‘Música pode fazer levitar’, diz Tita Lima, que volta saudosista em ‘Titanium’

Fabiano Alcântara
Por Fabiano Alcântara

Ela cresceu brincando no Estúdio Nas Nuvens. Entre cabos, equipamentos, risos e silêncios, lendas da música e artistas hoje esquecidos, Tita Lima, filha do produtor Liminha, se tornou ela própria uma cantora e compositora de primeira grandeza, calcada em talento bruto e nas melhores referências.

Radicada na Califórnia, ela lançou recentemente o álbum Titanium. Depois de um longo hiato em sua carreira solo desde 11:11 (2007) e Possibilidades (2010), ela retorna com um álbum que analisa seu crescimento e confiança nas composições.

Uma fusão de música pop, reggae, rock e soul, o álbum reflete a jornada e transformação de Tita após um acidente que sofreu em 2015.

Titanium foi gravado com banda ao vivo no estúdio Plug In em SP e é uma das últimas contribuições do admirado e talentoso produtor, Carlos Eduardo Miranda, falecido em 2018.

Após as gravações no Brasil o disco foi levado para Los Angeles onde foram feitos os retoques finais de percussão, sopros, baterias, mixagem e masterização. Para isso, Tita teve a colaboração de Alexandre Bursztyn (ex-Móveis Coloniais de Acajú), Pancho Trackman e Peter Pedro.

O álbum tem um estilo brasileiro não convencional, mas também tem influências norte-americanas de alguns de seus artistas favoritos, como Marcos Valle, Banda Black Rio, Rita Lee, Evinha, Cassiano, Bebel Gilberto, Hall e Oates, Jungle, Cymande, Ecocentrics.

Leia nossa conversa com Tita, que atualmente vive no deserto de Coachella:

Como surgiu o conceito de Titanium?
Tita Lima – Miranda e eu andávamos super nostálgicos ouvindo muito Hall and Oates, Korgis e Fleetwood Mac. Era quase uma competição entre a gente para ver quem conhecia mais as letras e as músicas lado B. Acho que fomos afetados por isso.

Acredita no poder de cura da música?
Tita – Totalmente. A música pode tanto me fazer levitar como pode me fazer causar um acidente de trânsito ou até a perder o apetite num restaurante se não for boa (risos).

O que está rolando de mais interessante na música na sua opinião?
Tita – A independência de lançar sem gravadoras, a mistura de culturas, as barreiras derrubadas, o acesso. Porém está cada vez mais difícil fazer álbuns inteiros. Tudo muito efêmero, tudo descartável.

Eu faço música para eternizar, quero um vinil na minha estante, acho importante contar uma história e não só lançar um single só para lançar e estar na mídia, nada contra quem faz isso, cada um tem seu jeito. Eu ainda não peguei gosto de usar mídia social para divulgação . Se não fosse a minha distribuidora OneRPM, que aliás está fazendo um trabalho divino, nem você nem meu vizinho ouviriam o meu disco (risos).

Seu pai é um herói. Que superpoder gostaria de ter herdado e quais, sem modéstia, sente que foram transmitidos?
Tita – Ele tem inúmeros superpoderes. Outro dia mesmo eu estava conversando com ele e parabenizando porque ele consegue lidar com tanta coisa ao mesmo tempo. É muita gente para se relacionar, bandas, equipes de produção, empregados no estúdio, gravadoras, shows. Eu não sei como ele não fica exausto.

Ele tem realmente paixão por tocar e por produzir, eu sou impaciente, fico com sono no estúdio, detesto software, plugins, marcas de mic… ele ama tudo isso, trata as guitarras como namoradas, é muito engraçado.

O que herdei dele foi um ouvido bom, não absoluto como o dele mas com uma gama de música boa. Cresci ouvindo Gil e Earth Wind and Fire, já pequena, enquanto meus amigos ouviam Xuxa e Balão Mágico. Enfim, tive acesso a muitas gravações e aprendi muito com ele. Sou muito fã dele, admiro demais E por conta disso eu tenho as minhas peculiaridades e uma personalidade forte também.

Tita Lima por J Corrales

Quais são suas maiores influências estéticas?
Tita – Soul music, sem dúvida, música negra de qualquer país nos anos 70 vai bem lá casa em qualquer horário do dia.

Consegue traçar um paralelo entre EUA e Brasil da maneira como o negócio da música é tratado?
Tita – Acho que aqui as rádios são mais ecléticas e dão mais abertura ao jazz e artistas indies. Eu ouço muito som incrível no rádio, às vezes tenho que encostar o carro só pra anotar e nunca esquecer porque talvez aquilo nunca mais toque de novo. É muita informação nova. Quando ouço meu som nessas rádios dou pulos de alegria igual uma criança bestalhona, não só porque estou na programação mas porque dou muito valor ao repertório desses DJs garimpeiros.

Acho que falta isso no Brasa, abrir mais portas para talentos novos. Para entrar em novelas, rádios. Não fosse a Patrícia Palumbo aí eu nunca teria tocado na rádio. Mas no Brasil tem muita gente fazendo festivais incríveis também, essa é a luz no final do túnel. Festivais como Coquetel Molotov, Guaiamum Treloso , Rec Beat, Bananada. Vários legais e a fim de trazer o novo, sem pensar só no retorno comercial. Acho que aqui as pessoas comuns e os lucros na indústria dão mais apoio aos artistas que não são mainstream.

O que tem te deixado animada?
Tita – Ver um coelho sair da toca, ouvir meu som nas rádios que cultivo, conhecer músicos novos em todos os lugares que vou. Viver no deserto do Coachella me faz admirar a natureza e ter tempo de tocar piano, cozinhar, caminhar e conversar e trocar figurinhas com moradores daqui, sem a correria diária da metrópole, eu passei a me concentrar melhor e a dar mais valor e atenção ao próximo e aos pequenos prazeres da vida.

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