Oasis Don't Look Back in Anger Imagem: Reprodução

‘Oasis: Don’t Look Back in Anger’: 4 acordes, 2 irmãos e 1 trono vazio

Claudio Dirani
Por Claudio Dirani

Edição: Flávio Lerner


Para Claudio Dirani, doc do Oasis funciona como cápsula do tempo desenterrada para expor o cenário de seca do rock’n’roll

Toda geração tem seu guitar hero. Toda era é marcada por hinos pop, predestinados a usurpar o trono de antigos imperadores. Quando o Oasis surgiu praticamente do nada em 1994, armado com o desafiador Definitely Maybe e o single Supersonic, o mundo era ansioso por novos conquistadores.

A ausência dos streamings e dos smartphones naqueles analógicos anos 90, deixavam a garotada sem muita saída. O jeito era confiar e depositar toda a sua fé nos quatro acordes — e na verdade. 

Já no cenário real de 2026, pelas sinuosas estradas onde o “novo Oasis” caminha — o grupo anunciou nesta segunda-feira mais de 30 datas para 2027 —, tudo é muito diferente. Está muito mais para o que diz o derradeiro single Falling Down: “Está na hora de dizer adeus a esse mundo”. 

Noel Gallagher traduz melhor seu pessimismo/realismo contemporâneo em algumas declarações dadas nos últimos anos a veículos internacionais — basicamente afirmando que a internet arruinou a música como conhecemos, não existe mais mistério e as bandas de rock são cada vez mais raras.

Há pouco mais de três décadas, quando o Nirvana ainda se despedia do anjo caído Kurt Cobain, o quinteto liderado pelos irmãos de Burnage, Manchester, decidiu arrombar a porta, com a arrogância típica dos usurpadores de tronos. Oasis: Don’t Look Back in Anger — o doc/musical revelado na última sexta-feira (11) para um grupo seleto de fãs e veículos da mídia (entre eles, o Music Non Stop) — funciona como uma cápsula do tempo, desenterrada no momento preciso para expor o simbolismo cultural do Oasis em um cenário de seca.

Noel e Liam: olhando para o retrovisor sem raiva

Exibido em um emblemático 11 de setembro, Oasis: Don’t Look Back In Anger e seus poucos mais de 120 minutos também funcionam como provas de que o reinado do Oasis apenas adormeceu nos 16 anos que separam o triste e rancoroso show de Paris em 28 de agosto de 2009 do triunfante regresso em Cardiff, em 4 de julho de 2025.

O sucesso quase bíblico da turnê Live ‘25, entretanto, não pode — e nem deve — ser definido como um retrato exclusivo da relevância da banda, que segue inabalável. Ao mesmo tempo que o filme criado por Steven Knight (Peaky Blinders) foi concebido como algo messiânico, uma frase deixada por Liam Gallagher perto do terceiro ato do doc apenas ratifica que o rock and roll sobrevive praticamente de seus deuses do passado. 

“Não sei por que as pessoas implicam com a nostalgia”, reflete Liam em uma das partes mais agridoces da primeira entrevista ao lado do irmão Noel em quase 20 anos.

Os talentos ainda existem. Mas onde estariam os novos Oasis, U2, Metallica e Iron Maiden? Isso não se sabe. O que se sabe é que a espera por novos templários do rock só é capaz de alimentar ainda mais o saudosismo. O único problema disso é que a saudade não costuma ser respeitada pelos pioneiros do pop, ainda que a própria banda mancuniana nunca tenha desprezado suas raízes.

Dito isso, as imagens incluídas em Don’t Look Back in Anger apenas reforçam a necessidade de termos um documentário sobre o retorno do Oasis (ou pelo menos, de parte de sua formação original, incluindo o resgate de Paul “Bonehead” Arthurs).

No ato de olhar para o passado — agora, com alegria —, observamos ainda um terceiro elemento, os fãs, atuando como evangelistas que compartilham suas histórias de lágrimas e sorrisos.

Nesse quesito, os brasileiros fazem sua parte de forma contundente, emprestando aos produtores de Don’t Look Back… suas cotas de emoção, antes e durante dos espetaculares shows no MorumBIS em novembro do ano passado.

Porém, até para quem já está mais do que acostumado com o universo dos irmãos Gallagher, os momentos de humor e ironia da dupla são as joias da coroa do novo filme.

Em vez da antiga troca de ataques, sobram sorrisos, beijos, abraços e muitas piadas que têm mais graça ainda quando você conhece o contexto.

“Não sei como ele faz isso. Se eu equilibrasse um pandeiro na cabeça, seria ridicularizado. Só Liam pode fazer uma coisa dessas”, explica Noel. 

Irlanda x Inglaterra: o duelo em Oasis: Don’t Look Back in Anger

Além do despojado humor irlandês (Noel faz questão de se declarar mais irlandês do que inglês), os pontos mais fortes de Oasis: Don’t Look Back in Anger são os que aparentemente encerraram a animosidade entre irmãos.

Noel aparece honestamente desarmado, afirmando que precisou tocar de costas para o público para não chorar ao ver os abraços emocionados de pais e filhos. Liam também surge com irreverência, mas sem medo de confessar que clássicos como Live Forever, Champagne Supernova e Wonderwall são obras-primas do irmão.

E ainda temos a revelação de que os filhos da dupla permaneceram sem contato durante mais de uma década e meia, e agora aparentam ser melhores amigos. “A vida é preciosa”, afirma Noel, em um dos trechos mais bacanas.

Quando o documentário termina, a sensação é de missão cumprida. Contudo, também fica a impressão de que nem tudo foi revelado como poderia ser. 

Ficamos sem saber qual foi a motivação definitiva que impulsionou o Oasis a voltar à ativa. Nos bastidores, muito se fala do papel de Peggy Gallagher, a progenitora, que não suportava mais ver os filhos em eterna guerra.

And in the end… Bem, no fim de tudo, ninguém a não ser os historiadores irão se importar com esses pormenores. Oasis: Don’t Look Back in Anger não foi feito para nenhum estudioso, mas para quem ainda está mad fer it.

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Claudio Dirani

Claudio D.Dirani é jornalista com mais de 25 anos de palcos e autor de MASTERS: Paul McCartney em discos e canções e Na Rota da BR-U2.