Alan Turing Alan Turing. Foto: Reprodução

Gênio vitimado pela homofobia, Alan Turing é tema de novo álbum do Pet Shop Boys

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Edição: Flávio Lerner


Herói da Segunda Guerra Mundial, matemático britânico precisou se sujeitar à castração química em época que homossexualidade era crime

Em 2009, o governo britânico pediu desculpas oficialmente a Alan Turing. Em 2013, a Rainha Elizabeth II concedeu o perdão real a um dos maiores heróis da Segunda Guerra Mundial. Para ele, não importou muito. Já havia morrido em 1954, aos 41 anos, provavelmente por suicídio, após receber um tratamento experimental de castração química para “curar” sua homossexualidade e ver sua carreira de matemático brilhante e um dos pais da computação ser completamente destruída.

Essa é a história novamente contada pelos Pet Shop Boys no álbum, com ares de ópera-rock, a ser lançado no dia 09 de outubro (e você pode ouvir antes, te contamos no final da matéria). A Man From The Future, um concerto composto em conjunto com o escritor Andrew Hodges em 2014, voltará à vida no formato digital, CD, vinil e show de lançamento ao lado de um octeto de cordas regido pelo compositor alemão Sven Helbig.

Em 2014, os Pet Shop Boys fizeram apenas uma apresentação em homenagem a Turing, no Royal Albert Hall, para o projeto BBC Prom. A relação do duo com o matemático começou antes da obra. Neil Tennant contou que conheceu a sua história nos anos 1980, ao assistir à peça Breaking the Code, de Hugh Whitemore.

Em 2011, Chris Lowe viu um documentário do Channel 4 sobre Alan Turing, o que reativou o interesse do grupo. No fim de 2012, Tennant leu a obra Alan Turing: The Enigma, de Andrew Hodges, e escreveu ao biógrafo, que ajudou a selecionar passagens capazes de contar a sua história no libreto. 

A partir de 09 de outubro, a vida de Alan, contada através de nove canções (ou capítulos), com intervenções da atriz inglesa Juliet Stevenson, se transformará em uma obra para a eternidade, lançada pela Parlophone Records.

Quem foi Alan Turing

Alan Mathison Turing é uma das mais trágicas vítimas do preconceito da história, tanto pela violência como foi tratado em uma época em que a homossexualidade era crime na Inglaterra, quanto pelo serviços que havia acabado de prestar ao seu país. O cara simplesmente ajudou a decifrar as mensagens criptografadas que os nazistas enviavam a seus navios e submarinos. Alguns historiadores calculam que o matemático ajudou a encurtar a guerra em dois anos.

O cientista nasceu em Londres, em 1912. Desde molecote, já demonstrava um interesse incomum por matemática, física, química e lógica. Aos 19 anos, obteve distinção máxima de primeira classe ao cursar o prestigiado Mathematical Tripos na Universidade de Cambridge.

Em 1936, o gênio concluiu o artigo On Computable Numbers, with an Application to the Entscheidungsproblem. Para definir rigorosamente o que seria um método mecânico de cálculo, ele descreveu uma máquina abstrata que lê e escreve símbolos em uma fita e muda de estado conforme regras finitas. Essa construção ficou conhecida como Máquina de Turing.

O modelo ajudou a formalizar a noção de computação programável e também mostrou limites do cálculo algorítmico. Não era um computador eletrônico construído em 1936, mas um modelo matemático que serviria como base de muita coisa no futuro, incluindo a que foi capaz de ajudar a decifrar as ordens alemãs na guerra.

Depois da guerra, Alan Turing foi para o National Physical Laboratory. Em 1950, no artigo Computing Machinery and Intelligence, reformulou a pergunta “as máquinas podem pensar?” com o chamado “jogo da imitação”, posteriormente conhecido como Teste de Turing. Nele, um juiz humano conversa por texto com dois participantes separados: um ser humano e uma máquina, para tentar descobrir quem é quem. Se ele não conseguir distinguir a máquina do humano com segurança, o sistema passa no teste.

Até aí, Turing era um dos maiores heróis de guerra ingleses e uma das mais promissoras mentes de seu país, até que viu sua vida virar pelo avesso, em 1952. O cientista foi processado e condenado por gross indecency, infração usada pela legislação britânica para criminalizar atos homossexuais masculinos.

Ele teve de escolher entre prisão e um ano de injeções de estrogênio. Escolheu o tratamento hormonal, hoje chamado de “castração química”. A condenação levou à retirada de sua habilitação de segurança e ao fim de seu trabalho universitário. Perder tudo o que construiu em sua vida acadêmica foi demais para o cara.

Morreu em 07 de junho de 1954, em Wilmslow, Cheshire, aos 41 anos. Foi encontrado no dia seguinte. A causa registrada foi envenenamento por cianeto, e o inquérito concluiu suicídio, mas deixou dúvidas. A hipótese de que o tratamento hormonal tenha causado sua morte também não é comprovada. Um acidente ligado a experimentos com cianeto e assassinato são hipóteses discutidas, mas tudo indica que tudo o que o governo inglês roubou do matemático, por homofobia, acabou com a sua vida.

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Hoje, Alan Turing é reconhecido como figura central da lógica matemática, da ciência da computação teórica, da computação programável, da criptanálise e da Inteligência Artificial. Seu legado também envolve a memória da perseguição estatal a pessoas LGBT+ e a correção jurídica tardia dessa injustiça. O novo projeto do Pet Shop Boys ajudará a eternizar, mais do que uma história sombria, o legado de um dos grandes gênios da humanidade.

Para ouvir antes

A BBC anunciou a transmissão da nova versão de A Man From The Future em 04 de outubro de 2026. A BBC Radio 6 Music deve exibir a obra dentro do programa Freak Zone, das 20h às 22h, no horário inglês; mais tarde, a BBC Radio 3 promete nova transmissão dentro de Unclassified, das 23h30 à 00h30. Os programas da rádio estatal permanecem online no site BBC Sounds por 30 dias.

Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.