Oscar Bueno na Casa da Lu

O outro lado de Oscar Bueno. Artista expõe suas obras e dualidade em São Paulo

Por Jota Wagner

Praticante do Budismo há quase 30 anos e ícone da noite paulistana, Oscar Bueno, sob codinome “Malo”, mostra seu lado visual, ainda pouco conhecido pela nação festeira.

Difícil bater cabeça pelo cenário underground paulistano e encontrar alguém que não conhece Oscar Bueno. Promoter e DJ há décadas, Bueno criou festas em um incontável número de clubes da cidade, da praça Roosevelt ao D-Edge, passando pela Casa da Luz, onde promovia eventos ativamente até a chegada da pandemia.

Doce e certeiro na condução de suas festas – inclui-se na biografia o seminal after hours Paradise, que começou no Lov.e e depois foi para a D-Edge, Oscar conquistou uma bela nação de seguidores de suas festas ou de sua música, quando discoteca. O que poucos sabem, porém, é que além de ter uma carreira como artista visual sob o avatar de Malo (o oposto de Bueno, seu sobrenome), foram justamente as artes visuais que o levaram para a música.

Oscar Bueno e Cesar Semensato

Oscar Bueno (à direita) e Cesar Semensato nos áureos tempos da Lov.e Club – foto: Flavia Ceccatto

Formando em artes visuais pela Faap, sua primeira exposição foi num clube da praça Roosevelt.  “A segunda virou meio que uma festinha” – conta Oscar – “e foi a partir e então que comecei a produzir festas”.

Oscar Bueno seguiu fazendo festas e pintando até 2010, época em que morava com outra figura carimbada da noite, o Jota Jota, falecido neste mesmo ano.  “Morava na São João com a Duque de Caxias e então rolou um hiato, interrompido com a minha necessidade de me expressar na pandemia”.

O artista Malo, a partir de então, produziu muito durante o tempo em que estava impedido de discotecar e fazer festas. Com o apoio do amigo e curador Ivi Brasil, agora expõe novamente e seus quadros podem ser vistos (e comprados) até o final da próxima semana na galeria Garagem 01. Há também a possibilidade da visita online.

Obra de Oscar Bueno

Obra de Oscar Bueno – foto: divulgação

” O Oscar trabalha com esta coisa da geometria abstrata que eu acho muito interessante e está super em alta no mercado de arte novamente. No meu ponto dele o trabalho dele é bastante consistente, bem elaborado. Ele tem uma perspectiva bastante interessante do mundo que o cerca através daquilo. Pode parecer difícil, termos esta percepção através de uma pintura abstrata. Mas isso está lá dentro”, conta Ivi.

Os quadros refletem a influência de Malo com o concretismo paulistano de Luiz Sacilotto e Volpi, e também de vários concretistas estrangeiros, além da forma como o budismo o fez enxergar sua existência.  Os trabalhos foram expostos em vídeo na Casa da Luz recentemente, mas ambos sentiram a necessidade de permitir também a apreciação in loco. “Observar uma pintura a óleo presencialmente difere de ver em um vídeo. As camadas de tinta, as nuances, o fundo da tela, só podem ser percebidas in loco” – explica Ivi.

A exposição “A Geometria da Imperfeição” pode ser visitada, mediante agendamento, até dia 19 de setembro.

Serviço

Malo – A Geometria da Imperfeição

Garagem – 01 – www.garagem01.com

rua Graciliano de Sá, 101 – Pinheiros

De 10 a 19 de setembro – visita mediante agendamento nos dias de semana e livre (das 14as 18horas) aos sábados e domingos.

Agende através de: garagem01estudio@gmail.com

Para saber mais, segue texto de Ivi Brasil sobre a exposição:

“Camadas translúcidas revelam memórias que são recobertas a todo momento. Este vai e
vem de imagens no fundo e na superfície, em um jogo de luz e perspectiva, servem de
metáfora para o tempo, passado e futuro, com que Malo pinta no momento atual de
pandemia. O pintor retrata suas impressões e situações pessoais através da velatura, dos
escorrimentos e de triângulos articulando conceitos budistas e experiências de vida do
presente contaminado por um vírus. As articulações passam também pela reutilização de
antigas pinturas inacabadas e outros materiais que servem de suporte e criam um conjunto
de obras que colocam o abstracionismo geométrico em diálogo com momentos gestuais
pensados e pintados à luz do autoconhecimento através dos dez estados da vida pregados
pelo budismo.
Malo (mal, em espanhol) é o alterego de Bueno (bom), verdadeiro sobrenome do artista.
Jogo de opostos que se atraem e se complementam, como yin-yang. Assim, Malo discorre
sobre a impermanência da vida, que como ele diz, precisa ser atualizada a todo momento.
Ele parte da reciclagem e alteração de antigos trabalhos e outros objetos que encontrou em
casa e na vizinhança para repensar e ressignificar o mundo ao seu redor neste momento de
crise mundial. A exposição Geometria da Imperfeição é uma discussão acerca do que se
passa na mente do ser humano (no caso, o próprio Malo) em situações de adversidade
extrema. Ele diz que a pintura o salvou do caos que a pandemia provocou na sua vida,
notadamente no final de 2020, quando resolveu voltar à arte ao mesmo tempo em que se
aprofundou nos ensinamentos do budismo do monge e filósofo japonês Nitiren Daishonin
(1222-1282).
As pinturas em óleo sobre tela, madeira e livro têm a velatura como técnica principal, que
usa a tinta a óleo aberta, diluída, com transparência, a criar as cores em camadas, o que
exige muito mais tempo na fatura, pois a tinta não se mistura, mas se sobrepõe. O acúmulo
não apaga o fundo, mas revela os estados da vida. Boa parte das obras tem como título
esses estados, que são como uma tradução do que se sucede em nossas mentes a todo
momento. Se as imagens desta série são ora geométricas, rígidas e com contornos
perfeitos ora orgânicas e criadas ao acaso, elas também se esforçam para fazer sentido
dentro de um universo emocional e sensível. Triângulos derretem ou se sobrepõem, criam
tridimensionalidade, tentam se encaixar uns aos outros incansavelmente, como as reflexões
de Malo acerca da pandemia e a crença nessa realidade nova que vivemos.”

 

 

 

 

 

 

 

 

Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é editor chefe do Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.

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