Nosso Segredo Imagem: Divulgação

‘Nosso Segredo’ em cartaz: por que assistir ao ‘Melhor Filme’ do Festival de Cinema de Gramado

Yasmine Evaristo
Por Yasmine Evaristo

Edição: Flávio Lerner


Uma das 15 finalistas à vaga de representante brasileira no Oscar, obra de Grace Passô chega às salas de cinema do país

Chegou aos cinemas nesta quinta-feira, 27, Nosso Segredo, exibido na última semana no 54ª Festival de Cinema de Gramado e um dos 15 finalistas à vaga de representante brasileiro no próximo Oscar.

O filme, que marca o debut da mineira Grace Passô na direção solo de um longa-metragem ficcional, retrata uma família negra que tenta reconstruir sua vida após uma perda dolorosa. A narrativa foca no luto coletivo e na convivência do dia a dia, revelando que Tutu (Efraim Santos), filho mais jovem, guarda um segredo capaz de abalar e reorganizar a estrutura familiar.

No Festival de Cinema de Gramado, Nosso Segredo conquistou o prestigiado Kikito de “Melhor Filme”, além dos prêmios técnicos de “Melhor Fotografia” e “Melhor Direção de Arte”.

Confira abaixo cinco motivos que explicam por que esta é uma obra que vale ser vista — e revista.

5 motivos para assistir a Nosso Segredo 

Transição da dramaturgia para o cinema

Grace Passô traduz para o audiovisual sua visão artística. As poéticas desenvolvidas ao longo de sua trajetória no teatro são reformuladas e expandidas. A cineasta constrói um cinema sensorial, e a escolha de imagens diz muito enquanto os diálogos são suspensos. Grace caminha pela locação para o filme — casa de sua família, em Belo Horizonte — com um olhar carinhoso, transformando cada tijolo, degrau, planta ou mobília em poesia. Além disso, seu texto permite que cada personagem ganhe seu próprio tom enquanto lida com seus demônios internos.

Relação sutil entre o luto e a dimensão racial

O racismo e o trauma não surgem como um tema panfletário, mas também não são apresentados de maneira isolada. Ambos aparecem como uma estrutura silenciosa que molda o afeto e a convivência familiar. Nosso Segredo conecta a individualidade de cada personagem ao sofrimento individual ou coletivo (dores históricas antigas). E tudo isso sem a necessidade de diálogos explicativos.

Atmosfera entre o cotidiano e o fantástico

Com fotografia e direção de arte premiadas, o filme faz uso do mistério e de elementos alegóricos para materializar sentimentos e memórias, tudo o que é invisível nas relações humanas. O longa é tocante, mobiliza muitos sentimentos em quem assiste e é gentil em falar das dores de uma família negra e periférica sem cair em estereótipos recorrentes.

Fortes presenças e participações especiais

O elenco conta com atuações sensíveis que sustentam a densidade da narrativa. Ju Colombo, Flip, Robert Frank, Jessica Gaspar e Marisa Revert dão vida a cada personagem com personalidades distintas, de maneira equilibrada. Além do núcleo principal, a obra traz momentos marcantes que são enriquecidos pela presença de cantores e compositores como Mateus Aleluia e Tássia Reis.

Um exercício de escuta

A direção de Passô não subestima a inteligência do espectador. Sua condução permite que cada um leia nas entrelinhas e absorva as sensações que o ambiente de uma casa de família, em sua rotina diária, quase tediosa, transmite. De acordo com a cobertura do site Mulher no Cinema, o filme exemplifica como a produção cultural e o olhar de criadoras negras atuam como faróis para a experimentação de novas poéticas no cinema brasileiro contemporâneo.

O Festival de Cinema de Gramado

Nosso Segredo

Foto: Edison Vara/Divulgação

Entre os dias 12 e 22 de agosto, aconteceu a 54ª edição do Festival de Cinema de Gramado, com 96 filmes de longa e curta-metragem, divididos em dez mostras. 

Na mostra competitiva, em sua maioria, as obras tinham como tema principal ou transversal, relacionamentos amorosos, sendo boa parte deles marcados por uma temática, a violência contra a mulher. Por exemplo, Pele de Rinoceronte, uma bio sobre o assassinato de Ângela Diniz por seu companheiro, Doca Street; Leite em Pó, um coming of age aos 30 anos de um homem que descobre a opressão por trás do casamento dos avós; Feito Pipa, no qual vemos pessoas idosas vivendo um caso de amor; e Chorão: Só os Loucos Sabem, biografia do líder do Charlie Brown Jr., que mostra a resiliência da esposa de Chorão diante do comportamento destrutivo do artista, e como isso afetou seu namoro e casamento. 

Entre os aspectos mais elogiados do festival, destaca-se a diversidade da seleção competitiva de longas-metragens, tanto com películas mais palatáveis para o público, quanto outras com forte identidade autoral — daquelas que provocam burburinho e muitas conversas após a sessão.

Por outro lado, o evento também enfrentou críticas quanto ao resultado pulverizado de sua premiação oficial. Os prêmios foram divididos entre praticamente todos os concorrentes da mostra. A distribuição equitativa das estatuetas acabou suavizando o impacto das escolhas do júri oficial, deixando todos satisfeitos. Um exemplo disso foi o empate na categoria de “Melhor Ator”, dividida entre José Loreto e Christian Malheiros, respectivamente por Chorão e Justino – Nos Bastidores da Fé

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Yasmine Evaristo

Artista visual, desenhista, graduanda em Letras - Tecnologias da Edição. Membro Abraccine, votante do Globo de Ouro (Golden Globe Awards). Pesquisadora de cinema, principalmente do gênero fantástico, bem como representação e representatividade de pessoas negras no cinema. Devota da santíssima trindade Tarkovski-Kubrick-Lynch.