Livia Nery leva ‘Estranha Melodia’ ao Mundo Pensante, em SP

Fabiano Alcântara
Por Fabiano Alcântara

Nesta terça (20), Livia Nery apresenta em São Paulo seu álbum de estreia, Estranha Melodia, lançado em junho. Primeiro lançamento do Máquina de Louco, selo do BaianaSystem, o disco chega ao palco do Mundo Pensante, às 21h, dentro do projeto Terça + Cedo, que tem entrada gratuita.

Produzido por ela ao lado de Curumim nos quartinhos do fundo da casa do artista, em São Paulo, e gravado na Red Bull Station, o disco experimenta timbres e explora sonoridades diversas, trabalhando quase artesanalmente os aparatos eletrônicos em cada faixa. Cantora, compositora e produtora baiana, Livia soma produções para Letrux e Luisão Pereira, além de uma produção em parceria com Rafa Dias (ÀTTØØXXÁ) para seu EP de estreia.

No repertório, Livia apresenta as canções do disco, um apanhado de quase dez anos, músicas que ela trouxe da Bahia na bagagem, e que ganharam novos contornos em São Paulo. No show, a artista é acompanhada por João Deogracias (baixo e synth bass), Aline Falcão (teclados) e Bruno Marques (bateria e MPC). A entrada é gratuita, sujeita a lotação da casa.

Gostaria que você falesse sobre o disco e a diversidade de climas…
Livia Nery – O Estranha Melodia funciona como uma trilha de um deslocamento. O disco foi feito em meio a um deslocamento, que foi a minha ida de Salvador para São Paulo. E tem cenários de muitos lugares por onde já passei. Salvador e o litoral da Bahia, por exemplo, e o interior do estado, onde vive boa parte da minha família. É como um fio condutor.

Como é ser produtora, cantora, compositora e arranjadora?
Livia – De certa forma existe um aspecto geracional nas funções que eu desempenho. Faço parte da geração barra: cantora/compositora/produtora/arranjadora. Fazemos um pouco de tudo, tendemos a pensar nas múltiplas faces de um trabalho artístico e ser timoneira do seu próprio barco. No meu caso, que é um trampo solo, acho que ocupei todos esses lugares porque se não o fizesse não ia começar. Não conseguiria depender de muita gente para colocar meu bloco na rua, por isso coloquei um bloco de uma só.

Fiz eu mesma as bases, o show, as músicas… E, claro, fui ganhando parceiros ao longo do caminho, e isso é uma benção. Mas em termos de mercado me vejo num momento inicial, ampliando meu trabalho pra falar com mais gente, com um público espalhado pelo Brasil. Ainda é cedo para diagnosticar, mas posso dizer que tem muita gente fazendo e que ainda são poucas mulheres realizando este combo. Na produção musical, mais especificamente, o fato de ter muita gente no mercado fazendo de tudo me leva a querer desenvolver uma linguagem própria. Como a maioria das coisas que fiz foi em dupla, ainda me percebo entendendo como é produzir sozinha para outros artistas, mas quero fazer cada vez mais.

Livia Nery por Caroline Bittencourt, também autora da foto no alto da página

Como foi a escolha do repertório reunido no trabalho, fruto de dez anos de composições?
Livia – Meu disco vem em 2019 e eu tenho 36 anos. Entendo ele também como uma vontade de colocar um pouco de tudo que fui na minha trajetória, que não havia escoado até então em nenhum registro fonográfico. A diversidade é intrínseca à estreia, pra mim pelo menos. Não pensei primeiro num conceito, pra depois amarrar as músicas em torno dele. Foi o inverso, deixamos as próprias composições falarem. Tinha cerca de 14 faixas estruturadas e outras inacabadas que mostrei a Curumin. Fomos de uma a uma, escolhendo qual trabalhar no próprio dia, em função do humor e do quanto elas já estavam desenvolvidas. Eu já levava as minhas prés pra ele e caminhávamos a partir disso.

As canções foram pedindo os arranjos, o que lhes vestiria melhor. Depois elas mesmas foram sugerindo um elo natural, conceitual. Claro que a mão de Curumin faz uma grande diferença na hora de compreender o todo. Ele dizia: essa pode ser só violão – no caso Cantoria– , o que pra mim era algo impensável inicialmente e deu uma outra cor! É um disco resultado do processamento de tudo que eu já ouvi e acho que Curuma também. Raríssimos foram os momentos que eu abri o YouTube para mostrar um som pra Curuma que eu queria que soasse parecido.

Então ficarei feliz se esse trabalho chegar nas pessoas devagarzinho, música a música, sem alardes, tocando primeiro no coração. Da mesma forma que Curumin e e eu nos aproximamos desse material. Esse álbum representa um desenvolvimento e amadurecimento na música que fui ganhando depois de 10 anos compondo e 6 anos de shows sem ter disco. Um disco é uma realização que desejei há muito tempo, porque foram discos as obras que mais marcaram minha vida. Imagina o que é fazer o primeiro… é uma alegria imensa.

Como está sendo levar o disco para o palco?
Livia – É um enorme desafio levar esse trabalho pro palco. Desafio de chegar com uma força do ao vivo, contemplando as camadas e atmosferas criadas meticulosamente em estúdio. Não é nada fácil… a cada show vamos descobrindo uma nova saída, um detalhe que pode fazer a diferença pra melhor. Antes eu escrevia a música e já programava bases em função do ao vivo, durante muito tempo foi assim, então elas já eram testadas e se não batia, era uma constatação muito imediata.

Com o show do disco tá sendo diferente. O disco já existe e é legal que esteja lá, mas com aspectos que quebrem o horizonte de expectativas. Usamos sample pra disparar sons complexos de reproduzir, mudamos a ordem pra criar um outro roteiro. eu tenho me emocionado muito nos shows porque foi uma caminhada longa e comove ver o desejo acontecendo. Sei que o ingrediente emoção tem que ter, porque afinal estamos vivo, mas daqui pra frente espero me divertir mais e rodar bastante, pro show entrar no corpo e ficar bem redondinho. Aí depois é desconstruir ele todo (risos).

Por que o disco se chama Estranha Melodia?
Livia – Inicialmente eu tinha uma ideia desse disco se chamar, lá atrás, de Beco do Sossego, porque era um lugar almejado, um lugar de calmaria que eu buscava. Mas sossego era o que menos tinha ao meu redor! A gente no Brasil – e não só nele – passando por um momento esquisitíssimo, só tomando solavanco sem tempo de levantar e recompor. Eu tava em São Paulo me sentindo estranha, tudo novo e em zona de transição. Além de já não ser natural e desejada minha permanência em Salvador. O resultado é que eu me sentia estranha em qualquer lugar onde estivesse! hahahaha. É parte de quem eu sou no fim das contas. E até esse momento a melodia foi uma base de composição pra mim, muitas músicas nascem de uma melodia. o lugar que a melodia ocupa na música brasileira, na música que eu cresci ouvindo, é de muita importância. Melodias estranhas me desafiam. Sempre gostei do ingrediente da estranheza na música, ainda mais na canção, que é um formato ao qual já estamos muito familiarizados. Ouvir uma canção que soa familiar e que num dado momento quebra o horizonte de expectativa e causa um estranhamento… é um prazer pra mim, é a porta de entrada para o novo. Não sei se meu disco faz isso, mas é por isso que ele se chama Estranha Melodia.

SERVIÇO

LIVIA NERY | ESTRANHA MELODIA | MUNDO PENSANTE
Quando: 20/08, terça-feira | 21h Local: Mundo Pensante | Rua Treze de Maio, 830 – Bela Vista – São Paulo – SP Classificação: 18 anos Ingressos: Entrada gratuita, sujeita a lotação da casa.
Capacidade: 450 pessoas. Tel:. 011 5082 2657 www.mundopensante.com.br

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