Jazz

Conheça a história do multi-instrumentista cego e lenda do jazz Rahsaan Roland Kirk

Adriana Arakake
Por Adriana Arakake

Hoje esta coluna tem o prazer de trazer a história de Rahsaan Roland Kirk, multi-instrumentista, cego desde muito pequeno, conhecido por tocar dois a três instrumentos de sopro de uma vez só, um dos maiores gênios do jazz

Rahsaan  literalmente seguia seus sonhos e superou uma série de obstáculos sempre com coragem e integridade. Influenciou fortemente Ian Anderson, do Jethro Tull, foi um dos favoritos de Jimmy Hendrix, entre outros inúmeros artistas.
Ronald Theodore Kirk, nosso homenageado da vez, nasceu em Columbus, Ohio, em 07 de agosto de 1935, mudou seu nome para Roland, transpondo duas letras do original e acrescentou Rahsaan, após ouvir chamados em seus sonhos, os sonhos também lhe revelaram que ele deveria fazer barulho e criar sons que o mundo consciente ainda não conhecia, ao que agradecemos muito, porque foi exatamente o que ele fez. Kirk nasceu com problemas de visão e ficou completamente cego aos dois anos de idade, após sofrer com um erro no tratamento médico.

Quando criança, produzia seus instrumentos a partir de mangueiras de jardim, o que me fez lembrar do nosso talentoso Hermeto Pascoal, outro artista genial que Rahsaan influenciou muito, não só pelas técnicas instrumentais, mas também pela veia mística, os discos “I Talk with Spirits”, de Kirk, lançado pela gravadora Limelight, em 1965, e Slaves Mass (Warner, 1977) de Hermeto, são carregados de misticismo e espiritualidade. A faixa título do disco de Rahsaan traz muito o humming (um “cantarolar” anasalado, neste caso, na flauta, técnica em que Kirk foi pioneiro), Hermeto também utiliza bastante este método em sua canção Cannon, composta em homenagem a Cannonball Adderley e lançada no disco acima citado.
Na abertura do ótimo documentário “The Case of the Three Sided Dream”, dirigido por Adam Kaham, lançado em 2014, Betty Neil diz que, para Rahsaan, qualquer coisa poderia ser música – “do zumbido do sol às coisas que acontecem aqui na terra”, e isso certamente entra no espiritual, assim como nos presenteia Hermeto, artistas capazes de, literalmente, extrair música de qualquer coisa. Para fechar as similaridades, além de criarem seus próprios instrumentos, ambos se destacaram no free jazz e no hard bop.
Uma das músicas mais conhecidas de Rahsaan é “Serenade to a Cuckoo”, também presente em “I Talk with Spirits”, e foi criada para os cucos que saíam de suas portas para cantar, enquanto o músico ensaiava em seu apartamento. O relógio cuco que você ouve na música pertenceu à coleção particular dele. Este é o único álbum em que o multi-instrumentista, que ainda era conhecido apenas como Roland Kirk, deixa de lado todos os outros sopros e se dedica apenas à flauta, oferecendo a nós uma divina amostra de seu estilo único de cantarolar enquanto toca. A canção foi regravada pelo Jethro Tull no primeiro disco da banda, This Was, de 1968.
Começou tocar sax tenor profissionalmente na adolescência, em bandas de Rhythm & Blues;  descobriu o “manzello” e o “stritch” e nestes e em outros instrumentos, passou a fazer suas próprias melhorias, adptando-os para que pudessem ser tocados simultaneamente. Em 1960, incorporou um apito de sereia em seus solos, e em 1963, já havia dominado a respiração circular, uma técnica que lhe permitiria tocar, sem parar para respirar.

 

Raramente se apresentando como sideman, participou brevemente da banda de Charles Mingus, fez gravações com Roy Arnes e o arranjador Quincy Jones, principalmente no solo de flauta em Soul Bossa Nova. Como líder, lançou o primeiro disco, Triple Threat, em 1956, uma vitrine de sua técnica virtuosa, e a partir daí, foram mais de trinta discos, entre os quais eu destaco: “Introducing Roland Kirk” (1960), “Rip Rig & Panic” (1965), apoiado pelo pianista Jaki Byard, o baixista Richard Davis e o baterista Elvin Jones, variando do jazz tradicional à música de vanguarda e uma pitada de psicodelia. A banda pós punk Rip Rig and Panic, é uma clara homenagem ao disco de Kirk, com Neneh Cherry nos vocais, o grupo durou três anos e gostava de misturar vanguarda com jazz. Outro dos que destaco é “Bright Moments” (1973), gravado ao vivo, é uma belíssima amostra do showman que Roland era, suas apresentações eram envolventes, discursos políticos, pelos direitos dos negros e das pessoas com deficiencias, misturados com sátira e humor absurdo, além de, é claro, uma variedade de sons incríveis, de seus inúmeros instrumentos.
Em mais um episódio de superação, Rahsaan sofre um derrame, em 1975, que paralisa um lado de seu corpo, mas ele não para, simplesmente adapta seus instrumentos para que pudessem ser manuseados com uma mão só e passa a tocar “apenas” dois de uma vez em algumas de suas apresentações. Parecendo saber que lhe foi conferido um tempo extra neste plano, fez turnês internacionais vibrantes e uma aparição na TV Britânica. Sonny Rollins e Pharoah Sanders atestaram que Kirk era melhor com uma mão, do que a maioria dos saxofonistas com duas.

São muitas as histórias, de uma vida tão intensa como foi a de Rahsaan, um gênio, um inovador, criou instrumentos, técnicas e canções a partir de seus sonhos. Não gostava da palavra cego, preferia dizer que aprendeu a enxergar de maneira diferente e eu acredito piamente nisso, quando perguntado se era muçulmano respondia “não, sou da religião dos sonhos”. Ativista, ele liderou o “Jazz and People’s Movement”, um grupo dedicado a abrir novas oportunidades para músicos de jazz. O grupo adotou a tática de interromper gravações e transmissões de programas de televisão e rádio, em protesto ao pequeno número de músicos afro-americanos empregados pelas redes e estúdios de gravação.

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foto: reprodução Youtube

Rahsaan Roland Kirk faleceu de um segundo derrame em 1977, após se apresentar na Sala Frangipani da União dos Estudantes da Universidade de Indiana, em Bloomington, anos antes, declarou com o humor que lhe era peculiar: “Quando eu morrer, quero que eles toquem ‘The Black and Crazy Blues”. Quero ser cremado, colocado em um saco de maconha – e quero que pessoas bonitas me fumem e espero que tirem algo disso.” A música dele era isso, um pé no palco o outro numa órbita estelar qualquer, tocando, criando  e passeando livre entre os vários estilos do jazz, com uma forte influência do soul; chamava seu gênero não de jazz, mas de “música clássica negra”

Sentia se a vontade tanto para percorrer por peças clássicas dos anos 1930, quanto nas interpretações de músicas pop. Como em Blacknuss (Atlantic Records, 1971), que traz versões de “Ain’t no sunshine” de Bill Withers, “Mercy Mercy Me” e “What’s going on” de Marvin Gaye, muito soul, groove, funk, aliados à força criativa de Rahsaan transformam este num icônico disco de jazz.

Para finalizar em grande estilo esta pequena homenagem, nada melhor do que as palavras do próprio mestre Charles Mingus que definiram Rahsaan Roland Kirk:
“Esse homem é, o que é o jazz – ele é REAL!”

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