Foto: Bob Coyne [via Unsplash]Ingressos esgotados, preços abusivos: como o cambismo virou um negócio bilionário
Entre a frustração dos fãs e o lucro de atravessadores, prática segue um problema global sem solução simples
Bomba! Você descobre que seu artista predileto, aquele que há tanto tempo gostaria de ver ao vivo, está finalmente vindo para o Brasil. Dá-lhe arritmia cardíaca! Você já se imagina na plateia, deslumbrado com a chance de estar pertinho do seu ídolo e curtir freneticamente a tão desejada apresentação. Checa o valor dos ingressos. Tá caro, mas dá para pagar. Entra no link para compras e percebe que… já se esgotaram. Sobraram só os da categoria VIP superpremium, com sushi passado e bebidas disputadas a tapas no balcão. Assumindo-se um “fã de verdade”, se culpa por ter sido tão lento na disputa.

Poucos dias depois, porém, descobre que há sim, muitos bilhetes à venda, mas no mercado paralelo e com um ágio que pode chegar a dez vezes o valor oficial, negociados em plataformas digitais. E agora? Esfola o cartão de crédito e dá dinheiro para um atravessador? Afinal, será uma oportunidade única. E se for falso? Você arrisca?
São essas dúvidas que enriquecem os cambistas no mundo todo. Um mercado não oficial bilionário alimentado pelo desejo gigantesco dos fãs de um artista impulsionados pela situação da oportunidade única. Um negócio que há tempos se tornou um quebra-cabeça para produtores de shows, fãs e legisladores.
O problema é complexo. Não há como impedir que um fã desesperado pague uma fortuna para ver seu artista favorito, mesmo que saiba que está alimentando um estelionatário. A conveniência também conta. Em São Paulo, por exemplo, alguns cambistas atuam como verdadeiros concierges, com uma larga carteira de clientes, a quem conseguem ingressos de última hora em praticamente qualquer evento que desejarem.

No início de 2026, mais de 130 artistas, empresários e festivais europeus, entregaram um abaixo assinado a Michael McGrath, comissionário de justiça da União Europeia, pedindo medidas mais duras ao que chamam, por lá, de “venda não autorizada de ingressos”, um mercado que movimenta cerca de 2,5 bilhões de euros, segundo estudo da Face-Value European Alliance for Ticketing (FEAT). Assinaram a carta artistas do porte de Oasis, Olivia Dean e Nick Cave, e representantes de festivais como o Montreux Jazz e o Sziget.
O desafio para frear a prática está sendo encarado em todo o mundo, incluindo o Brasil. Aguarda análise do Senado o PL 3115/2023, projeto de lei apelidado de Lei Taylor Swift, pois foi criado após a putaria organizada pelos cambistas, que compraram milhares de tíquetes para o show da loirinha no Rio de Janeiro, em 2022, e ofereceram a valores ultrainflacionados. Entradas que originalmente custavam 190 reais estavam sendo vendidas a mais de mil.
Mas como é que essa turma consegue comprar tanto, antes de todo mundo? As explicações vão desde a corrupção, com desvios feitos pelos próprios funcionários das empresas, até soluções hackers, como a programação de robôs, que utilizam números de CPF vazados. Em 2022, nos Estados Unidos, softwares compraram nada menos do que dois milhões de bilhetes para a turnê da Taylor Swift, derrubando o sistema de vendas e provocando um verdadeiro caos. Na época, a Ticketmaster cancelou todas as aquisições, bloqueou o sistema e recomeçou o processo do zero, conferindo comprador por comprador.

O grande problema em torno da regulamentação da revenda de ingressos é que, originalmente, ela não é um crime. Uma pessoa pode se programar para um show e, por diversos motivos, se arrepender. Se a apresentação estiver esgotada, por que não ganhar uma graninha em cima? É a lei da oferta e da demanda.
Claro que o negócio escalonou. Desde os anos 70, era uma praga em jogos de futebol. Formando quadrilhas dentro das bilheterias dos estádios, os torcedores tinham uma escolha: pegar uma fila quilométrica (a má organização ajudava muito) ou comprar, rapidamente, uma entrada pagando mais caro. Quanto maior o jogo, maior o ágio.
Com a popularização das vendas online, as máfias de ingressos, já bastante estruturadas, deram um jeito. A ideia é comprar o máximo possível em shows que certamente vão esgotar rapidamente, esperar alguns dias e, bingo! Dinheiro fácil entrando na conta. O sistema de virada de lotes, tão comum hoje em dia, ajudou a aumentar o lucro dos cambistas.

E no Brasil, quando é que resolve?
A Lei Taylor Swift, que tipifica como crime a venda de ingressos por preço superior ao valor de face (cambismo), foi aprovada na Câmara dos Deputados em 24 de abril de 2024. Após a aprovação, o texto seguiu para o Senado Federal, onde foi autuado em 26 de abril do mesmo ano. Atualmente, a matéria foi encaminhada para análise em comissões.
Ainda em 2024, em 13 de maio, foi recebida na Comissão de Transparência, Governança, Fiscalização e Controle e Defesa do Consumidor (CTFC), na qual aguarda a designação de um relator. Posteriormente, o projeto também passará pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ).
A conclusão do projeto depende da designação e apresentação de relatórios nas comissões, das discussões e votações em cada uma delas, e, finalmente, da aprovação em Plenário no Senado. Se aprovar o texto sem alterações, ele segue para sanção presidencial. Caso contrário, se houver mudanças, o texto retorna para nova análise na Câmara.




