Música experimental. Conheça a história do festival Novas Frequências, que celebra dez anos em 2020.

Por Jota Wagner

Em 2020, o Festival Novas Frequências, dedicado à música experimental, celebra 10 anos. Pedimos ao realizador do rolê Chico Dub para contar a história do festival e ainda tudo o que está por vir na décima edição, em uma série de matérias que começa hoje!

Por Chico Dub

Em 2020, o Festival Novas Frequências celebra 10 anos. Muito insano pensar que uma ideia tão fora da curva surgida lá atrás não só iria se tornar realidade como completar uma década de vida. Quem iria imaginar que um festival carioca de música experimental e arte sonora chegaria tão longe? Eu certamente, não!

Num ano tão difícil e sofrido como esse que estamos vivendo a sensação que dá é de que comemorar qualquer coisa parece um contrassenso. Ainda assim, resolvemos, sim, manter os fogos e os artifícios. Chegar aos 10 anos é uma marca histórica para a cena de música de invenção no país e isso precisa ser grifado de todas as cores, não pode ser esquecido. Não foi fácil chegar até aqui, 2020 não está sendo fácil e não será nada fácil continuar no futuro próximo. E é por isso que o Novas Frequências chega aos 10 anos trazendo como tema central o “X”. Mas isso é um papo pra depois! 

Antes, principalmente para aqueles que não nos conhecem, proponho uma introdução sobre o festival “ano-a-ano” dividida em 2 etapas. Dos primeiros anos como um pequeno projeto de ocupação no Oi Futuro Ipanema, ao formato descentralizado dos anos seguintes que se espalha pela cidade com a premissa de ocupá-la como se fosse um palco, muita, mas muita coisa mesmo já aconteceu no Novas Frequências. Entre 2011 e 2019, por exemplo, mais de 200 apresentações foram realizadas por artistas de aproximadamente 30 países. Dentre eles, alguns dos mais consagrados nomes da cena internacional de música experimental, como William Basinski, Stephen O’Malley, Tim Hecker, Ben Frost, Keiji Haino, Oren Ambarchi, Otomo Yoshihide, The Bug, Actress, Beatriz Ferreyra, Dean Blunt & Inga Copeland, Mika Vainio, Pole, Vladislav Delay, Julianna Barwick, Aisha Devi, Mark Fell, Aki Onda, Lawrence English, Lea Bertucci, Fèlicia Atkinson, dentre inúmeros outros.

Julianna Barwick

2011

No ano de estreia do NF, a programação de 5 dias no teatro do (hoje, infelizmente, extinto) Oi Futuro Ipanema contou com apenas 6 artistas: Sun Araw, Andy Stott, Murcof, Com Truise, Pazes e Psilosamples. Mesmo tímida em tamanho, a relevância da programação causou forte impacto. Segundo o Estadão, por exemplo: “Pequenino porém valente, o festival Novas Frequências chegou aos 45 do segundo tempo para injetar entusiasmo na monotonia que permeou grande parte das excursões de bandas estrangeiras pelo País este ano.”

2012

Em relação a formato, a segunda edição do NF manteve a ocupação no teatro do Oi Futuro Ipanema e cresceu de forma moderada. Foi o suficiente para vencer o (também extinto) Prêmio Noite Rio na categoria de melhor festival até 5 mil pessoas. A grande novidade entretanto foi uma edição paralela, em formato “pocket”, que levou a São Paulo, numa parceria com o Queremos, as atrações Actress, Pole e Hype Williams (Dean Blunt & Inga Copeland). 

 

2013

Somente a partir da 3ª edição é que o Novas Frequências começou a ganhar o formato adotado até 2019: um evento descentralizado, espalhado pela cidade. Foi também o ano de pesos pesados do experimental como Stephen O’Malley e Tim Hecker e, graças a uma parceria com o British Council, podemos contar com as atrações britânicas David Toop, Heatsick, Lee Gamble, Demdike Stare e Miles. Além dos já tradicionais shows no Oi Futuro Ipanema, foram realizadas rodadas de discussões sobre música e processo no POP – Polo de Pensamento Contemporâneo e uma festa no extinto La Paz, na Lapa. Em retrospecto, 2013 foi o comecinho de tudo…

 

2014

Os 14 dias, 50 artistas e 8 espaços da 4ª edição solidificaram de vez o Novas Frequências como um festival amplamente diverso dentro do mesmo nicho: o experimentalismo. 

As inovações na programação se deram através de residências artísticas, as primeiras realizadas pelo festival. O japonês Aki Onda, em busca de uma cartografia sonora do Rio de Janeiro, visitou espaços como a comunidade da Maré, a Floresta da Tijuca, ateliês de artistas, a Saara e diversos outros. A partir desta coleta, criou uma peça sonora para o Oi Futuro Ipanema. Já o inglês Philip Jeck, artista sonoro que costuma trabalhar com toca discos dos anos 50 e 60 e discos de vinil descartados, desenvolveu algo semelhante, só que com discos brasileiros encontrados em lojas, sebos ou mesmo dados por artistas próximos. Para sua performance ao vivo, colaborou com o quarteto Rádio Lixo

aki Onda

Outro destaque digno de nota foi a proposta apresentada pela artista Vivian Caccuri. Sua “Caminhada Silenciosa” de 8 horas ao redor de pontos de interesse acústico, significou a primeira incursão do festival para “fora dos palcos”, uma pesquisa que se manteve anualmente até virar tema central em 2019. 

 

2015

O destaque absoluto da 5ª edição foi uma ocupação no galpão/ateliê do Tunga, através de uma espécie de festival dentro do festival. A cada dia, um artista diferente (Ava Rocha, Lucas Santtana, DEDO, Lilian Zaremba, Luísa Nóbrega, Barrão, Fèlicia Atkinson, dentre outros) desenvolveu um diálogo com a instalação “Delivered in Voices” – justamente a primeira obra sonora da carreira deste que foi um dos gênios máximos da arte contemporânea brasileira. Infelizmente, foi o último trabalho de Tunga, que sucumbiria meses depois vítima de um câncer.

Instalação de Tunga

Instalação de Tunga

2015 também foi marcado como o ano em que desenvolvemos ações extra-festival, realizadas em diferentes momentos do ano. Negro Leo e Chinese Cookie Poets se apresentaram no festival escocês Counterflows e na mítica casa de shows Cafe Oto, em Londres – o espaço mais incensado (e com razão) da música experimental no mundo todo. Um dos nomes mais quentes da nova cena de noise e power electronics, a estadunidense Pharmakon, realizou uma performance na Audio Rebel. E, finalmente, o pernambucano QRG tocou no ICAS Festival, em Dresden.


To be continued… 

Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é editor chefe do Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.

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