Festival de música

Música experimental. Festival Novas Frequências toma o Rio de Janeiro. Conheça a programação

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Chegou a hora de curtir a décima edição do Festival Novas Frequências de música experimental, que acontece online este ano! Chico Dub nos contou a história do evento em uma década em uma série de matérias. Confira o último capítulo.

 

Vamos nessa que falta pouco, quase nada, pro início da 10ª edição do festival dedicado à música experimental Novas Frequências. Não custa nada lembrar que o festival acontece este ano de forma não-presencial. E que as apresentações são mais obras de arte do que show de música, em outras palavras, um cruzamento entre som e vídeo, arte digital, video-performance, radioarte e outras linguagens artísticas. Finalizando esta série colaborativa entre o Novas Frequências e o Music Non Stop, aqui vai a segunda e última parte que destrincha o conteúdo artístico desta edição X. Boa leitura e não se esqueça: de 01 a 13 de dezembro temos um compromisso fechado no www.novasfrequencias.com

A improvisação livre, a música experimental e a música eletrônica, por motivos distintos, se manifestaram como algumas das práticas mais instigantes no ambiente da suspensão da atividade performática trazido pela pandemia. O duo de São Paulo formado pelo trompetista Romulo Alexis e o baterista Wagner Ramos Radio Diaspora se alia à artista e improvisadora vocal Paola Ribeiro em TRIGRAMA, um experimento sobre as múltiplas possibilidades associadas ao número “3”, abraçando simultaneamente o caos, o equilíbrio e a iconoclastia de reminiscências afro-diaspóricas do free jazz. Os discos de vinil preparados ou destruídos da soteropolitana May HD ganham outros contornos ao interpretar, sonora e visualmente, uma reflexão contraditória à utopia explícita nas letras do principais hinos do Brasil. A partir do inusitado improviso de quatro artistas de diferentes localidades, Flora Holderbaum (violino), Marina Mapurunga (cello), Nanati Francischini (guitarra) e Tânia Neiva (cello), cruzam-se imagens e sonoridades que refletem a impossibilidade dos encontros, os obstáculos que atravessam e as singularidades que ocupam um espaço cotidiano de invenção. 

A música experimental tem se destacado neste período da humanidade caracterizado pelo isolamento e pela ansiedade da incerteza, onde diversos artistas do gênero têm criado com a ideia de que ela é uma trilha adequada para um período em que tensão e ansiedade podem aflorar mais facilmente. Os brasilienses MYMK e Drendiela são artistas dentro dessa seara: o primeiro criou um estudo sobre a arquitetura de Brasília a partir dos blocos da Unidade de Vizinhança São Miguel, na Asa Norte: cinza, brutalista, geométrica, poética, reclusa; a segunda, influenciada na Astrologia dos Vedas, contempla um lugar fora do tempo concebido, um tempo circular e não linear, onde passado presente e futuro coexistem.

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Manoel Coby – foto: divulgação

A dance music ou música eletrônica de pista talvez tenha sido quem mais soube se adaptar aos novos tempos pandêmicos — até porque, na verdade, “lives” e DJ sets em streaming já eram uma constante antes da pandemia e com o surto da Covid-19 só fizeram aumentar. Ainda assim, o Novas Frequências preferiu optar, seguindo o formato-conceito da 10ª edição, por outros vieses. Associadas às cenas de vogue e ballroom, Aya Ibeji e EVEHIVE propõem estudos ligados às danças performáticas e contemporâneas. Já Kakubo e Mexo buscam, cada um à sua maneira, encontrar a sua essência ou raio x, seja em relação a laços familiares, seja em relação a sua aura interior.

As sonoridades mais extremas se fazem presente via Deafkids e Test. Ícones do underground mais experimental de São Paulo, ambos trazem vídeos que partem de formatos mais tradicionais, ou seja, que mostram as bandas se apresentando com seus instrumentos, para depois mergulharem no caos e na fragmentação. Entre o punk e o techno, G. Paim, um dos articuladores mais importantes da cena do sul do país, expõe um diário audiovisual de colagem sonora e spoken word que explora as possibilidades de criação, fracasso e experimentação sob o gesto da rasura. Vindo da cena de noise e black metal, o carioca Cássio Figueiredo cria um manifesto tendo em vista o conceito de nigredo (a primeira etapa da jornada iniciática que o alquimista deve seguir para alcançar a Pedra Filosofal) e putrefação. 

A pesquisa acadêmica permeia boa parte do line-up deste ano. b-Aluria e Isabel Nogueira, por exemplo, possuem estudo que perpassa a voz, a palavra, o ruído e a escuta. Projeto de Gabriela Nobre, o b-Aluria se inspira visualmente no teatro de sombras para deslocar a palavra xenoglossia de seu usual contexto religioso e psiquiátrico. Isabel Nogueira, também conhecida como Bel_Medula, propõe um vídeo-poema-sonoro com participação do público do festival a partir de disparadores de explosões de escuta. 

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Tine Bek – foto: divulgação

Um dos eixos mais significativos desta 10ª edição dize respeito a temas associados a questões afro-diaspóricas. Além dos já mencionados trabalhos de Grace Passô, Radio Diaspora e Marcela Lucatelli, Abenç0ada – um dos codinomes de Bartira, atração presente na edição anterior do Novas Frequências – apresenta num podcast que mescla sound design com histórias de encruzilhadas. Marta Supernova, artista visual e DJ, pesquisa padrões rítmicos que funcionam como guia na música de matrizes africanas. O trio formado pelo músico e produtor MONASSTEREO (Lucas Carvalho), o designer de som Pedro Sodré e a pesquisadora das tradições culturais negro-africanas Nathalia Cipriano imagina uma carta ancestral onde são discutidas cosmo-percepções afrobrasileiras através de uma ritualidade que evoca sons do passado e do futuro definindo um plano sonoro do agora. MahalPita, ex-BaianaSystem, cruza improviso sonoro, spoken word e investigações mediúnicas (transcomunicação instrumental, fenômeno eletrônico de voz) partindo do estudo simbólico do eco enquanto camadas de presenças, energias, traumas e memórias acumuladas.

Duas obras buscam visualidades – ou materialidades – distantes do elemento virtual. Ainda que também se manifeste na forma de vídeo. CLARÃO, da dupla Fronte Violeta, também pode ser experienciado em meio à queima de incensos especiais concebidos pelas próprias artistas, trazendo outras camadas sensoriais para a proposta. Em mais um proposição que investiga a palavra – só que agora dentro do contexto de uma arte sonora não-coclear (que se refere ao som, mas de forma silenciosa, sem o componente de áudio) – Camila Proto cola lambe-lambes pelas ruas do Centro do Rio e propõe uma espécie de zona de escuta onde cada cartaz apresenta frases de textos emblemáticos da literatura brasileira – obras, dentre outros, de Clarice Lispector, Guimarães Rosa e Mário de Andrade. 

Só chegar!!

 

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