Meneio vai te fazer mergulhar na psicodelia de ‘Movediço’

Fabiano Alcântara
Por Fabiano Alcântara

O quarteto instrumental Meneio acaba de lançar o álbum Movediço (Balaclava Records). O trabalho, composto por dez temas inéditos, foi produzido pela banda, gravado nos estúdios El Rocha por Fernando Sanches e Éric Yoshino e Mouseen por Jovem Palerosi, mixado por Felipe Julián (Craca) e masterizado por Fernando Sanches. A identidade visual é da artista Haxatag.

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O nome surge à partir de inspirações em filosofias orientais, onde as mudras são gestos que permitem sintonizar com frequências específicas de energia do universo. A expressão artística como terapia que faz a sintonia entre o micro e o macrocosmo, a mistura das diferentes formas de ondas sonoras para a exploração da mente em suas infinitas camadas.

Por que quis fazer esse disco e em que momento apareceu o conceito?
Jovem Palerosi
Esse disco, assim como o primeiro, surge bem orgânico, por uma necessidade de se expressar e seguir materializando os sentimentos. A banda é um ponto de confluência para certas criações que só fazem sentido coletivamente e essas músicas ganham uma vida própria, precisam nascer. Decidimos deixar cada uma delas amadurecer em seu tempo e fechar o repertório para um álbum que tivesse uma unidade ao invés de lançar singles ou EPs.

O nome Movediço vem dessas imersões e dos diferentes fluxos do processo criativo que te coloca desafios para seguir o movimento. E o nome do álbum acabou fazendo ainda mais sentido neste contexto do Brasil contemporâneo meio distópico, onde a gente sempre tira forças extras para seguir na luta pelos nossos sonhos.

Existe algo na sua música que seja típico de seu lugar de origem?
Jovem –
Não sei se consigo enxergar tão claro na música em si, mas com certeza no processo de se fazer ela. Este disco tem mais a ver com este momento de agora, de estar concentrado na capital mas ao mesmo tempo tentar encarar a cidade de uma maneira mais leve, talvez com a inspiração do interior, onde moramos tanto tempo. Aqui eu e o Du moramos muito perto também, essa sensação de vizinhança e parceria têm sido cada vez mais raro na vida contemporânea e acredito que ela foi essencial na criação do disco, desde as composições até as gravações.

Que diferenças destaca entre a nova geração da música instrumental e a de grandes monstros como Hermeto, Gismonti e Moacir Santos?
Jovem – 
Acho que hoje com maior facilidade de acesso aos meios de produção surgiu muitas possibilidades, a música instrumental se tornou um espectro gigantesco e acredito que existe gente que segue o legado dos monstros e muita gente que tenta trilhar seus próprios caminhos, tudo é possível. Talvez atualmente haja mais influência extrangeira do que em gerações anteriores, mais acesso a sons de todo o mundo e a possibilidade de ser autodidata, estudar e se produzir artísticamente. Por outro lado, tudo tende a ser mais efêmero e o mercado da música está sempre se atualizando, necessita de novidades o tempo todo, o que muitas vezes vai na contramão do processo criativo dos artistas. Acredito que antigamente, por mais dificuldades e pouco acesso aos meios, havia um mínimo de estrutura e condições para amadurecer as linguagens e construir uma discografia, talvez os músicos conseguissem se concentrar mais em só fazer música.

Quais são suas principais referências estéticas fora da música?
Jovem –
O surrealismo e o dadaísmo foram as primeiras “escolas” que me influenciaram muito. O cineasta Luis Buñuel tem um papel muito grande nisso, ter aberto algumas portas do mundo onírico. Sempre me interessei também por alguns artistas que transcederam os suportes e as linguagens, como o sul-coreano Nam June Paik, que fez parte do grupo Fluxus. Na literatura, atualmente estou hipnotizado pelos livros de Milan Kundera, eles conseguem falar sobre o macro e ao mesmo tempo sobre a essência dos seres humanos.

Quais são suas maiores influências?
Jovem –
Acho que ao fazer meus trabalhos tento negar as influências diretas, mas é claro que elas estão ali em algum lugar e acabam contaminando. Na música foram muitas fases, quase sempre ligado a artistas mais específicos. Dentro do universo do Meneio não tem como negar a influência que o John Frusciante teve desde minha adolescência, primeiro com o Chili Peppers mas principalmente em sua carreira solo. Me lembro de escutar o álbum “To Record Only Water for Ten Days” em loop (às vezes ainda faço isso). E o Jonny Greenwood foi muito inspirador no momento em que decidi levar a sério minhas criações, o show do Radiohead em São Paulo em 2009 eu considero um marco em minha vida, saí de lá totalmente transformado e com uma energia de outro mundo, instigado em criar minha linguagem. Curiosamente os dois são artistas que começaram a se expressar através da guitarra, mas que na verdade possuem a sensibilidade para explorar qualquer técnica ou suporte e acima de tudo criar uma identidade muito própria.

Quais são seus valores essenciais?
Jovem –
Eu ainda acredito no amor, na amizade sincera, na soma das diferenças e no poder da experimentação. A ganância, falta de empatia e respeito são os maiores problemas da atualidade, então precisamos reafirmar constantemente a necessidade de colaboração entre os seres humanos, pois a sociedade toda nos coloca em competição, e a vida para mim está bem longe disso.

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