VMA 2026 Madonna e Charli xcx no VMA 2026. Foto: Reprodução

O VMA morreu

Alexandre Bezzi
Por Alexandre Bezzi

Edição: Flávio Lerner


Bezzi reflete sobre o MTV Video Music Awards 2026, realizado no último domingo (27), no Peacock Theater, em Los Angeles, nos Estados Unidos

O VMA morreu. Só esqueceram de avisar a MTV. Em 2026, a premiação continua capaz de reunir Madonna, Taylor Swift, Nirvana, George Michael, Charli xcx e uma nova geração de artistas no mesmo palco, mas parece cada vez menos interessada em ser uma grande experiência coletiva.

A veterana Rainha do Pop voltou ao palco após 23 anos, Swift levou o “Vídeo do Ano” por The Fate of Ophelia e ainda lançou Patient Zero, o Nirvana recebeu o “Video Vanguard”, e a noite teve homenagens a George Michael e Dolly Parton. Madonna saiu com sete troféus, segundo a organização.

Mas o curioso é que, em tempos de vídeos de poucos segundos, uma cerimônia de duas horas parece existir tanto para ser assistida quanto para ser desmontada em pequenos acontecimentos. O VMA ainda quer criar o grande momento. A internet prefere ficar com os top 15 segundos.

E alguns desses momentos foram melhores justamente porque escaparam do roteiro. Pat Smear fumando durante a homenagem ao Nirvana entregou uma fagulha de desordem que nenhuma pirotecnia conseguiria fabricar. PinkPantheress com o olhar de reprovação a um dos muitos discursos de agradecimento da Madonna. Charli xcx, que participou da abertura com a Rainha do Pop e Sabrina Carpenter, parecia estar em praticamente todos os lugares onde a indústria queria colocar o selo de “cool”. 

Não é um problema da Charli. É um sintoma de uma cultura pop que parece precisar escolher uma única pessoa para representar o presente. Nos anos 90 e 2000, Madonna, Bowie, Björk, Beck, Missy Elliott, Trent Reznor, Britney e Prince ocupavam espaços completamente diferentes.

Hoje, tudo precisa passar pela mesma régua de relevância. Até Dave Grohl, que já foi um dos grandes símbolos da espontaneidade do rock, parece uma figura tediosa nesse cenário.

O tributo a George Michael também mostrou como a premiação tenta colocar repertórios muito diferentes na mesma fotografia. A homenagem reuniu RAYE, SOMBR e Teddy Swims, enquanto Kacey Musgraves celebrou Dolly Parton. Não é uma questão de uma geração entender ou não a outra. É que já não existe um repertório pop necessariamente compartilhado por geral.

Quem chega à música por streaming, redes sociais ou recomendações pode construir uma história musical completamente diferente da pessoa sentada ao lado. A MTV tinha uma grade de programação e decidia o que entrava na sala de milhões de pessoas. Hoje, cada um monta a própria playlist. A cultura pop deixou de ter um espaço central.

E aqui está a ironia mais interessante: a emissora ajudou a criar o mundo que tornou sua própria função dispensável. Transformou o videoclipe em linguagem, aproximou música, moda e comportamento, e fez de artistas pop personagens de uma cultura visual global. Mas também foi se afastando da música para investir em reality shows e entretenimento. The Real World, Jackass, Jersey Shore e tantos outros ajudaram a transformar a Music Television em uma televisão sobre quase qualquer coisa.

Quando o YouTube chegou e permitiu que um artista colocasse seu videoclipe diretamente diante do público, ela já não era mais a única porta de entrada. O VMA nasceu para celebrar a televisão musical. Hoje, precisa sobreviver num mundo em que a música não depende mais da televisão para existir.

Eu mesmo vi esse movimento de perto quando passei pela matriz brasileira da TV, no começo dos anos 2000. A emissora já estava em plena fase de reformulações e, para quem acompanhava a grade, alguns sinais eram bastante claros: clipes e programas 100% musicais começavam a perder espaço, e a sensação era de que aquele modelo de MTV estava com os dias contados. Não era preciso esperar o streaming dominar tudo para perceber a mudança. A música já começava a deixar de ser o centro da própria emissora que a tinha no nome!

Ainda assim, o evento não foi cadáver cultural. Madonna continua sabendo transformar uma entrada no palco em acontecimento. Taylor Swift entende perfeitamente a combinação entre música, imagem e narrativa. O Nirvana ainda carrega uma força simbólica que atravessa décadas. Charli xcx continua funcionando como um dos termômetros do pop atual. E Pat Smear fumando no palco conseguiu lembrar, por alguns segundos, que ainda existe espaço para algo não planejado.

O mundo simplesmente mudou. Já não é necessariamente o lugar onde a cultura pop acontece, mas um lugar de onde ela sai em fragmentos. A emissora queria criar momentos históricos. A internet quer circulação. E o VMA 2026 passou duas horas tentando conciliar os dois. Talvez essa seja a sua verdadeira crise de identidade.

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Alexandre Bezzi

Com mais de duas décadas de vivência no meio jornalístico e musical, Alexandre Bezzi virou uma entidade da cena alternativa, com direito a homenagem da banda CSS com a faixa que leva seu nome.