livro O Som de São Paulo

Livro resgata histórias, personagens e lugares da música em São Paulo entre as décadas de 60 a 80

Por Jota Wagner

Fabiana Caso e Talita Hoffmann resgatam grandes pontos de virada na música da cidade desde a década de 60 no livro bilíngue O Som de São Paulo, que saiu pela editora Terreno Estranho

São Paulo já teve seu Chelsea Hotel. Também teve um teatro, que depois virou editora, que depois virou gravadora e então o grande epicentro da vanguarda paulista de música, por onde circulavam mentes como a de Arrigo Barnabé. A maior banda glam brasileira, aliás, surgiu tocando no hall de um outro teatro, após a peça.

Estas e outras histórias igualmente fascinantes são contadas, com leveza e muitas ilustrações (meio que na pegada do cultuado O Pequeno Grande Livro do Rock do francês  Hervé Bourhis), no ótimo O Som De São Paulo, lançado recentemente pela editora Terreno Estranho.

Fabiana Caso

Fabiana Caso – foto: Alberto Oliveira / Divulgação

Escrito em português e inglês pela jornalista (que não entrega a idade) Fabiana Caso e ilustrado por Talita Hoffmann, O Som de São Paulo pontua os principais locais, agitadores e artistas de diversos movimentos culturais durante 1967 e 1985.  Aqueles vórtices no espaço-tempo onde uma confluência de energias de diferentes origens se colidem para criar aquilo que chamamos “eferverscência cultural”.

 

 

O Som de São Paulo é livro de cabeceira. Leve. Destes que ficam ao lado da mesa para referência vez por outra. Fabiana Caso, que conversou com o Music Non Stop logo após seu lançamento, marca alguns golaços. Um deles é o de sintetizar a importância do lugar, dos pontos de encontro, dos inferninhos e teatros onde todo mundo cola, para o desenvolvimento de um toró de ideias novas. Outro é o de homenagear mentes criativas, brilhantes e ativas, aqueles budinhas que vez por outra aparecem, capazes de mover consigo uma massa de gente em prol de um sonho comum.  Gente como Antonio Peticov, Arribo Barnabé e Julio Barroso, todos devidamente emplacados nas páginas deste livro.

“Havia muitas lacunas na história que precisavam ser contadas”, diz Fabiana, jornalista batedora de cartão em diversas cenas da música paulistana, várias delas capítulos do livro, o que confere a confiante posição de testemunha ocular do rolê.

Talita Hoffmann

A ilustradora do livro, Talita Hoffman – foto: divulgação

A ideia de colocar no papel esta história, além da natural intimidade que tem com o assunto graças à sua experiência jornalística e apaixonada da música, também veio de uma preocupação com o tempo.  “Precisávamos aproveitar os testemunhos vivos das pessoas”, conta.  O livro tem entrevistas como nomes como Tom Zé, o grande leitor da natureza paulistana, Arrigo Barnabé, Arnaldo Baptista, Sandra Coutinho, de As Mercenárias e Alex Antunes, entre vários outros.

O resultado é uma apuração precisa e emotiva dos fatos e o resgate de histórias — inclua aí o reconhecimento a diversas personagens — de uma São Paulo que sempre fez, ou ajudou a fazer, música alinhada com o resto do mundo, ainda que completamente diferente.

Para quem tem alguma experiência sentado em botecos do país sorvendo destilados da pior qualidade e envolvido em grandes embates sociológico-musicais, a alma de São Paulo muitas vezes foi discutida e também questionada.

Ao contrário de sentimentos identitários sólidos e até certo ponto resolvidos vistos em artistas de cidades como o Rio de Janeiro, Belo Horizonte ou Porto Alegre, o povo da capital do estado mais esquisito do país sempre foi visto como renegadores da brasilidade ou amantes de culturas de cidades do hemisfério norte. Por outro lado, e esta é a opinião de Fabiano Caso, tal forma de pensar e sentir fez com que São Paulo sempre estivesse aberto — e muitas vezes contemporâneo — ao que estava acontecendo no mundo, o que alimenta sua verve vanguardista. Cosmopolitando por aí em seus teatros, inferninhos e esquinas embotecadas.

Lendo O Som De São Paulo, dá para entender um pouco de onde veio este modo de ser, além de juntar argumentos para a próxima discussão de mesa de bar.  O livro une as personagens-chave, os ventos que sopravam naquele momento e, adoro, os lugares.

Qual é o CBGB da cidade?  Seu Café des Artistes? Seu Chelsea Hotel?

Pois bem, Fabiana Caso e Talita Hoffman, dão nome e endereço de lugares que funcionaram como um grande ponto de encontro de gente disposta a dar a cara a tapa (em tempos de ditadura militar, literalmente).

Lugares como a Galeria Metrópole (velha conhecida dos nossos leitores), onde Antonio Peticov trabalhou. Ou o Hotel Danúbio, onde moraram Caetano e Gil na época dos festivais e palco de reuniões com medalhões do tropicalismo como Rogerio Duprat e Julio Medaglia, o Teatro Ruth Escobar, maternidade que viu nascer os Secos & Molhados e, com especial carinho das autoras, o Lira Paulistana, espécie de conglomerado empresariado independente que foi de tudo, até gráfica de flyers e zines.

Ao conectar estes espaços com gente criativa e (muito) inquieta, Caso e Hoffman nos proporcionam um passeio pela história. Tudo (sob a linha do tempo do rock) está lá.  Os tropicalistas, os modernistas, o glam, o punk o new wave, os malditos. Tudo com ilustrações, guias, top fives e mapas dos tesouros artísticos que viveram em São Paulo.

Subliminarmente, o Som de São Paulo também deixa uma receita de bolo. Os ingredientes que devem estar na panela para algo grande e novo acontecer: um ponto de encontro, alguns sonhadores com dinheiro para perder, mentes brilhantes e enérgicas…

E música. Muita música.

Livro O Som de São Paulo

foto: divulgação

 

 

 

 

 

Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é editor chefe do Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.

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