Max Roach tocando bateria

Conheça a história de Max Roach, um dos maiores gênios do Jazz

Por Adriana Arakake

Janeiro foi generoso com o Jazz. Entre os vários aniversariantes do mês, contamos a história do gênio Max Roach

A inebriante história do gênio Max Roach!

Janeiro é o mês de aniversário de grandes nomes do jazz.

George Duke (12.01), tecladista conhecido por misturar jazz com outros gêneros e colaborar com Frank Zappa e fazer parte da banda Note Jazz Club, liderada por Al Jarreau.

Gene Krupa (15.01), enérgico baterista que tocou com Glenn Miller, Buddy Rich, Benny Goodman, (o icônico solo de Sing, Sing, Sing dá uma pista sobre seu talento e o porquê de sua popularidade na era do swing)

Bobby Hutcherson (27-01), vibrafonista que colaborou com Grant Green, Dizzy Gillespie , Herbie Hancock, McCoy Tyner. Sua forma de improviso e composição ajudaram a definir a modernidade do jazz e firmá-lo como um dos maiores da geração free jazz.

E se eu citar aqui martinis, carros de luxo, mulheres maravilhosas, qualquer um vai associar à uma das maiores franquias do cinema, mas nada, na minha opinião, remete mais ao universo Bond quanto a voz sensual e poderosa de Shirley Bassey (08-01) entoando os versos de Goldfinger, 1964, por exemplo. Lady Bassey é uma lenda, uma das artistas mais populares da música britânica, detentora de diversos prêmios e da incrível marca de ser a primeira artista feminina a ter um álbum de sucesso por sete décadas consecutivas, alcançada após o lançamento de seu último disco em 2020, I Owe It To You All. 

O gênio Max Roach

Capa do disco Max Roach - Deeds Not Words

Entre tantos grandiosos, escolhi me aprofundar sobre o imenso Max Roach, porque sou fã de todos os citados, mas Roach tem um lugar especial no meu coração e nas minhas caixas de som.

Maxwell Lemuel Roach nasceu em 10 de  janeiro de 1924, numa pequena cidade da Carolina do Norte, mudou-se para o Brooklin, NY, com a família quando tinha 4 anos, filho de uma cantora gospel, começou a estudar piano e trompete numa igreja batista aos 8 anos de idade e tocar bateria apenas alguns anos depois, tendo em Jo Jones e “Big” Sid Catlett  suas maiores inspirações. Estudou na Manhattan Music Schoool, onde quase desistiu quando um professor disse que sua técnica era “incorreta”. Com apenas 16 anos e um bigode desenhado a lápis para parecer mais velho, tocou brevemente na Orquestra de Duke Ellington, substituindo Sonny Greer.

Em 1942 inicia participações regulares em jam sessions por clubes tradicionais como Minton, ou Monroe’s Uptown House, no Harlem, ao lado de grandes nomes como Charlie Parker, período em que já começava a desviar dos padrões do swing da época e o favoreceu no desenvolvimento de suas avançadas ideias rítmicas, que ajudariam a marcar o bebop, assim como fez o também revolucionário baterista Kenny Clarke. Em 1943, faz sua primeira participação em um álbum, acompanhando o veterano saxofonista Coleman Hawkins, daí por diante foram inúmeras participações em alguns dos mais importantes discos de jazz como Birth of Cool, Miles Davis, 1949/1950, ou nos discos de Charlie Parker, com quem trabalhou de 1976 a 1953, onipresente na cena jazz, colaborou também com Thelonious Monk , Sonny Stitt, Fats Navarro, entre outros.

Max Roach e Kenny Clarke são os grandes nomes que revolucionaram a bateria e percussão de jazz.  Clarke mudou a ênfase da bateria do bumbo para o prato de condução e chimbal, mas foi Roach quem  trouxe para essa nova técnica uma imaginação e criatividade que são influencias até hoje, sendo capaz de manter ritmos simultâneos, separados em cada mão o que tornou a bateria muito mais do que um meio de marcar o tempo e destacou Roach ao posto de músico de linha de frente. A música “Ko-ko” de Charlie Parker, é um ótimo exemplo de como a habilidade em velocidade e antecipação realçam o lirismo de Bird e Gillespie. Preciso destacar também a participação no clássico St. Thomas, de Sonny Rollins, porque simplesmente amo a brincadeira toda, a introdução de bateria, seguida das notas do sax de Rollins, veludo nos meus ouvidos.

Em 1954 passou de sideman para líder quando se uniu ao trompetista Clifford Brown para formarem um quinteto, com o saxofonista tenor Harold Land, um ano depois substituído por Sonny Rollins, o pianista Richie Powell e o baixista George Morrow. O grupo especializado em uma versão despojada do bebop, mais tarde chamada de hard bop, e um dos primeiros grupos a executar peças em tempos incomuns para a época, que iam além do tradicional 4/4,  como por exemplo os ritmos e modalidades de valsa 3/4. Confira principalmente no belíssimo Jazz in 3/4 time (EmArcy Records, 1957).

Infelizmente o grupo teve curta duração, terminando com a morte de Brown e Powell, em um trágico acidente de carro. Na década seguinte o nível de arte e inovação permaneceu e passaram pelas bandas que Roach liderava nomes como Eric Dolphy (sax, flauta e clarone), Stanley Turrentine (saxofone), Donald Byrd (trompete), entre outros. Poucos de seus grupos contaram com pianistas e tinham a bateria como destaque.

Em 1952, Roach co-fundou a Debut Records com o baixista Charles Mingus, lançando “Jazz at Massey Hall”, um registro de um show, considerado por muitos como “o maior show de todos os tempos”, com participação de Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Bud Powell, Mingus e Roach.

Os grandes álbuns de Roach

Alguns dos discos mais importantes de Roach como líder são Money Jungle, 1962, e com toda certeza We Insist! Suite Freedom Now , com letras de Oscar Brown Jr. e vocais de sua então esposa Abbey Lincoln, com quem Roach teve uma parceria musical por mais de 10 anos.

No inicio dos anos 1960, foi um dos primeiros jazzistas a aderir ao movimento de luta pelos direitos civis e usar a música para falar sobre questões raciais e políticas. A capa, uma foto em um balcão de lanchonete, remetendo ao “sit in” que pregava o fim da segregação nos estabelecimentos e ao protesto de Martin Luther King, que se sentou com outros 51 ativistas em um restaurante “para brancos” em Atlanta e todos acabaram presos como invasores. O clímax do álbum está em “Triptych: Prayer / Protest / Peace” com um dueto sem palavras entre Roach e Lincoln, de lamento e raiva transformados em pura beleza.  Os cinco movimentos do disco narram além da luta pelos direitos civis, escravidão, a emancipação e o Movimento pela Independência da África.

Associado ao bebop, Roach não se limitou a esse estilo musical e nem mesmo ao jazz, um artista inovador e aventureiro até o fim de sua carreira, escreveu musicais para a Broadway, colaborou com coreógrafos, e com o rapper Fab 5 Freddy na década de 1990, conhecido por apresentar o programa “Yo! MTV Raps.” Na década de 1970, formou uma organização musical única a M’Boom, uma orquestra só de percussionistas (Fred King, Joe Chambers, Ray Mantilla estavam entre os integrantes).

Considerado um dos maiores bateristas do mundo, fez história. Permaneceu ativo até perto de seu falecimento em 2007.  Max Roach é pra ser ouvido e aplaudido de pé.

 

 

 

Adriana Arakake

Adriana Ararake é DJ é especialista em Jazz, Soul e Blues do Music Non Stop.

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