Foto: Kalpesh Lathigra/ReproduçãoO adeus a Glen Hansard: artista voltaria ao Brasil ao lado de Eddie Vedder
Edição: Flávio Lerner
Ícone irlandês se destacou em carreira solo e com os projetos The Swell Season e The Frames, além de inúmeras participações no cinema e na TV
Um acidente de moto tirou a vida de Glen Hansard na manhã desta quarta-feira, 29. Ele tinha 56 anos, e estava com retorno marcado aos palcos brasileiros — havia se apresentado aqui em 2014 e em 2018, e viria para o próximo festival Best of Blues and Rock, tocando antes de seu amigo Eddie Vedder, em 20 de novembro, no Parque Ibirapuera, em São Paulo. Mas a tragédia rodoviária interrompeu esse reencontro com o público brasileiro, assim como a vida e a carreira de um dos melhores compositores de música popular da Irlanda dos últimos tempos.
Hansard se tornou mundialmente conhecido por sua participação no filme Once – Apenas Uma Vez, de 2007, em que fez um músico lutando para construir uma carreira. Ele compôs e interpretou as músicas do filme cantadas por seu personagem, inclusive Falling Slowly, que ganhou o Oscar de “Melhor Canção Original” em 2008.
Além do prêmio — um dos muitos que o filme conquistaria em outras categorias de diferentes premiações —, ele ganhou também o amor: sua parceira de cena, a tcheca Markéta Irglová, se tornou sua companheira romântica, e juntos formaram a banda The Swell Season, que excursionou tocando o repertório celebrizado em Once. O romance acabaria em 2009, mas eles permaneceram amigos e lançaram dois outros álbuns — o último deles, Forward, saiu no ano passado.
A beleza das canções de Once e a química afetiva com Markéta já seriam o suficiente para abrilhantar uma carreira, mas Glen Hansard era mais que isso. Ele começou sua carreira tocando nas ruas de Dublin com apenas 13 anos, e em 1990, montou a banda The Frames, na qual seguiu tocando guitarra e cantando até sua morte. Ao todo, foram oito álbuns de estúdio com eles, cinco como artista solo, três com The Swell Season, e várias participações em discos de outros artistas.
Um desses parceiros foi Eddie Vedder, outra atração do vindouro Best of Blues and Rock. Em 19 de agosto de 2010, em um show de Glen em uma vinícula em Saratoga (EUA), uma pessoa da plateia subiu até o topo da vinícola e se atirou no palco, cometendo suicídio. No dia seguinte ao ocorrido, Vedder telefonou ao colega e disse: “eu sei que você não me conhece, mas eu me chamo Eddie Vedder, canto numa banda chamada Pearl Jam, e eu queria saber como você está”. Dez anos antes, Eddie viu nove fãs do PJ perderem a vida durante um tumulto em um show na Dinamarca. A empatia era genuína.
(Vale destacar que, na hora em que o homem caiu no palco, Hansard parou de tocar imediatamente e tentou prestar primeiros socorros, mas ele já havia ido a óbito. A banda pagou terapia em grupo a todas as pessoas que estavam presentes e testemunharam a tragédia.)
Once não foi o único momento de destaque de Glen Hansard nas telas. Em 1991, já havia participado de The Commitments, filme cult dirigido por Alan Parker sobre operários irlandeses que tentam emplacar sua banda de soul, e fracassam em todas as tentativas. Fez a voz de um personagem coadjuvante em um episódio da 20ª temporada d’Os Simpsons (um músico de rua, como convém), fez pequenas pontas nas séries O Último Cara da Terra e Parenthood, e também no filme Cyrano. A carreira do Swell Season também mereceu um documentário que leva o nome da banda, em 2011.
O artista tinha um selo e uma editora musical, fazia turnês constantemente, e continuava tocando esporadicamente nas ruas. Muitas dessas turnês foram abrindo para Eddie Vedder, incluindo as vindas ao Brasil em 2014 e 2018. Aliás, ele gravou com o vocalista do Pearl Jam na faixa Sleepless Nights, presente no segundo disco solo do baixinho, Ukulele Songs. Além disso, compuseram juntos quase todas as músicas do filme Flag Day: Lembranças Perdidas, de Sean Penn (2014), e em 2011 fizeram a primeira de muitas turnês juntos.
A parceria, infelizmente, não vai se repetir. A estrada, em uma triste ironia, colheu a vida de quem sempre viveu nela, excursionando pelo mundo inteiro e entregando uma música pessoal, poderosa e comovente. A ausência, nos palcos e em vida, será sentida por muitos. As canções, pelo menos elas, permanecem.



