Julie Neff

Julie Neff, cantora canadense que estreitou laços com bandas como Scalene e Trampa nos últimos anos, fala ao MNS sobre seu novo disco

Letty
Por Letty

Uma das coisas mais legais proporcionadas pela música é a oportunidade de se pôr em contato com outras vivências e fazer delas matéria-prima para a arte. Talvez seja por isso que o atual estado de isolamento esteja deixando muitas e muitos artistas com bloqueio criativo. Quando somos forçados a romper com o contato externo, ficamos longe desse fio que nos conecta ao mundo. E se há artista capaz de manter esse fio e estendê-lo pelo mundo, essa artista é Julie Neff.

A cantora e compositora canadense já é íntima do Brasil, criando um laço com nossas terras que começou em Toronto em 2017. “Eu já havia conhecido brasileiros em um acampamento que participei e todos foram muito acolhedores. Já conhecia os estereótipos culturais como a Bossa Nova e o samba. Mas foi em um festival em Toronto que conheci as bandas Scalene e Trampa e gostei muito do som que eles faziam”, conta Julie ao Music Non Stop. A música brasileira alternativa instigou a cantora a conhecer mais de perto o país. 

Em 2019 ela fez sua primeira turnê por aqui, passando por São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília e estabelecendo parcerias com Cris Botarelli (Far From Alaska), Scalene e Trampa. “O público brasileiro é maravilhoso. Eu fui muito bem recebida. Toronto, apesar de ser uma cidade moderna e descolada, é muito fria, as pessoas não são tão receptivas. Tive uma experiência íntima com o público, consegui me comunicar e me expressar através da música. Fiquei impressionada com a qualidade e com o processo da arte independente no Brasil. Essa é uma conexão criativa que quero manter”, Julie recorda. Além dos shows, ela produziu o evento Poder Feminino na SIM São Paulo daquele ano. 

 

Julie Neff

foto: Lindsay Duncan

 

Seu trabalho foi profundamente influenciado pelas vivências no Brasil. O melhor exemplo é a faixa-título de seu novo EP, Over It, que acaba de ser lançado. Um groove familiar inaugura o álbum de 6 músicas (dentre elas, Siren Call, que tem uma versão gravada no Sofar Brasília de 2019). “A viagem para o Brasil me inspirou. Over It foi pré-produzida por um amigo meu, que é brasileiro e estava em Toronto na época. Então esse comecinho é um forró!”, ela conta.

A composição de Over It nasceu em um momento análogo a este aqui. Julie viajou sozinha para o México em 2019 em busca de novos ares para criar. “Como o país é perigoso para uma mulher, eu nunca saía à noite. Isso me fez ficar reclusa e eu me forcei a compor”, diz. Ao contrário do que se imagina, o período de quarentena não tem sido fluido como a reclusão no México. “São momentos diferentes, e a conexão com o mundo externo faz falta. Às vezes uma melodia vem à minha mente enquanto estou caminhando na rua — como aconteceu com Those Dreams [a segunda faixa do EP]. Mas, neste momento, é muito difícil criar enquanto tudo está desmoronando e complicado. Eu não me pressiono para estar sempre criando, quero que seja um processo natural.”

A pré-produção do EP começou em setembro de 2019. O que mais chama a atenção no álbum é a versatilidade vocal de Julie e a maneira como ela sobrepõe diversas camadas de voz, criando uma atmosfera singular. Ela oscila entre vocais suavemente aveludados (como na canção Swagger) e enérgicos (como em Those Dreams e What Am I Doing This For). “Eu gravei todas as vozes. Foi muito bom, porque eu pude liberar toda a minha energia na performance vocal, o que me permitiu ter resultados diferentes nas músicas”, diz Julie. 

As parcerias de Julie com artistas brasileiras não ficaram somente na música. A capa de Over It foi feita por duas designers brasileiras, o projeto SoLi Girls de Larissa Lisboa e May Soares. A cantora conta que já conhecia o trabalho, pois Larissa Lisboa trabalhara com a Scalene e havia feito uma fanart da canção Remember Me (do álbum Catharsis, lançado por Julie em 2018). Buscando estabelecer cada vez mais conexões com mulheres artistas, Julie convidou o duo para criar a capa do álbum.

 

Over It nasce no mesmo dia em que a cantora celebra 33 anos. “Há três anos eu toquei meu primeiro EP em um show no dia do meu aniversário. Foi um presente para mim mesma. Quero manter essa motivação; quero que seja um lembrete para eu continuar fazendo o que faço”, conta. E também é certamente um lembrete da importância de tecer redes e criar laços através dos sons, das histórias, das experiências que alimentam a inspiração artística. Ainda que momentos frágeis como este nos provoquem medo, há muitos outros universos a serem desbravados e descobertos.

Letty

cantora, compositora, guitarrista, entusiasta do faça-você-mesma e das mirabolâncias artísticas inquietas e independentes.

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