“O tempo todo fazemos política”: uma conversa sobre mulheres na música

Fabiano Alcântara
Por Fabiano Alcântara

Finalistas do Prêmio Profissionais da Música 2019, três mulheres que vêm movimentando a cena da música independente estiveram reunidas na cerimônia de premiação, no começo do mês, em Brasília.

Camila Garófalo, conhecida na vida artística como GALI, cantora, compositora e produtora da SÊLA, Flora Miguel, jornalista e produtora, e Sarah Mascarenhas, apresentadora do programa Hora do Sabbat, falaram, entre outros assuntos, sobre música, tendências e machismo estrutural – basta ver a quantidade de mulheres indicadas nas categorias técnicas do próprio prêmio.

Elas são descendentes das bruxas que escaparam das fogueiras, só que agora o fogo anda com elas.

Como a música pode ajudar a reparar diferenças históricas e estruturais de gênero, raça, orientação afetiva?
Flora Miguel –
 Arte, em nossa sociedade, por si , é disrupção. Com a música não é diferente: qual for a temática, há uma provocação na dita normalidade, seja por proporcionar momentos de alegria e contemplação ou por cutucar feridas históricas, políticas e sociais.

Pra além disso, quando vemos mulheres, transexuais, negros, gays, corpos periféricos nos palcos, quando consumimos sua música, estamos ouvindo vozes historicamente silenciadas. Isso é tão poderoso. É uma janela pra uma sociedade mais harmoniosa, empoderada e livre.

Flora Miguel em foto de Deco Vicente

Sarah Mascarenhas – Vou dar uma transgredida nessa pergunta, pois como apresentadora do programa Hora do Sabbat, prezo por criar um espaço de visibilidade e pluralidade das vozes femininas, então procuro ir além da música.

Acredito que nós, jornalistas, temos a obrigação de utilizar a tecnologia à palma da mão para ampliar esses espaços de visibilidade para as questões de gênero, raça e orientação afetiva, sem dúvida. A música como expressão artística é a linguagem que chega a mais pessoas. Todos são tocados pela música, num espaço de livre expressão isso pode ser uma ferramenta poderosíssima na transformação de uma sociedade mais justa e equânime.

Sarah Mascarenhas por Marcio Barreto

Camila Garófalo – Nós, mulheres e LGBTQIA+ não podemos nos dar ao luxo de fazer somente música, o tempo todo estamos fazendo política. E é com ela que abrimos cada vez mais nossos caminhos no mundo. Ainda falta muito pra que essa jornada seja justa. Há prêmios que temos que ganhar, provas que temos que dar. No fim das contas a sociedade tem uma dívida histórica com a gente e se fosse pra ser justo os homens teriam que ficar alguns milhares de anos ser poder participar de nada. Não é o que estamos reivindicando no entanto. As pessoas se confundem quando olham pra nossa luta.

Ter ganhado o prêmio PPM por votação popular é um primeiro passo que devemos dar, mulheres, lésbicas e a SÊLA.

Camila Garófalo por Lub Meirelles

Como as pessoas que não são destas minorias podem participar deste processo, sem atravessar o lugar de fala de LGBTQIA+, negros, mulheres, indígenas?
Flora –
Quando as “minorias” ocupam seus lugares de fala, quem está acima na escala de privilégios tem muito a aprender com elas. É preciso aprender a ouvir, exercitar o respeito e a empatia.

Ao mesmo tempo, outros corpos preteridos se sentem representados por esses artistas porque se enxergam diretamente neles. É uma importância dupla. Temos todos o dever de participar desse processo: consumindo, contratando e fomentando artistas LGBTQIA+, negros, mulheres, indígenas e dissidentes.

Sarah – Para mim são maioria, principalmente quando se unem pelo bem geral da sociedade, numa luta que é básica pelo direito e respeito a própria existência. Os movimentos sociais de gênero e raça para mim são complementares, principalmente quando pensamos na realidade social do Brasil. Até quando vamos permitir que as mulheres negras continuem excluídas. Todos podem contribuir nesse processo se olhando, estando atentos às pequenas falas que contribuem para a manutenção do racismo e discriminação de modo geral. A origem desses preconceitos é a mesma, o patriarcado, o machismo.

O que você acha que está rolando de mais interessante na música hoje?
Flora –
Gosto muito de como a música pode traduzir a voz das ruas. Funcionar como um muro que contém mensagens que não são vistas na televisão ou na publicidade.

Tenho curtido acompanhar a cena nacional de rap e trap. Edgard, Saskia, Souto MC, Melanina MCs, Coruja BC1, Budah, Ebony… Só alguns dos ótimos exemplos do que tem rolado.

Sarah – Souto MC, Luiz Lian, Rap Plus Size, Fino Coletivo, Luedji Luna, Liniker e os Caramelows, Tiê, Papisa, essas têm sido as vozes que ressoam nos falantes por aqui, e acabam em looping na minha mente.

Camila – Mulheres, negros e LGBTQIA+ nos topos das paradas de sucesso: Linn da Quebrada, Josyara são alguns exemplos.

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