Beth Gibbons Foto: Kimberley Ross/Divulgação

Não há Portishead sem Beth Gibbons, mas há Beth Gibbons sem Portishead

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Edição: Flávio Lerner


Saiba mais sobre a cantora e compositora britânica, primeira atração confirmada do C6 Fest 2027

Para muitos fãs de música, Beth Gibbons — primeira atração confirmada do C6 Fest 2027 — é a voz e a alma do projeto icônico de trip-hop Portishead. A cobertura perfeita de melancolia para os beats de Geoff Barrow e Adrian Utley, seus amigos de Bristol, Inglaterra. Sem ela, não há a menor chance de existir um outro Portishead. Estão certíssimos.

Para ela, no entanto, a parada é outra. O Portishead é um dos capítulos importantes de sua vida artística. E até mesmo essa importância toda parece ser minimizada pela artista. No auge do sucesso do trio mágico britânico, raramente aparecia nas entrevistas e nos compromissos promocionais, deixando o holofote na cara de Barrow e Utley. A estratégia não deu muito certo. Todo mundo só queria saber da Beth.

A Beth Gibbons maior do que o Portishead é a que veremos no no C6 Fest, um tremendo serviço prestado ao festival que sempre surfou na aura cool. O golaço foi possível porque ela lançou, em 2024, seu primeiro álbum solo. Lives Outgrown levou dez anos para chegar e, apesar de acústico, folk e cheio de experimentalismos, agrada demais aos fãs de Portishead.

A base do show atual é uma banda de sete músicos, com destaque para Howard Jacobs, Tom Herbert, Eoin Rooney, Richard Jones, Emma Smith e Jason Hazeley. Jacobs alterna entre saxofones, flauta, clarinete, serrote musical, marimba e outros instrumentos. Os arranjos ampliam a dimensão acústica e sinfônica de Lives Outgrown, levando ao palco timbres que no disco já soam artesanais e pouco convencionais.

O jornal inglês The Guardian resenhou o show da diva no Teatro Barbican, e apontou para um detalhe interessante (e totalmente Gibbons): ela ficou quase sempre na sombra, muitas vezes em silhueta, isolada no centro do palco, enquanto os músicos eram iluminados. Sua movimentação é mínima: inclina a cabeça, segura o microfone com as duas mãos e, em geral, deixa a voz concentrar a ação dramática.

Aliás, a maioria dos shows têm rolado em teatros. Como será no C6 Fest? Não sabemos, ainda. Beth Gibbons também toca uma única música do antigo trio, Roads, sempre no bis, geralmente o momento de catarse da apresentação. Só que festivais não têm bis. Portanto, dá seus pulo aí, Beth! O público brasileiro vai estar esperando um momentinho de nostalgia. 

Dizer que Lives Outgrown é o ponto de partida da carreira solo da cantora não é correto. Ela já pulava a cerca desde 2002, quando o Portishead bombava. Foi nesse ano que lançou um álbum como integrante do projeto Rusty Man, ao lado de Paul Webb (Talk Talk), apresentando-o no Brasil, no ano seguinte, durante o festival Tim Festival (organizado pela mesma produtora que faz o C6 Fest) no MAM do Rio de Janeiro. 

Em 2005, aventurou-se no cinema, compondo a trilha do filme L’Annulaire, de Diane Bertrand. E em 2014, encampou seu projeto mais ambicioso: cantou, em polonês, a Sinfonia nº 3 de Henryk Górecki, com a Polish National Radio Symphony Orchestra e regência de Krzysztof Penderecki. A apresentação virou álbum ao vivo, lançado no ano seguinte. 

Essa é a Beth Gibbons que, também, foi frontwoman do Portishead. Chegará livre ao Brasil, para passar em revista sua vida artística (o show também conta com músicas do Rusty Man). O público do C6 Fest, lá no Parque Ibirapuera, em São Paulo, agora se apronta para testemunhar o tamanho dessa mulher, que ajudou a dar uma cara ao trip-hop.

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Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.