Beatles em 1966 Imagem: Billboard / Redferns

Os mistérios de Revolver, disco dos Beatles que faz 60 anos

Claudio Dirani
Por Claudio Dirani

Revolver aos 60: o álbum dos Beatles que exterminou o passado. Histórias fantásticas das gravações, letras e melodias do sétimo LP do quarteto de Liverpool que faz aniversário hoje

No universo do quarteto de Liverpool, nada é linear. Em outubro de 2022, por exemplo, o QG dos Beatles colocou nas lojas virtuais e físicas um box set com versões nunca ouvidas dos clássicos do álbum Revolver, que completa hoje (5/08) 60 anos. 

Só para ser controversa, a Apple/Universal Music pulou o ano de 2025 e decidiu anunciar a versão comemorativa de seis décadas de Rubber Soul para o final de 2026. Como até outubro ainda teremos muito tempo para falar de Rubber Soul, o Music Non Stop aproveitou esta data festiva para dissecar o LP que marcou o fim das turnês dos Fab Four, assim como o início das aventuras no estúdio de John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr.

O citar mágico de George Harrison

Depois de estrear seu citar em Norwegian Wood, George Harrison expandiu os estudos sobre a música indiana em Revolver. Em Love You To, ele usa novamente o instrumento adquirido no verão inglês de 1965 em uma pequena loja chamada Indiacraft, que ficava na Oxford Street, em Londres, entre Park Lane e Edgware Road. 

O instrumento, aliás, acabou sendo presenteado ao empresário Vere Drummond, proprietário de uma mansão em Barbados, onde George e sua primeira mulher, Pattie Boyd, passaram sua lua-de-mel em 1966. Mais de 58 anos depois, o citar foi leiloado por US$ 66 mil pela Nate D. Sanders, em Los Angeles.

Para dar os toques finais à gravação que hoje conhecemos em Abbey Road, George convocou um grupo de talentosos músicos liderados por Ani Bhagwat em 13 de abril de 1966, para temperar a canção com as devidas especiarias – ou melhor – os instrumentos indianos apropriados. Além do citar de George, ouvimos no arranjo uma tabla (instrumento de percussão), uma tamboura e outro citar. Cortesia do Asian Music Circle. 

 

Why Did It Die: o nascimento de For No One

Antes de iniciar as sessões de Revolver em abril de 1966, Paul McCartney e sua então noiva, Jane Asher, deixaram o Reino Unido no dia 3 de março rumo à Alemanha Ocidental, a bordo do Aston Martin DB6 de propriedade do beatle. Após uma breve estadia no Hotel Storchen, em Rheinfelden, o casal decidiu esquiar na Suíça, mais precisamente em um vilarejo próximo a Klosters, situado a 200 quilômetros da cidade alemã. Seria neste aconchegante esconderijo que Paul McCartney viria a compor o embrião de For No One. Originalmente criada com o nome de Why Did It Die?, a música foi elaborada com os seguintes versos:

Why did it die? / You’d like to know / Cry – and blame her

Why did it die? / I’d like to know / Try – to save it

Aparentemente, pelo tom da letra composta no chalé montanhês, Paul e Jane já não eram mais aquele casal ideal. “Suspeito que (For No One) foi escrita sobre uma discussão que (eu e Jane Asher) tivemos. Francamente, nunca experimentei relacionamentos fáceis com as mulheres. Geralmente, sou bastante franco”, comentou Paul. 

O livro Tibetano dos Mortos

Com uma boa ajuda de Paul McCartney, a Indica Book Store foi inaugurada em março de 1966 na Mason’s Yard, em Londres, com a missão de introduzir os principais atores do cenário cultural Inglês a um universo pop alternativo. O empreendimento (idealizado por Barry Miles, Peter Asher (irmão de Jane) e John Dunbar cumpriu seu propósito bem no início das atividades da livraria. Foi exatamente em 1 de abril daquele ano que John Lennon sentiria-se atraído pelo intrigante título A Experiência Psicodélica: Um Manual baseado no Livro Tibetano dos Mortos – por Timothy Leary, Richard Alpert e Ralph Metzner. Ao folhear o livro, Lennon sacou sua carteira e levou a obra para sua casa em Weybridge. Menos de 5 dias depois, nasceria a música conhecida como Tomorrow Never Knows. Além de explorar os recursos do livro psicodélico, John deixou bem claro que a origem da letra havia sido o LSD.

“When in doubt, relax, turn off your mind, float downstream.”

Leary (Timothy) era quem falava “Tomem, tomem, tomem”. E nós seguimos as instruções do livro dele, “Como fazer uma viagem”. Eu fiz exatamente como ele dizia no livro, e aí escrevi Tomorrow Never Knows, que foi quase a primeira música sobre ácido: “Abandone todos os pensamentos, renda-se ao vazio”, e toda aquela baboseira que o Leary tinha roubado do Livro dos Mortos” – John Lennon, à revista Playboy (1980).

Daisy Hawkins, Ola Na Tungee ou Eleanor Rigby?

Quando Yesterday apareceu em Help!, os fãs mais radicais dos Beatles estranharam que apenas um integrante do quarteto fora creditado como músico na gravação, cantando e tocando o seu violão 1964 Epiphone FT-79 Texan. Em Revolver, as formações passaram a ser ainda mais incomuns e ousadas. Desta vez, nenhum dos Beatles seria creditado como instrumentista em pelo menos uma das faixas do disco: a misteriosa Eleanor RigbyQuestões técnicas à parte, o mais interessante sobre a soturna composição idealizada por Paul se refere às possíveis origens de seu nome. A primeira delas é a mais bizarra. O biógrafo Barry Miles conta em Many Years From Now que o primeiro título experimental de Eleanor Rigby foi Ola Na Tungee. Após observar Paul compor a melodia ao piano, o amigo (e cantor-compositor escocês) Donovan revelou que ele teria usado tal união silábica, com sabor indiano, como base para relembrar como seria a cadência da música:

“Ola Na Tungee/ blowing his mind/ in the dark/ with a pipe/ full of clay”

Daisy Hawkins em cena

O “arranjo oriental” não sobreviveu por muito tempo, como o próprio Paul contaria ao jornalista Hunter Davies em agosto de 1966.Estava com um nome na minha cabeça…’Daisy Hawkins recolhe o arroz na igreja depois de um casamento’…. Mantive isso enquanto não achava um título mais apropriado”.

E esse título “apropriado” também passaria por diversas mutações. Eleanor, por exemplo, pode ter sido inspirado pela atriz Eleanor Bron, principal coadjuvante no filme Help! (1965). Já o sobrenome fictício Rigby é quase uma certeza. Rigby & Evans é uma famosa loja de vinhos (hoje extinta), localizada em Bristol, cidade inglesa onde Jane Asher atuava pela companhia teatral Old Vic. Tudo resolvido? Mesmo com todas as pistas e provas apresentadas, algo ainda mais surpreendente pode derrubar todas as teorias a respeito da origem da canção. 

Nos anos 1980, uma lápide encontrada no cemitério da Paróquia de St. Parish, em Woolton (região de Liverpool onde Paul conheceu John Lennon) se transformou na principal evidência de uma “Eleanor Rigby da vida real”. No túmulo, descobrimos inclusive sua data de óbito: 10 de outubro de 1939, aos 44 anos de idade. 

All the lonely people where do they all come from?

Túmulo da Eleanor Rigby "real"

imagem: reprodução Reddit.

O que seria Laxton’s Superb?

Em Rubber Soul – acredite se quiser – os Beatles trabalharam sob pressão da gravadora EMI/Parlophone para entregar todo o material a tempo de atender o período de compras de Natal. Ao todo, o quarteto finalizou 14 músicas inéditas gravadas em duas semanas, além do single We Can Work It Out/Day Tripper que não fez parte do LP. Com Revolver, a corrida não foi tão intensa assim, mas I Want To Tell You foi uma das canções que chegou de última hora para completar os dois lados do LP. Originalmente batizada como Laxton’s Superb (um tipo de maçã inglesa) George Harrison só escolheu o nome definitivo de sua cria durante a mixagem, seguindo o exemplo de Love You To, também apelidada com o nome da fruta (no caso, uma maçã verdinha chamada Granny Smith).

“A canção fala sobre a dificuldade de se comunicar usando apenas palavras. Eu sabia também que os acordes que eu conhecia não seriam capazes de transmitir essa mensagem. Por isso, fiz várias tentativas até encontrar um som dissonante (E7/F) no piano. Tenho muito orgulho desse arranjo, porque eu praticamente inventei esse acorde”, disse Harrison à Guitar World (1992)

 

Claudio Dirani

Claudio D.Dirani é jornalista com mais de 25 anos de palcos e autor de MASTERS: Paul McCartney em discos e canções e Na Rota da BR-U2.