Anthony bordain

O lado desconhecido do chef de cozinha Anthony Bordain vira documentário e estreia na HBO em breve

Por Jota Wagner

O chef de cozinha punk, carismático e bon vivant Anthony Bordain surpreendeu o mundo ao se suicidar em 2018. Sua vida será contada no documentário Roadrunner

Anthony Bordain não era um chef de cozinha comum. Tampouco uma celebridade cuidadosamente moldada como a grande maioria das personagens que vemos através da tela luminosa.

Ainda assim, porém, uma personagem.

Durante sua jornada televisiva, que o transformou em uma estrela (e o incomodou mais do que suportaria), o chef de cozinha americano formado nas ruas do Lower East Side, berço do punk em Nova Iorque levou Barack Obama durante seu mandato para jantar em uma birosca vietnamita.  Fazia jantares com shows de bandas na sala da casa de Jack White, do White Stripes. Era amigo pessoal de Iggy Pop. Mais do que isso: apresentava um programa onde viajava pelo mundo, conhecia restaurantes ganhadores de estrelas Michelan e lugares baratos ou pouco prováveis, como a feijoada que comeu na Rocinha. Tudo isso temperado com um texto em que mesclava com maestria sociologia, urbanismo, cultura pop e filosofia.

Anthony Bordain

Barack Obama e Bordain almoçando no Vietnam – foto: reprodução episódio

Anthony Bordain era aquele cara legal. Não tinha, nem de longe, a arrogância ou a grosseria que fez famosos tantos chefs que hoje vemos na TV. Viajávamos com ele ouvindo suas crônicas a ponto de, mais do que querer comer o que ele provava nos episódios de suas séries No Reservations e Parts Unknown, nós queríamos estar sentados à mesa com ele.

Foi Bordain quem disse que não há ofensa maior a uma pessoa do que se recusar a comer a comida que seu povo come da forma como ela come. É no modo de fazer que se expressa uma cultura oral e milenar, construída com temperos locais e mãos generosas que maceram, picam e misturam as dores e alegrias de um povo.

Sempre acompanhado de uma cerveja, ou de uma cachaça, um pisco, ou qualquer bebida que lhe fosse oferecida em frente às câmeras, Anthony Bordain transmitia a imagem de um hedonista alegre, simpático, sempre disposto a um bom papo.

Em sua casa, entretanto, com as câmeras desligadas, o chef não bebia sequer uma cerveja, nem durante o jantar, qualquer que fosse a ocasião. Essa não era, nem de perto, a maior das dicotomias de Bordain.

Anthony Bordain no Brasil

Bordain no Brasil: caipirinha, feijoada e sanduíche de mortadela – foto: reprodução episódio

A mudança de Anthony Bordain da cozinha para as livrarias… e então para o mundo

Kitchen Confidential: Adventures in the Culinary Underbelly, o primeiro livro de culinária de Anthony Bordain, foi lançado em maio de 2000 após uma resenha mais do que positiva apresentada pela New Yorker antes mesmo que o chef tivesse um contrato com uma editora. Já com 44 anos, Bordain estava longe de ser um chef conhecido. Passava a noite na underbelly de restaurantes e expressou em seu livro a estafante e nada glamourosa vida naquele lugar. Descrito com um livro de “sexo, drogas e alta cozinha”, catapultou Bordain, que inclusive já havia publicado dois thrillers policiais, ao seleto clube das pessoas mais cool de Nova Iorque.

Kitchen Confidential foi seguido por mais 13 livros (sendo dois póstumos) que se dividem entre textos inéditos, livros de receitas, entrevistas e transcrições dos episódios da TV.

Kitchen Confidential

Capa do livro Kitchen Confidential

Do momento em que seu primeiro livro entrou para a lista de mais vendidos do New York Times à sua trágica morte, Bordain publicou mais livros e protagonizou duas séries de viagem culinária ganhadora de prêmios Emmy. Este quarto de sua vida será contado pelo esperado documentário dirigido por Morgan Neville, ganhador de um Oscar de Melhor Documentário por 20 Feet From StardomRoadrunner: A Film About Anthony Bordain será apresentado pela primeira vez no festival Tribeca, dia 11 de junho.  Depois disso, circula pelos cinemas americanos até aportar na HBO Max, em meados de julho.

Fama incômoda e desilusões amorosas

Uma transmissão pelo canal CNN, última “casa” de Bordain, também está prevista. O curioso é que segundo pessoas próximas ao chef entrevistadas pela revista Vanity Fair, principalmente as que o acompanhavam a trabalho em suas viagens, a mudança para a grande rede de TV que o alçou a um estágio de fama foi o que começou a incomodar Anthony Bordain. Ao atingir status de celebridade a ponto de ser reconhecido nas ruas e em restaurantes, mesmo fora dos Estados Unidos, Bordain começou a apresentar um comportamento recluso, evitando sair com o pessoal de sua equipe como era usual para fazer suas refeições sozinho dentro do quarto dos hotéis.

Considerado uma pessoa “incrivelmente tímida” fora do ar, Anthony Bordain por um tempo desfrutava sim de seu desejado estilo de vida. Descrito na mesma entrevista como uma pessoa bastante organizada com os orçamentos do programa, viajava e se hospedava junto com sua equipe e entrega de corpo e alma às experiências que os episódios lhe proporcionavam.

Anthony Bordain e Asia Argento

Bordain e Asia Argento – foto: reprodução Instagram

Entretanto, a própria narrativa da série hospedada na CNN, Parts Unknown, já dava sinais de um homem que tentava mostrar o que tinha dentro de si escancarando suas angústias em relação ao lugar que visitava. As tais “dores do mundo”.

O episódio dedicado a Las Vegas apresentado na temporada de 2014 é de uma desilusão avassaladora. Assim como o último capítulo exibido antes de sua morte, justamente em Nova Iorque, onde o apresentador, ao visitar os lugares em que cresceu, apontava pontos onde comprava drogas e ruelas onde “ninguém ousa entrar” de uma forma bem pouco glamourosa ou divertida.

Um Anthony Bordain diferente, desiludido, percorre as ruas da cidade que o esculpiu. Bordain passava por uma crise conjugal com Asia Argento”. Em entrevista à revista Slate, Bordain se perguntava “o que eu tenho que não desperta a confiança das pessoas, a ponto de não me considerarem um aliado?” ao revisitar sua relação com Argento.

As respostas para as perguntas que todos fizemos

Quando a notícia da morte de Anthony Bordain veio ao mundo, a comoção inicial deu lugar a uma certa indignação. Como é possível?

Infelizmente não são raros os casos de comediantes ou atores que interpretam papeis positivos e felizes nas telas do cinema e da TV encobrirem, por força da imagem que precisam preservar, inquietações e quadros depressivos.

O caso de Bordain, entretanto, vai um pouco além.  Além de ser “o cara leve, divertido e inteligente” a quem provavelmente nós procuraríamos para desabafar se estivesse ao nosso alcance, o apresentador levava um estilo de vida que qualquer apaixonado por viagem daria o braço direito para ter:  viajar para conhecer lugares, pessoas, comidas e bebidas. Comentar suas impressões, e partir para outra cidade do mundo.

Claro, não era tão simples. Mas assim vende-se o sonho na TV. E fazemos questão de não colocá-lo em risco procurando notícias de bastidores. Não no caso de No Reservations ou Parts Unknown.

Foi preciso tempo para que as peças que montam o quebra cabeças começassem a aparecer, através de entrevistas, revelações das ex-esposas, amigos de infância e colegas de trabalho.

É a imagem resultante do quebra cabeças completo que o documentário Roadrunner: A Film About Anthony Bordain promete apresentar.  Afinal, se pretendemos aprender com os erros e dar um passo além coletivamente, algumas perguntas não podem ficar sem resposta.

 

 

 

 

 

 

 

Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é editor chefe do Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.

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