Há 40 anos, uma atriz pornô lançava uma das melhores músicas de todos os tempos. Conheça Andre True

Por George Mendez

Quem pesquisa música, especialmente disco music, certamente já ouviu falar de uma tal one hit wonder dos anos 70, que foi atriz pornô antes de ser cantora. De one hit wonder na verdade ela não tem nada. Vamos falar com profundidade (ops) sobre a pequena e ímpar obra (apenas três álbuns lançados) da senhorita Andrea Marie Truden, que o mundo conhece à frente da banda Andrea True Connection, do megahit More, More, More, ou, os mais safadinhos, através da sua extensa cinegrafia adulta usando os codinomes Inger Kissin, Andrea Travis, Catherine Warren, Singh Baixo ou ainda Singe Low.

Acontece que dois de seus três discos são tão geniais que merecem todas as honras das vitrolas Planeta a fora, inclusive esta matéria.

More, More, More – Andrea True Connection

Andrea talvez não seja a precursora da soft porn disco music, mas com certeza foi uma grande influência sexual na indústria depois que More, More, More foi lançada. Dá sacar traços de Andrea desde Erotica, da Madonna, até no escracho de Wrecking Ball, da Miley Cyrus. No fundo, parece que todas receberam dela a entidade de pornô diva como legado e tentam até hoje unir sexo e música no mesmo pacote.

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Pode pra preencher a legenda inteira com o adjetivo diiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiva?

Na verdade, Andrea queria mesmo era ser atriz e se mudou de Nashville para Nova York, como tantas garotas em busca do sonho e das oportunidades da Big Apple. Chegou a fazer pontas em filmes de circuito comercial como Meatballs, de 1972, e The Way We Were, de 1973. Mas, claro, viver tem sua fatura e ela viu no mercado de filmes pornográficos uma chance de fazer um bom aqué. Então ela foi à luta e gravou mais de 60 filmes entre 70 e 78 (inclusive ela está no elenco da continuação do clássico cult-pornô Garganta Profunda 2 (1974), que lançou a atriz Linda Lovelace ao estrelado adulto.

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Olar, sou Andrea

Em 1975, Andrea entrou em contato com o músico e produtor Gregg Diamond (que tinha um álbum lançado sob o pseudônimo Bionic Boogie em parceria com Luther Vandross). Greg lhe mostrou a versão instrumental de More, More, More e Andrea se encarregou da letra e da voz. O single foi mostrado ao prestigiado selo Buddah Records, que não pensou duas vezes em lançar aquele que seria o maior hit de Andrea e um dos maiores clássicos da era disco, chegando à 4a posição do Top 100 da Billboard.

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Rapidamente depois do single, Andrea lançou seu primeiro álbum junto com a banda The Connection (eis aí a natureza do nome Andre True Connection). As cinco músicas do álbum foram produzidas em Nova York também por Gregg Diamond. Destaque para os hits Party Line, Fill Me Up e Call Me (este último fez parte da trilha internacional da novela global O Casarão).

Call Me – Andrea True Connection

Mesmo depois de todo o sucesso do single e do álbum More, More, More, Andrea continuou sua carreira como atriz pornô e fez mais três filmes adultos (agora com um cachê bem mais elevado) até que, em 1977, decidiu parar para lançar seu segundo disco e estrear sua primeira turnê.

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White Witch, segundo álbum de Andrea, apesar de superior musicalmente ao seu antecessor e da crítica especializada ter sido bastante positiva, não conseguiu atingir o mesmo sucesso nos charts e nas vendas. Mesmo com dois super hits, New York, You Got me Dancing (único single do álbum produzido por Gregg Diamond,
chegou ao número 27 do Top 100 da Billboard e no Brasil faz parte da trilha da novela Locomotivas) e What’s Your Name, What’s Your Number (produzido pelo Michael Zager, aquele do hit Let’s All Chant).

New York You Got Me Dancing – Andrea True Connection

Nesse álbum tem até cover do Lou Reed, Sally Can’t Dance. Alguns culpam a mistura de estilos e produtores (além de Gregg e Michael Zager , ainda teve Elliot Apter e Mark Milchiman), o que deixou o álbum sem uma identidade muito definida. Já outros acham que Andrea foi contra a maré e fez um álbum pretensioso demais para um gênero “fútil” como a disco music e seus riffs chiclete.

Ouça White Witch no Spotify

Em 1979, sem contrato com a Buddah Records, Andrea estava de volta ao pornô. Em 1980, ela fez o seu último filme, Summer Session. No mesmo ano, lançou apenas na Itália um decepcionante álbum chamado War Machine, assinando apenas Andrea True, que flertava com punk e new wave. Veja o raro clipe com pegada política e anti-Ronald Regan, uma coisa #foratemer made in USA.
War Machine – Andrea True

Em 1981, ela ficou impossibilitada de cantar devido a uma cirurgia para remover um tumor cancerígeno na garganta. Mudou-se para a Flórida, onde trabalhou como astróloga. No documentário da VH1 Disco Divas: One Hit Wonders, de 2002, revelou que grande parte da sua renda ainda provinha dos direitos autorais como co-autora de More, More, More.

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Andrea em cena do documentário da VH1

Andrea faleceu em 7 de novembro de 2011, de insuficiência cardíaca, num hospital de Nova York, e o fato só foi tornado público em 20 de novembro, pela Gilpatric-VanVliet Funeral Home, funerária que cuidou dos procedimentos para a cremação de seu corpo (como ela desejava). Em 1999, ela voltou a desfrutar indiretamente da fama graças ao sample que o grupo canadense Len usou de More, More, More para seu hit Steal My Sunshine e também ao premiado documentário Inside Deep Throat, sobre a criação e a influência do filme Garganta Profunda.

Aqui vai um show ao vivo gravado em 1976 onde podemos ver como os The Connections eram bons músicos e Andrea cantava de verdade.

Veja aqui mais fotos da Andrea, inclusive em momentos proibidões de sua carreira como atriz.

Ouça o remix da música More, More, More feito pelo projeto Laykkah, de George Mendez, DJ, produtor e autor desta matéria.

George Mendez

Dj, músico e produtor fonográfico

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