Iniciado na quarta-feira, festival se encerra nesta noite de sexta com shows de Ópera Invisível / Lux Æterna e Violeta de Outono
Texto: Alex Antunes
Edição: Flávio Lerner
Iniciado nesta quarta-feira, 06, o Festival Arquitetos do Invisível chega ao fim hoje (08) com shows de Ópera Invisível / Lux Æterna e Violeta de Outono, no Centro Cultural São Paulo, a partir das 19h30. Antes, o evento recebeu Ultimato e Lucy (dia 06) e Stereotrips e Dialeto (dia 07), remontando a uma conexão de músicos que se conheceram no curso de arquitetura da Universidade de São Paulo e contribuiram um tanto para a cena pós-punk brasileira.
Ópera Invisível / Lux Æterna. Foto: Angelo Pastorello/Divulgação
A USP era um ambiente culturalmente vibrante no final dos anos 1970 e começo dos 1980. Nos tempos pós-internet, fica até difícil explicar um certo “retardo cultural”, mas o fato é que tendências internacionais demoravam um tanto para chegar ao país. E é exatamente nesse período que essa distância começava a diminuir.
Era um ambiente de progressiva abertura política — a Ditadura Militar acabaria em 1985, mas o final dos anos 70 foi quando o movimento universitário retomou brevemente o protagonismo político, antes da reorganização dos sindicatos. Na música, há quase que um salto direto da contracultura setentista (psicodelia, hard rock, prog, jazz fusion) para a explosão punk e pós-punk.
Não é de espantar que, em 1983, quando o vocalista Guilherme Isnard, recém-demitido dos Voluntários da Pátria, ouviu falar de um grupo de estudantes da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) que fariam um “punk-jazz”, ficou interessado. Era a banda Ultimato, que logo se transformaria na primeira formação do Zero, quando Guilherme escreveu letras para as suas composições instrumentais. Mas quem eram esses caras?
Ultimato. Foto: Divulgação
Em relação à ECA (Escola de Comunicações e Artes), há um relativo reconhecimento da cena de origem de várias bandas, como Mercenárias, Fellini, Voluntários da Pátria, Smack e Akira S & as Garotas Que Erraram. Mas falta lembrar que foi da FAU que emergiu um núcleo de músicos extremamente influente, que ainda segue vivo, ativo e internacionalmente reconhecido.
Seu “núcleo duro” é constituído pelos guitarristas Fabio Golfetti e Nelson Coelho, e pelo baixista Beto Birger. O nome do festival Arquitetos do Invisível, no Centro Cultural São Paulo, remete a essa época, que Nelson brinca de definir como o período “em que estávamos estudando arquitetura, mas loucos para fazer música”.
As primeiras conversas entre Nelson e Fabio remontam ao ano de 1978, quando eles entraram na faculdade. Mas é em 1980, com a formação do grupo Lux, que as coisas começam a esquentar. Houve certa circulação de baixistas e bateristas, enquanto o grupo mudava seguidamente de nome — primeiro para AMT-1, e depois Ultimato. Mas algumas figuras importantes começavam a aparecer: o saxofonista Gilles Eduar, a cozinha de Birger com o baterista Cláudio Souza, o saxofonista Renato Mello (todos arquitetos!).
Dialeto. Foto: Leandro Almeida/Divulgação
Apesar de não ser uma banda de synth-pop, podem ser comparados com outra contemporânea, precursora da new wave/pós-punk nacional: a Agentss, de Kodiak Bachine, Miguel Barella e Eduardo Amarante (este faria parte da segunda, e “clássica”, formação do Zero). Naqueles anos, o que viriam a ser os clichês desses estilos ainda não estavam cristalizados. Nas liner notes do box set Agentss, de 2023, eu escrevo que era uma linguagem em formação, em que referências da década recém-terminada, particularmente o prog, vêm misturadas às invenções sonoras: eles já estavam atentos à no-wave nova-iorquina, e a grupos como o Material, de Bill Laswell.
É o que se ouve nas gravações de Lux, AMT-1 e Ultimato (ensaios, demos gravadas entre maio de 1981 e outubro de 1983), disponíveis na no Bandcamp da gravadora Invisível. Em algumas dessas gravações, aparece Guilherme Isnard, que catalizou a fase mais pop do Ultimato, agora finalmente chamado de Zero, e a sua implosão, com a exposição às expectativas da indústria fonográfica, ao longo de pouco mais de um ano.
É aí que a história começa. Fabio Golfetti formou o Violeta de Outono com Claudio Souza (e o fotógrafo baixista Angelo Pastorello). Nelson Coelho formou o Dialeto (brevemente chamado de Sotaque) com Miguel Angel Lopez e Andrei Ivanovic, e inicialmente com sua até hoje esposa Nice Juliano, que também teve uma passagem pelo Lux. Birger formou o Nau, com a grande Vange Leonel, o guitarrista Zique e o baterista Mauro Sanches (que também passou pelo Lux). E Gilles Eduar, que tinha saído do Zero com a chegada de Isnard, tinha formado o Luni, a primeira banda de Marisa Orth. Renato Mello formou o Kafka. Isso tudo viria a representar cerca de duas boas dezenas de discos-chave do pós-punk brasileiro.
Stereotrips. Foto: Zico Rocha Soares/Divulgação
Mas um outro ramo interessante também se iniciou: o flerte, inicialmente psíquico, de Golfetti com o músico e guru australiano Daevid Allen, que finalmente o levaria ao Gong, onde ele permanece até hoje. A capacidade de Allen de estar em momentos iniciais inclui a fundação do Soft Machine, na cena de Canterbury, Inglaterra; do Gong, na França (após ser proibido de voltar ao Reino Unido, depois das agitações do maio de 68), e até a formação do Material, em Nova Iorque, em 1978, como Zu Band.
Em 1988, Golfetti criou a Invisible Opera Tropical Version; em 1989, lançou um flexi-disc pela gravadora/loja Wop Bop (a mesma que lançou o Violeta), e em 1991 lançou uma cassette, gravada com Renato Mello e May East. Era uma adesão ao conceito lançado por Allen e sua parceira Gilli Smyth ainda em 1968, em Paris. Ao longo de mais de uma década, e quase uma dezena de discos pelo selo Invisível, se correspondeu com Allen e sua egrégora — até o encontro em 2006, na Gong Unconvention em Amsterdã. Antes de morrer, em 2015, Allen publicou uma carta sobre sua decisão de ficar em cuidados paliativos, e sobre a continuidade do Gong, do qual Golfetti já fazia parte desde 2012.
O Arquitetos do Invisível é uma modesta tentativa de mapear essas relações todas, depois de 45 anos da formação do Lux, e de 40 anos da estreia conjunta de Dialeto e Violeta de Outono no teatro Lira Paulistana, no final de 1985. Elas se dão muito em torno do eixo da amizade de Golfetti e Nelson Coelho, e que se estendeu no duo Stereotrips. Já Lucy é a banda atual de Birger, ao lado de Maurício Nacif, guitarra, Hugo Hori, sax, e o baterista Alessandro D’Aloia, uma sólida e decidida volta ao progressivo e ao jazz-rock. O grupo já tem dois discos.
Lucy. Foto: Thomas Susemihl/Divulgação
Então, Stereotrips faz a abertura do Dialeto. Ultimato, com as versões instrumentais pré-Zero, faz a abertura de Lucy. E Ópera Invisível / Lux Æterna faz a abertura do Violeta de Outono. Golfetti explica:
“Lux Æterna é o duo eletrônico-psicodélico comigo e meu filho Gabriel [do grupo Stratos Luna], criado em 2018, com inspiração na música contemporânea, eletrônica e ambient. O nome, desde a banda Lux, já trazia a referência à composição de György Ligeti, imortalizada na trilha do filme 2001, Uma Odisseia no Espaço”.
Fabio enxerga uma continuidade entre o trabalho da Ópera e esse duo, e vai tocar um repertório combinado.
Uma última e peculiar nota vai para o sexto e mais recente álbum do Dialeto. Pandelirium, de 2024, parte de um episódio de coma e quase-morte de Nelson Coelho, no início da pandemia da covid-19. Os delírios que Coelho vivenciou, e registrou em texto e numa série de pinturas, ganharam também uma camada abstrata, de música instrumental, lançados em pacote de livro e CD.
No show, as projeções de Ivan Soares fazem uma ponte entre esse transe e a geometria dos diagramas de Voronoi. Essa turminha da FAU- USP definitivamente segue esboçando no Invisível.
