Marisco Festival quer ser o festival que mostra a força do Brasil na disco music global; saiba como foi

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Por Jade Gola

Testemunhamos a fundo a primeira edição do Marisco Festival, celebração da música disco, brasileira e dançante que teve sua primeira edição realizada neste último fim de semana (14 e 15) na Fabriketa, espaço de eventos no industrial bairro paulistano do Brás, e agora é registrado em texto e com fotos de Flavio Florido.

A empreitada foi do selo/coletivo Mareh Music, famosa por seus réveillon sem Boipeba (BA), pelas recentes festas Babel e por ajudar a aumentar a combustão do Brasil como destino global da disco music de ontem, e de hoje, e suas afiliações com todas as ramificações da dance music possível. Era isso que o Marisco buscou centralizar num festival bonito, onde o foco era a musicalidade. Para tanto, ícones nacionais como o grupo de fusion jazz Azymuth e o histórico Marcos Valle subiram ao palco, tocando para clubbers e uma moçada num interessante choque cultural e geracional.

DJs locais e nomões gringos fechavam essa costura, ilustrando em sets, beats, mixagens e seleções essa trama de referências em torno da disco music e da brasilidade – o próprio Marcos Valle notou, em nossa entrevista, como a disco music lá nos anos 70 nascia bem orquestrada e cheia de influências do ritmo e da percussividade brasileira, algo que se traduz em melting pots culturais bem brazucas nas pistas até hoje, do Mundo todo (os Selvagens contaram que o DJ Harvey havia tocado “Estrelar” em Moscou outro dia…).

  • Edu Corelli fez um apanhado do clima, do público e das atrações do primeiro dia do Marisco, leia.

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Se no sábado o Azymuth fez um show mais jazzístico e descontraídão num dia frio, a domingueira comandada por Marcos Valle foi mais agitada e quente, ele um exímio pianista e cantor aos 72 anos de idade, que não perde o fôlego, muito bem acompanhado de banda polpuda com destaque para a orquestra de metais e a backing vocal que sempre dá aquele toque feminino empolgante.

Samba de Verão” e “Estrelar”, foram os hits que representaram com a galera na pista, e Marcos, sagaz, percebeu o teor de festa dançante e seu repertório variou entre instrumentalidades que seguravam bem a peteca, por entre ritmos de baião e arranjos que eram pura disco (e até proto-house music), e fazendo geral dançar com seu bom gogó nas menos desconhecidas. Saiu saudado, voltou para o bis e foi aplaudido por um paredão de DJs que o tocam e que sentiam testemunhar algo especial.

Domingo o frio foi embora e deu lugar a roupas mais curtas!

Domingo o frio foi embora e deu lugar a roupas mais curtas!

No sábado o cartel de DJs era bem diversificado, de donos de loja de discos de SP (Paulão) à house music destacada em suas origens orientais (o gamer Soichi Terada e Daniel Wang, sempre performático, que teve que ser expulso dos palcos pelos técnicos, e que frisou bem como house music é pensada como algo negro e americana, mas foi feita por máquinas criadas em Osaka, Japão). Outro destaque discreto foi o holandês Antal, vinyl digger e dono da Rush Hour que fez um set impecável de house music old school, Louie Vega tremendo as telhas do Brás.

Já no domingo o line-up apresentava-se mais “nobre”, headliner, com destaques da disco/house nacionais como Carrot Green, que estava bem psicodélico, e o duo Selvagem, que alternou bem entre uma lombra xamânica, oriental, macumbeira e soporífera (o Augusto), com electro e techno mais pesadão (o Millos). Em comum aos ambos Selvagens, seleções aqui e ali de pérolas desconhecidas do cancioneiro dançante nacional, coisa no qual eles são muito bem especializados.

Carrot Green apresenta sua disco psicodélica no eixo Rio-SP

Carrot Green apresenta sua disco psicodélica no eixo Rio-SP

Após Marcos Valle, o horário nobre foi preenchido pela dupla Eric Duncan e Tim Sweeney. DJ, voz e dono do Beats In Space, Tim tocou bem, mas foi eclipsado por um Duncan doidão e perdido em sua boemia performática, tirando os graves por um tempão e picotando os médios e todos os knobs possíveis, no matter what se o público da pista estivesse gostando ou não. Ser DJ é um trabalho de dança e lazer solitário, e muitas vezes esses curadores musicais perdem-se na solidão de curtirem o mixer sozinho – ainda bem que Duncan tem seleção e técnica afiadas (seu som é um tipo de disco cosmic e deep), e ele (junto do Daniel Wang como nossa Xuxa animada no palco) mostrou-se um punk disco entre tanta classe, fineza e bom gosto que um festival como o Marisco portava.

Se o duo Duncan & Sweeney repetiu a épica vibe de uma festa de barco no último réveillon da Mareh? Provavelmente não, memórias ravers, festivas e de pistas se cristalizam e são difíceis de repetir, por mais que tentemos…

Ao francês Joakim coube a missão de encerrar essa festa/festival, no que ele se saiu muito bem menos disco, mais hipnótico e soturno, mesmo que o lado brega da disco e afins ainda aparecessem (“Don’t leave me this way” fez todo mundo brincar de videoclipe), e num bom tom afro, que sempre cai bem para o ritmo. Assim como em suas produções, Joakim não perde tempo com fillers, e todas suas músicas e seleções são densas, carregadas em algum sentimento ou envolvência dramática, instigante.

As bolas de pilates foram uma ótima ideia para relaxar o corpo e o público brincar

As bolas de pilates foram uma ótima ideia para relaxar o corpo e o público brincar

FESTA OU FESTIVAL?

O desafio que faz da Marisco estabelecer-se como festival parece ter sido ter que ajeitar bem a sua pecha de exibição de um diferencial artístico, musical (os shows), mas também cultivar bem o aspecto pista/clubber que atrai e mantém o público ali, pululando e vivendo todas as experiências oferecidas. Em termos práticos, montar o line-up bem para garantir o maior aproveitamento de todos os artistas e o público, conseguir revezar bem momentos animados, com outros “dispersos”…

Alguns detalhes, sugestões: a Fabriketa comporta muita gente, e talvez um ingresso mais barato não fechava a conta, chamando ainda mais público? Houve um dilema no domingão, de que tinha DJ até muito tarde, mas também se coloca tudo muito cedo ninguém vai… então fica a questão em aberto mesmo, e sempre vai ter gente dançando até o final se o DJ lá estiver. O investimento em cenografia e estrutura é louvável, e faz das festas Mareh algo sempre bonito aos olhos, mas detalhes mais simples ajudariam, como ter mais barraquinhas e opções de comida, pois muito do público comprou a ideia de festival e passou a tarde e a noite inteira ali, e vimos muita gente indo embora “para jantar”.

No mais, uma bela iniciativa, que fortalece São Paulo como um epicentro da disco music atual, não só com estrutura e grana, mas com a exibição de artistas veteranos que deram as cartas pra muitas ideias, pressupostos e inspirações musicais que os DJs tocam na pista até hoje. Vamos torcer para mais edições, com mais bons DJs locais e internacionais, e showzaços nacionais – já pensou um Jorge Ben ao vivo, ele que foi tão mixado pelos DJs no fim de semana inteiro? Seria demais.

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