um ícone. Sua agressividade vocal, espontaneidade e estilo marcaram sua passagem pelo duo. O caos das faixas era transmitido por sua personalidade e ela não estar mais no duo faz um pouco de falta por conta desses fatores. – ZOWK

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Lidia Zuin, 25 anos, é DJ há uns quatro anos e firmou-se ourives das atmosferas pesadas do witch house. Ela reconhece e celebra o poder imagético do CCastles com Alice: “enquanto algumas bandas de witch house e eletrônica alternativa preferem nem identificar quem são os artistas, usando véus e tocando no escuro em performances, a Crystal Castles era muito definida pela presença/imagem da Alice, mas musicalmente não acho que ela fará tanta falta”, opina. “Ainda tem só alguns teasers, mas não achei tão diferente assim..”.

Não é como se a voz da Alice em si fizesse falta, porque ela é tão editada e distorcida que até perde um pouco da identidade própria. Acho que vai fazer mais falta por conta da personalidade e presença de palco delaLIDIA ZUIN (Hexcast Podcast)

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“CC sem Alice é dificil assimilar assim de primeira”, diz Marina Lomaski, DJ e promoter das festas Velvet e Chelsea Hotel, que vivenciou o Crystal Castles no ápice de sua juventude hedonista. Ela diz que é difícil imaginar o projeto sem Alice, mas como “quem criava mesmo era o Ethan, então tem muita lenha ainda para queimar”. O tom barroco dos fãs de Crystal Castles e da eletrônica obscura-gótica atual é bem notável em suas impressões sobre a banda:
Os ruídos, repetições, letras sensoriais e realidade oscilante me capturaram e catalisaram sentimentos tanto pessoais quanto de uma nova linguagem da música eletrônica; o comportamento errático e selvagem, o derretimento da persona, a entrega quase suicida da vocal que levavam todos a uma implosão.MARINA LOMASKI  

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É interessante frisar o apelo juvenil do Crystal Castles. Natália Wakasabi conheceu a dupla aos 12 anos, com a presença da música Alice Practice na série Skins, e desde então seguiu e amou o projeto. Chega a maioridade, a vontade de fazer música, e ela assume a influência do CC e de Alice, tanto em seus sets em festas como no seu projeto autoral Die Die. “Acho que vocais gritados, trágicos, equalizam melhor com música eletrônica”, diz.

Eu tenho amor pela Alice e Edith. Eu acho de fato que a Alice não canta maravilhosamente bem, mas ela é tão ritualística, tem tanto espírito de palco que isso é o de menosNATÁLIA WAKASABI (DIE DIE)

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Marcos Leite Till, do Tigre Dente de Sabre, é o MERMAID ϟLUT nas festas Sad Rave em SP. Ele tem o Crystal Castles como banda favorita, fã desses de seguir tumblrs, fóruns e discussões de outros inveterados na banda – tanto é que ele descobriu e nos contou que a nova música Femen é uma edição de trás pra frente de uma versão em coral de Smell Like Teen Spirit, do Nirvana (!).

“Nos shows deles que eu vi, o público ficava fora de si, muito choro, muito transe coletivo e antes de eles subirem no palco instaura-se aquela sensação de que algo ‘sagrado’ vai estar diante de todos. Muito poderoso. Um batismo mesmo. Existem muitas bandas e artistas que atingiram isso na história da música, mas ver e sentir isso na sua frente é outra coisa”, comenta, bem litúrgico.

Alice Glass faz muita falta, ela tinha algo no palco desses que poucos atingem, eu os vi 3 vezes ao vivo e era mágico. A separação dos dois dividiu público e opinião, mas pra mim não se trata de ficar do lado de um ou de outro nisso tudo. Ambos não conseguiram terminar isso de um jeito bom e muita briga e desentendimento veio a público. Tenho profunda admiração pelos dois, ambos seguiram caminhos novos e a arte de ambos me interessa. Amo ouvir ‘Pale Flesh’, ‘Suffocation’ e ‘Kerosene’, amo tocar ‘Baptism’. – MERMAID ϟLUT

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QUEM SENTE MUITA FALTA DE ALICE GLASS PODE ACOMPANHAR SUA CARREIRA SOLO, QUE RENDEU UMA MÚSICA ANO PASSADO:

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