MUCHO! Ciudad Sonora Milo J é uma das atrações do MUCHO! Ciudad Sonora. Foto: Reprodução

Com gigantes do continente, MUCHO! Ciudad Sonora dá aula de música latina em SP

Leonardo Vinhas
Por Leonardo Vinhas

Edição: Flávio Lerner e Jota Wagner


Festival ocupa a capital paulista com atrações argentinas, peruanas, colombianas e representante brasileiro

O Brasil também é latino — mas custou aos brasileiros se darem conta disso. Por anos, ficamos cobertos por um preconceito contra qualquer verso cantado em espanhol que não saísse da boca da Shakira, do Manu Chao ou do Maná. Muita água rolou por baixo dessa ponte para que isso mudasse e a gente pudesse ver Bad Bunny em um estádio, ou uma banda veterana do underground argentino, como o Norma, tocando na Virada Cultural.

Na verdade, teve muito suor, de produtores de shows e de festivais, que correram riscos para criar um circuito de shows de expoentes de hablaespana por aqui. Dentre eles, as produtoras Mundo Giras e Difusa Fronteira, que, além de diversos eventos únicos, criaram o festival MUCHO!, que em 2026 chega com o circuito MUCHO! Ciudad Sonora.

Esse circuito teve início com uma pequena turnê do “coisa nossa” Manu Chao, entregou a estreia dos regueiros argentinos Los Cafres em agosto, e segue até dezembro com mais cinco nomes estrangeiros (todos da América Latina, exceto por um espanhol) e um brasileiro (com afinidade estética bem próxima a de vários de nossos vizinhos).

Aproveitamos a oportunidade para apresentar os hermanitos que vêm por aí.

Móveis Coloniais de Acaju (Brasil)

Quando saiu Idem (2005), o primeiro álbum do Móveis Coloniais de Acaju, os indies piraram. A banda de alguma maneira parecia ter pegado o lirismo e a atmosfera circense das primeiras coisas do Los Hermanos e misturado com ska, punch e bom humor. Em vez daquele prato ralinho e desidratado de Camelo e Amarante, era uma sopa rica, cheia de sustança e muito curtível, com shows enérgicos e dançantes.

Qual não foi a alegria de muita gente ao ver que eles podiam entregar ainda mais, injetando latinidades e brasilidades variadas no som, e aumentando ainda mais a intensidade das apresentações ao vivo? Os Móveis viraram presença constante nos muitos festivais de médio porte que rolavam pelo Brasil antes desse circuito começar a ruir e se consolidaram como popstars no DF e como um pequeno sucesso mainstream (ou um grande sucesso underground) no país.

Porém, cansados da estrada e de conciliar a banda com trabalho e família, seus integrantes encerraram as atividades em 2016. Voltaram recentemente, apenas para shows esporádicos — então quem era fã ou tiver curiosidade pela banda, vale aproveitar, porque pode não rolar outra chance.

  • Show: 11/09, na Casa Natura Musical

Milo J (Argentina)

Esse eu acho que a gente nem precisa apresentar, né? Ou melhor, precisa sim, e já o fizemos. O rapaz é fera: é a fúria dos excluídos, marginalizados e invisibilizados, misturado com beats criativos, muito lirismo e sensibilidade à flor da pele. Vai estar no Rock in Rio também, mas os shows da Audio, por serem em um espaço menor e com mais chance de conexão, prometem ser épicos.

  • Shows: 13/09 e 15/09, na Audio

Iseo & Dodosound (Espanha)

Leire Villanueva López é a cantora, Alberto García Iriarte é o DJ e beatmaker, mas pode chamá-los de Iseo & Dodosound. Só não caia no papo de quem os chama de um duo de reggae e dub — esses estilos são a base do som deles, mas a receita tem outros ingredientes, como reggaeton, R&B e (muito) trip-hop.

Eles estiveram no Brasil em março de 2025 e lotaram o Citylights, em São Paulo. Apesar de ter sido há pouco tempo, grande chance de o show ser diferente, já que essa apresentação vem na esteira de Volando, quinto e altamente canábico álbum da banda.

Uma observação curiosa: eles tocam no Cine Joia dois dias antes da apresentação da El Mató a Un Policia Motorizado. Quem imaginaria, dez anos atrás, que teríamos dois renomados artistas de hablaespana tão distintos, em tão curto intervalo de tempo, em palcos brasileiros? 

  • Show: 09/10, no Cine Joia

Los Mirlos (Peru)

Los Mirlos são o maior expoente da segunda geração da chicha, a cumbia psicodélica peruana. Surgidos em 1972, pegaram a influência dos pioneiros Los Destellos e Juaneco y Su Combo, aumentaram de leve o volume dos amplificadores, e expandiram muito a psicodelia. Tornaram-se famosos em seu país, anos depois viraram artistas de nicho, mais tarde ganharam uma aura cult e hoje são reconhecidos como uma instituição da música peruana.

Seu som tem “sabor de selva”, conforme a definição do fundador Jorge Rodríguez Grández. E o homem não está errado: a base são riffs curtos, com timbres caprichados de guitarra, que dialogam com as tramas percussivas para criar uma espécie de mantra instrumental dançante, ou uma viagem leve de ayahuasca no ritmo da floresta.

Entre discos inéditos e compilações, a discografia soma mais de 30 títulos. A internet ajudou a banda a ficar mais conhecida mundialmente no começo deste século, e hoje eles fazem diversas excursões internacionais. Já passaram pelo Brasil várias vezes, e sempre entregaram showzaços.

  • Show: 30/10, no Cine Joia

La Bomba de Tiempo (Argentina)

La Bomba de Tiempo é uma porrada rítmica com 16 percussionistas que passeiam por todos os batuques que já embalaram alguma dança na América Latina, da murga ao samba e o que mais você imaginar. Fizeram fama com sua residência no Ciudad Cultural Konex, um espaço famoso de Buenos Aires onde se apresentam todas as sextas.

Suas apresentações têm espaço para muito improviso, e raramente um show é igual ao outro. Já nos discos, são mais “cancioneiros” e abrem espaços para participações — os brasileiros Paulinho Moska e Francisco El Hombre já estiveram entre eles. 

Desde 2006 rodam o mundo com seu espetáculo, chegaram a fazer apresentações mistas de música e teatro, e viraram tema de livro, além de serem reconhecidos como patrimônio cultural da cidade de Buenos Aires. 

  • Show: 24/11, na Casa Natura Musical

Aterciopelados (Colômbia)

Os Aterciopelados (“aveludados”, em espanhol) são possivelmente a banda de rock mais influente de toda a história da Colômbia. Quando o “punk da periferia” Hector Buitrago e a aristocrática Andrea Echeverria se uniram em 1990 para tocar rock, não podiam imaginar que dariam início a uma carreira longeva, com grande impacto na cena do seu país e também de outros, como México, Argentina e Peru.

A sonoridade mais punk do primeiro disco logo abriu espaço para um ensolarado rock de tintas andinas, para depois assumir influências eletrônicas, tornando-se um pop multifacetado. O auge criativo e comercial do grupo foi entre 1995 e 2000, com quatro álbuns que concentram a enorme maioria de seus hits: El Dorado (1995), La Pipa de la Paz (1996), Caribe Atómico (1998) e Gozo Poderoso (2000). Mas sempre se mantiveram ativos, com pausas para projetos solo e discos esporádicos.

A formação que vem ao Brasil é um quinteto e vem apoiada na turnê do disco Genes Rebeldes, de 2025. Mas pode ficar sossegado que Bolero Falaz, Baracunatana, El Estuche e outros hits estarão no setlist. Afinal, a última vez que a banda veio ao Brasil foi em 2011, em um show com Pato Fu e Paulinho Moska.

  • Show: 30/10, no Cine Joia

+ Participe do canal de WhatsApp do Music Non Stop para conferir todas as notícias em primeira mão e receber conteúdos exclusivos

+ Siga o Music Non Stop no Instagram para ficar atualizado sobre as novidades do mundo da música e da cultura

Leonardo Vinhas

Leonardo Vinhas é jornalista, escritor e produtor cultural na ativa há mais de 20 anos. Escreve para o Scream&Yell desde 2000, já produziu 19 discos para o selo S&Y, e foi corresponsável pelo Festival Conexão Latina.