festival Soy Loco por ti Juquery

Festival ‘Soy Loco Por Ti Juquery’ ocupa espaço do histórico hospital psiquiátrico de Franco da Rocha, o Juquery, finalmente desativado

Por Amanda Sousa

Nesta quarta-feira, 15, começa a quarta edição do Festival Soy Loco Por Ti Juquery, com direito à um pipaço como ato simbólico, que promete embelezar o céu de Franco da Rocha.

Com uma programação intensa, diversificada e híbrida, o Soy Loco Por Ti Juquery acontece até o domingo, 19. Em entrevista exclusiva para o Music Non Stop o diretor do festival, Victor Fisch, fala um pouco sobre o processo criativo e o desafio de continuar levando a arte para as pessoas mesmo em meio à pandemia.

Nos últimos anos, a cidade de Franco da Rocha vem se posicionando no circuito artístico com intensidade. Movimentos, coletivos, mobilizações, mostras, dentre outras intervenções demonstram uma mudança positiva e pode esperar, vem muita coisa boa por aí!

Uma delas é a 4ª edição do Festival Soy Loco Por Ti Juquery, que começa nesta quarta-feira, 15, e segue até o dia 19 com uma programação que se espalha pela cidade e invade também o meio digital. A intervenção, desta vez, marca também a desocupação do lugar – em abril deste ano, os nove últimos moradores pacientes do Complexo Hospitalar do Juquery foram transferidos e o hospital encerrou o serviço de assistência psiquiátrica de longa permanência.

O Soy Loco Por Ti Juquery é o primeiro festival de artes a ocupar o espaço do antigo hospital (o qual foi pioneiro na criação da arte como terapia através de Osório Cesar – que foi companheiro de Tarsila do Amaral), que funcionou por 123 anos. Em entrevista exclusiva para o Music Non Stop, Victor Fisch, diretor do festival, comenta sobre a proposta para este ano e a transformação do local.

“O local é incrível por si só e, desde que comecei a frequentar a cidade e conheci o espaço, pensei em ressignificar este local e trazer para a discussão, dentre outras questões, a arte e saúde mental. O Festival deste ano é em homenagem a todas as pessoas que já passaram pelo Juquery. Moradores, pacientes, trabalhadores, visitantes, artistas, médicos, loucos. O que não pode ser esquecido?”

O Que Não Pode ser Esquecido (4º Soy Loco Por Ti Juquery)

A 4º edição do Soy Loco Por Ti Juquery levará 13 atrações em diversos formatos, todas gratuitas e abertas ao público, para toda a cidade onde estão instalados o Complexo Hospitalar do Juquery e o Museu de Arte Osório Cesar. Na abertura do evento, acontece o Pipaço, onde serão empinadas 500 pipas roxas nos céus da cidade. Os participantes, alunos convidados de uma escola de ensino médio e funcionários do Juquery, irão escrever em sua pipa uma palavra ou frase, pensando neste momento de encerramento das internações.

A maior parte das atividades acontecerá sem aviso prévio de hora e local, mas algumas delas foram preparadas para receber o público, de forma organizada e responsável, com distanciamento e uso de máscara. São elas: Itinerário Juquery; Filme com bate-papo: O Livro de Heydrich; O que não pode ser esquecido quando o Juquery fecha as portas? e Cortejo Canta Liberdade.

“tem uma revolução cultural acontecendo em Franco da Rocha. Desde que o festival se iniciou, em 2018, é visível como o Juquery e a cidade vêm se transformando. O ano de 2021 é muito importante nessa história, pois os últimos moradores saíram do Juquery, fechando sua área de internações de longa permanência. É um ano muito importante para o Soy Loco também, pois tivemos que nos reinventar para criar um formato diferente, que trouxesse arte para as pessoas de forma presencial e sem gerar aglomerações”, observa.

Victor Fisch falando

Victor Fisch. Foto divulgação/ATTi Comunicação

Entre as diversas atividades que acontecerão durante a 4º edição do evento está a “Terrapia: um chamado da terra“, onde o artista Gilberto Junior utilizará tintas artesanais de terra coletadas do Parque Estadual Juquery para a pintura de um mural. Com o incêndio ocorrido recentemente no parque, que atingiu 80% de seu território, o artista planeja coletar também as cinzas e carvão do local para utilizar na obra.

Em “123 ponteiros”, o performer Elilson (que está concorrendo ao Prêmio PIPA 2021) liga para 123 moradores de Franco da Rocha. A cada telefonema, memórias, previsões e provisões sobre o Juquery serão coletadas e concatenadas a partir da frase “Estes ponteiros, como a vida, fluem, ainda que pareçam parados”, inscrita em latim no relógio da Torre Central.

Victor não queria que o festival acontecesse totalmente em formato virtual. Queria ocupar espaço, proporcionar bate-papos com artistas e focou a programação em espaços ao ar livre. Dentre as atividades que acontecerão, peço para ele destacar uma, em especial.

“No Itinerário Juquery, a dupla  Massonettos convida o público para uma viagem de  jardineira, um clássico ônibus do Juquery, com música acústica, performance e improvisos cênicos, enquanto realiza um percurso ao redor do complexo. A performance, que conta com as participações especiais de Ranulfo Faria e Cecília Miglorancia, acontece nos dias 18/09 (sábado), das 15h às 17h, e 19/09 (domingo), das 10h às 12h. Os embarques serão realizados no estacionamento do MAOC por meio de senha.”

Outra atividade que, aos olhos do diretor merece destaque é a Conexão Franco-Coréia. Nela, a artista sul-coreana Eun-hye Jung, portadora de síndrome de down, encontra os artistas francorrochenses Antonio Rosas Satílio, que passou pelo Juquery, mora na primeira Residência Terapêutica de Franco da Rocha e instalou um ateliê de pintura no CAPS II do município; e Nailton Silva Fernandes, que frequenta as oficinas culturais da prefeitura e produz entre os equipamentos de cultura da cidade, usuários do CAPS e reconhecidos pela qualidade de seus trabalhos. Em um projeto de desenhar pessoas ao redor do mundo de forma virtual, Eun-hye propõe uma troca de experiências, uma conversa e troca de desenhos. O encontro será transmitido ao vivo pelo youtube do festival.

Conexão Franco-Coréia. Eun-hye Jung

“O formato criado em decorrência da pandemia, permite que o festival continue existindo e será repetido esse ano, instigando os artistas a inventarem formatos criativos para exibição de suas obras, seguindo as medidas de segurança à Covid-19. Hoje as pessoas têm orgulho de falar que moram em Franco da Rocha e grande parte desta mudança se deve à arte e eu acredito muito na cultura como esse vetor de transformação e pertencimento.

Além de marcar o fim de um ciclo do Hospital Psiquiátrico do Juquery, o festival também marca um momento de retomada, ainda que tímida, dos eventos culturais.

“Para encerrar, acredito que os próximos festivais, e eventos serão grandes explosões de encontros.”

O 4º Soy Loco Por Ti Juquery é um projeto aprovado via Proac. Uma idealização e produção da Trapézio Produções Culturais. Apoio do Complexo Hospitalar do Juquery. Correalização da Prefeitura de Franco da Rocha e do Museu de Arte Osório Cesar. Uma realização do Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa.

Serviço

4º Festival Soy Loco Por Ti Juquery
De 15 a 19 de Setembro de 2021
Franco da Rocha – SP

Confira a programação completa

– Dia 15 de setembro | quarta-feira
Pipaço
Na abertura do festival 500 pipas roxas serão empinadas nos céus de Franco da Rocha por alunos de escolas da cidade e funcionários do Juquery. Cada participante será convidado a escrever em sua pipa uma palavra ou frase, pensando neste momento de encerramento das internações de longa permanência do Juquery.

– Dias 15, 16 e 17 de setembro | quarta, quinta e sexta-feira
Mostra de curtas Soy Loco in Barroca
A Mostra Soy Loco in Barroca é um cinema na rua! Três projeções ao ar livre nas paredes e muros de Franco da Rocha e Francisco Morato com uma série de pequenos filmes sobre cultura e saúde mental produzidos por artistas da região. O objetivo da atração é promover a integração de grupos artísticos periféricos, a partir da criação de um projeto composto majoritariamente por mulheres residentes da Bacia do Juquery.

– Dias 15, 18 e 19 de setembro | quarta, sábado e domingo
Visita mediada do MAOC ao Juquery
O Museu de Artes Osório Cesar (MAOC) em parceria com o Complexo Hospitalar do Juquery oferece visitas guiadas que exploram fatos históricos do complexo com as obras ali produzidas. Inscrições encerradas.

– Dia 15 de setembro | quarta-feira
Filme no CAPS: Trajetórias de uma crise + roda de conversa
Ficção roteirizada, produzida e encenada por frequentadores da rede pública de saúde mental do município de Guarulhos/SP. São duas histórias paralelas que retratam a trajetória de duas pessoas em situação de sofrimento psíquico. Um dos personagens é levado ao hospital público onde tem sua crise contida através de amarras e injeções à sua revelia. Já a outra personagem é levada ao CAPS, local onde já estava vinculada e que propõe diferentes estratégias de acolhimento.

– Dia 15 de setembro | quarta-feira
Projeto de arte postal: Isto não é loucura
Projeto realizado pelo Ateliê Caderno de Artista acontecerá física e virtualmente. Serão enviados 100 kits com uma cópia da obra “Isto não é um cachimbo” de René Magritte + um trecho da obra de Francisco Rebolo, que retrata o Dr. Osório Cesar em 1939. As pessoas que receberão as cartas serão convidadas a criar intervenções sobre a obra e enviar uma foto de sua releitura para o instagram @caderno.de.artista. O projeto visa problematizar a permanência intacta de conceitos sobre a relação arte e loucura e propor uma releitura de tal obra, que contém ícones dessa relação: Dr. Osório Cesar e o cachimbo fazendo referência à obra de René Magritte.

– Dia 16 de setembro | quinta-feira
Conexão Franco-Coréia
A artista sul-coreana Eun-hye Jeong, que tem síndrome de down, encontra os artistas francorrochenses Satílio e Nailton, usuários do CAPS e reconhecidos pela qualidade de seus trabalhos. Em um projeto de desenhar pessoas ao redor do mundo de forma virtual, Eun-hye propõe uma troca de experiências, uma conversa e troca de desenhos. O encontro será transmitido ao vivo pelo youtube do festival, das 9h às 11h.

Performance itinerante “Bebedeira e Loucura”
A performance coloca em cena um jovem preto, entregador de bebidas por aplicativos buscando uma maneira de superar o alcoolismo. Inspirada na obra “Cemitério dos Vivos/Diários do Hospício” do autor carioca Lima Barreto, a performance explora, entre realidade e ficção, a condição de alguém que foi isolado por sua cor, e questiona qual a relação entre raça e a política por uma boa saúde mental para a população preta.

– Dias 17, 18 e 19 de setembro | sexta, sábado e domingo, das 9h às 16h
Terrapia: um chamado da terra
Propõe pensar na relação entre arte, terapia e meio ambiente utilizando pintura de um mural com uma imagem da Raimunda de Assunção em preto e branco, com cinzas e carvão (em menção à grande queimada do Juquery) onde as pessoas poderão participar e experimentar as tintas feitas de terra coletadas na região do Complexo Hospitalar. Será feita uma pintura que tenha relação com o território e sua memória, com respeito pelo lugar. A proposta será executada em forma de pintura ao vivo durante o Festival.

– Dia 17 | sexta, das 19h30 às 21h30
Filme com bate-papo: “Your Face”
O documentário coreano “Your Face” centra-se na caricaturista Eun-hye Jung, que desenha pessoas baseada mais em suas personalidades do que em suas características físicas. Como uma pessoa com síndrome de down, ela vê as coisas diferentemente da maioria. Quando alguém a pede para parecer bonito no desenho, ela responde “você já é bonito”. Devido à sua deficiência intelectual, ela é capaz de capturar em suas caricaturas a beleza única de cada um. Fazendo desenhos de rostos sorridentes ao longo do tempo, ela percebe que capturou mais de dois mil sorrisos. Olhando seu portfólio, Eun-hye vê dois mil sorrisos olhando-a de volta.
O filme será exibido online pelo canal do festival no YouTube e após a exibição haverá um bate-papo com o diretor, Dongil Seo, que também é pai da artista Eun-hye Jung. O filme será transmitido ao vivo pelo youtube do festival, das 9h às 11h.

123 Ponteiros
Em “123 ponteiros”, Elilson concatena performance, história oral, escrita e produção serigráfica a partir de uma rede telefônica com moradores de Franco da Rocha. 123, número que indica o marco temporal de desativação da ala psiquiátrica do Juquery, indica a quantidade de pessoas que receberão ligações. A cada telefonema, memórias, previsões e provisões sobre o Juquery serão coletadas e concatenadas a partir da frase “Estes ponteiros, como a vida, fluem, ainda que pareçam parados”, inscrita em latim no relógio da Torre Central do Complexo Hospitalar. O intuito é estabelecer uma engrenagem afetiva para a ressignificação dos imaginários e imaginações – poéticas e políticas – sobre o Juquery, simbolizando cada participante como um ponteiro mobilizador dessa história sempre em curso.

– Dia 18 de setembro | sábado
Do Juquery para o mundo
Com o encerramento das atividades psiquiátricas do Juquery no início de 2021, a proposta consiste em uma intervenção artística dentro do Juquery e outra fora, em praça pública da cidade de Franco da Rocha. Serão amarrados fios de varal em troncos de árvores com camisetas brancas formando a frase título do projeto, formando e resgatando símbolos marcantes na rotina do Juquery. A proposta é mostrar às pessoas o varal transformado em mural artístico, com fotos de obras do acervo do MAOC, e poderão co-criar com a artista pintando as camisetas.

– Dias 18 (sábado) das 15h às 17h, e 19 (domingo) das 10h às 12h
Itinerário Juquery, performance e viagem musical
Local: embarque no estacionamento do MAOC
A dupla Massonettos convida para uma viagem de música acústica, performance e improvisos cênicos, com participações especiais de Ranulfo Faria e Cecília Miglorancia. A ação acontece dentro da jardineira, um clássico ônibus do Juquery, enquanto ela realiza um percurso ao redor do complexo. Para participar, atente-se aos embarques no estacionamento do MAOC e na retirada de senhas no local.

– Dia 18 de setembro | sábado, das 17h30 às 20h30
Filme “O livro de Heydrich” + bate-papo
Local: arena Ubirajara Ferreira Braga
Marcelo Reis, morador do Capão Redondo, diz ser Heydrich, oficial de Hitler. O filme investiga o delírio vindo da história do nazismo, pela perspectiva de um usuário de serviço de saúde mental de um CAPS de São Paulo. Outros usuários manifestam delírios de ordem histórica e política: um se diz judeu, outro se diz anarquista, outra diz ter conhecido Fidel Castro. O filme entrelaça documentário e ficção, num trabalho coletivo das equipes de saúde mental e de cinema.

– Dia 19 de setembro, domingo
Performance “Não dorme Maria, acorda!”
Com mensagens de empoderamento, as Flores Odisseianas tomam a rua para recitar poesias e representar mulheres que foram impedidas de se expressar. Com doses de loucura e resistência, o grupo entrega oralidade e potência na voz, além de flores artesanais para as franco-rochenses, acompanhadas de uma muda de suculenta, com uma arte no formato de imã de geladeira, inspiradas na planta “dormideira” com a mensagem título o projeto.

Roda de conversa: “O que não pode ser esquecido quando o Juquery fecha as portas?”, das 14h às 15h30
Local: arena Ubirajara Ferreira Braga
A partir desta questão começou a pesquisa das artistas e educadoras Cibele Lucena e Flavia Mielnik, quando receberam o convite para criar uma obra para o festival Soy Loco por Ti Juquery 2021 e se depararam com o fato de que o Juquery estava encerrando as atividades da ala de internação de longa permanência após 123 anos de funcionamento. A partir da escuta de histórias de ex-funcionárias/os, ex-internas/os e outras pessoas ligadas à luta antimanicomial, a obra foi construída manualmente, com desenhos, textos e colagens, e ganhou a forma de um “livro de artista” que convida o leitor a percorrer uma paisagem complexa, carregada de camadas que precisam ficar registradas antes que se apaguem.

Cortejo Canta Liberdade, das 15h30 às 17h
Local: Local: arena Ubirajara Ferreira Braga
O cortejo é o grito que representa a memória, força e luta de vidas negras que habitaram o Juquery, dando visibilidade a quem também fez parte da história. Ao som dos Tambores da Alvorada, na voz da Associação Cultural do Véio Griô e do Grupo de Capoeira Yorubá, o cortejo parte do Teatro de Arena Ubirajara Ferreira Braga – Bira, atrás do MAOC, atravessa a ponte de acesso para ao Parque Benedito Bueno de Morais, e faz a volta completa até chegar no mesmo lugar. Finaliza com Roda de Capoeira e Roda de Vivências com os participantes compartilhando memórias do Juquery.

Amanda Sousa

Amanda Sousa é mãe, feminista, tem 30 anos e é formada em Comunicação Social. Natural de São Paulo, atualmente mora em Jundiaí. É apaixonada por música desde que se entende por gente. Vai do punk ao pop, gosta de descobrir sons em todas as vertentes.

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