Ira! Nasi, ao centro, com o Ira!. Foto: Ana Karina Zaratin/Divulgação

Nasi: “O Ira! tem uma mensagem universal e atemporal”

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Edição: Flávio Lerner


Às vésperas de apresentar o seminal álbum Vivendo e Não Aprendendo, vocalista do Ira! fala com Jota Wagner

Neste domingo, o Ira! chega ao Parque do Ibirapuera para executar, de ponta a ponta, o seminal álbum Vivendo e Não Aprendendo, lançado em 1986. O show faz parte do C6 no Rock, inteiramente dedicado à apresentação de LPs clássicos daquela época. A primeira edição do festival paulista, que começou neste sábado (22) e segue no domingo (23), conta com direção musical do produtor Liminha e artística de Rafael Dragaud.

Vivendo e Não Aprendendo não é o primeiro disco do Ira!. Um ano antes, haviam estreado com o elogiadíssimo Mudança de Comportamento.

Tampouco é uma unanimidade hoje em dia. Fãs se dividem sobre qual o melhor álbum da banda. Mas certamente, é o mais importante de sua carreira, cheio de hits como Envelheço na Cidade, Dias de Luta e Flores em Você; é uma obra de rock fundamental, e ouvi-la inteirinha, seja em casa ou no Ibirapuera, é algo que você deveria fazer, independentemente do ano em que nasceu.

Vocalista e membro fundador do Ira!, Nasi conversou com o Music Non Stop sobre Vivendo e Não Aprendendo. Segue o fio!

Jota Wagner: Vivendo e Não Aprendendo foi lançado há 40 anos. Como era a cabeça do Nasi e a vida em São Paulo naqueles tempos?

Nasi: Cabeça boa. Naquele momento, eu ainda dividia um apartamento com mais dois amigos. Um deles era o André Jung, que era dos Titãs e eu trouxe para o Ira! Era um momento excelente do país. Acabou a censura, se avistava eleições livres logo à frente. Havia uma atmosfera auspiciosa, esperançosa de que o Brasil iria sair daquele atoleiro sócio-econômico que a ditadura nos deixou para um Brasil moderno.

Mudança de Comportamento havia saído apenas um anos antes e fez barulho. Houve uma espécie de pressão, interna ou externa, na hora de criar Vivendo e Não Aprendendo?

Não houve pressão direta, mas de nós com nós mesmos. Na verdade, em uma época em que estávamos no auge da indústria fonográfica em vinil, era normal lançar um disco por ano — e nós vínhamos de um disco que foi um dos mais elogiados de 1985. Estávamos em um momento criativo muito bom em torno dessa sonoridade mod que trouxemos no primeiro disco e foi amadurecida no segundo.

Nos shows do Ira!, diversas gerações de garotas e garotos cantam junto. O que você acha que há na sua música que não envelhece?

Eu acho que fica claro que o Ira! tem uma mensagem universal e atemporal, falando sobre certas realidades e certas questões existenciais que pertencem a todos os tempos. Nosso discurso, também. Nossas canções românticas não usam muita giria, sem abusar de modos de comportamento daquele momento. São bonitas e respeitosas, desde aquele tempo até hoje.

O C6 no Rock trará vários artistas de um mesmo movimento, uma mesma geração. O pessoal era unido, se ajudava e, mais importante, entendia a importância do que estava acontecendo?

Olha, não sei se em 86 a gente tinha toda a dimensão do boom do rock nacional e de como a gente virou a música do momento. Não tinha espaço para mais nada — inclusive, infelizmente. Nós éramos, sim, mais próximos. Os artistas ainda não estavam fazendo turnês ostensivas. Naquela época, era comum o Ira! emprestar pratos para a bateria do primeiro show da Legião Urbana, eu discotecar em shows dos Titãs, a gente se encontrar com muita assiduidade. Chegamos até a tentar fazer uma espécie de sindicato (risos), que obviamente não deu certo!

Qual a música do Vivendo e Não Aprendendo que você que, o Nasi cantor, mais gosta de apresentar atualmente?

Todos os três grandes sucessos desse álbum me agradam muito porque causam intensa catarse e sinergia do público com a gente. Isso é um fato. Agora, eu tenho um carinho, um tesão especial em Vitrine Viva. Uma música que vira e mexe volta para o nosso repertório. Porque, além da pegada, do riff poderoso que ela tem, ela já tinha também um certo ar de rap no cantar dela. Já era um momento que eu estava me envolvendo com o rap, em 1986. O jeito que ela foi cantada já emulava o rap.

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C6 no Rock

    Programação de domingo (23 de agosto)

    • Ira! — Vivendo e Não Aprendendo (1986)
    • Blitz (com participação de Fernanda Abreu) — As Aventuras da Blitz (1982)
    • Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá com André Frateschi — “Dois” (1986, Legião Urbana)
    • Marina Lima com Liminha e Lobão — “Fullgás” (1984)
    • “Todo amor que houver nessa vida” — homenagem a Cazuza com Arnaldo Antunes, Frejat, Johnny Hooker, Léo Jaime, Leoni e convidados

    Jota Wagner

    Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.