Samples, cultura DJ e raízes na disco: Fernanda Abreu é a nossa rainha da dance, reunimos provas irrefutáveis

George Mendez
Por George Mendez

Pouca gente lembra que Fernanda Abreu foi backing vocal de Evandro Mesquista na banda Blitz lá pelo final dos anos 80, um fenômeno pop rock nacional que invadiu rádio e TV em massa e tocou à exaustão hits como Você Não Soube me Amar e várias outras. Quem diria que a backing seria uma das melhores coisas do pop nacional, precursora da dance music por essas bandas, rainha do sampler, do mashup, do batidão e rainha da fusão de ritmos brasileiros como funk e o samba com a música eletrônica.

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Em 1990, Fernanda partiu pra carreira solo e lançou o clássico Sla Radical Dance Disco Club, um verdadeiro liquidificador de referências, samplers, idiomas e estilos, e já de cara ela disse a que veio.

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O single carro-chefe do álbum, A Noite  vinha com pedacinhos de letras de  D.I.S.C.O, da dupla francesa Ottawan, e de Lady Marmelade (Patti LaBelle) com pegada houseira, além de inúmeros outros samplers não creditados. A maioria das letras de Sla Radical Dance Disco Club eram da própria Fernanda (e parcerias com Fausto Fawcett, Luiz Stein, seu ex-marido e colaborador, e Laufer), a produção tinha dedo de Herbert Vianna e foi coproduzido pela própria musa do batidão.

A Noite – Fernanda Abreu

Ainda podemos destacar desse álbum os covers de Got To Be Real, da Cherryl Lynn, Kung Fu Fighting, do Carl Douglas, que na versão do álbum virou uma baladinha bem fofa, e a minha preferida do disco, Você pra Mim, que figurou em trilha de novela global e tem samplers da voz rouca e sexy de Barry White e parece um slow-funk-charme que você pode coreografar com as amigas ou dançar de rostinho colado. Também não dá pra deixar de falar da hipnótica Space Sound Dance, com samplers do New Order e poema recitado na voz de João Brandão.

Você Pra Mim – Fernanda Abreu

Dois anos demorou para o segundo trabalho aparecer e Sla 2 ~ Be Sample seguia os mesmos passos dance do álbum de estreia e agora mostrava uma Fernanda Abreu mais polida e com o midas Liminha (que na época produzia 9 entre 10 discos das estrelas nacionais) na produção musical. Consequentemente, o disco é bem mais variado de estilos, passeia por funk, soul, pop, rock e eletrônico.

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Abrindo o álbum, o delicioso cover de Jorge Benjor, Jorge Capadócia (que nem precisa de comentários, né?). O disco também tinha Rio 40 Graus, que praticamente virou hino de todos os cariocas, descrevendo a capital pela ótica de um carioca, com todos os seus problemas e suas belezas (ironicamente, até hoje, tudo listado na letra continua super atual).

Rio 40 Graus – Fernanda Abreu

Em 1996, surge talvez o disco mais moderno e pretensioso de Fernanda, Da Lata. A linda arte gráfica de Luiz Stein reflete toda a essência do álbum (Rio, samples, colagens e… latas, claro). Outro hino carioca (Fernanda sempre foi musicalmente carioca elevada à enésima potência) vinha neste disco, Garota Sangue Bom (  ) que faz clara referência ao seu hit antecessor, Rio 40 Graus. Ela ainda recria Tua Presença Morena, de Caetano. A balada funk Dois é outro ponto alto pela letra poética, pelo ar de brisa do mar e pelo swing e flertes com uma bossa nova pop e atual.

Garota Sangue Bom – Fernanda Abreu

Veneno da Lata tem a Sofia (primeira filha da Fernanda) abrindo a música com texto fofo e fechando o disco tem Babilônia Rock, cover de Lincoln Olivetti e Robson Jorge que ganhou ares disco-house com produção do DJ Memê. E de bônus o clássico É Hoje, samba da Unidos da Ilha do Governador que foi tema da escola em 1982, do qual Fernada se apoderou tão bem que quase fez dela uma música sua, misturando house e samba com maestria.

Babilônia Rock – Fernanda Abreu

Depois de três discos e alguns singles e remixes promocionais, em 1997 Fernanda decide lançar seu próprio Raio X, um best of com alguns covers inéditos, como as regravações de Aquarela do Brasil, Jack Soul Brasileiro, e novas versões para Rio 40 Graus(com pegada mangue beat e Chico Science dividindo os vocais). Jorge de Capadócia agora veio abaianada com vocais de Carlinhos Brown, e remixes para A Noite, Você pra Mim, Garota Sangue Bom e Veneno da Lata. Ela mesma chamou este disco de sua “Abreugrafia”. Escondidinho lá quase no final do disco veio talvez um dos seus maiores sucessos, o cover de Katia Flavia, de Fausto Fawcett, outra faixa produzida por Memê, que ganhou um clipe bafo.

Kátia Flávia, a Godiva do Irajá – Fernanda Abreu

Entidade Urbana (2000), seu quarto álbum de estúdio, passou batido pelas rádios, talvez pela carência de hits. A faixa com maior destaque foi a rebolativa Baile da Pesada, com pegada Afrika Bambaataa e a célebre frase Quero me perder/Quero me jogar. Começando pelo nome, antigo baile da dupla Ademir Lemos e Big Boy, música é lotada de referências ao movimento Black Rio (Cashbox, Soul Grand Prix, Furacão 2000).

Baile da Pesada – Fernanda Abreu

Em 2004, Na Paz, seu quinto álbum, também não repercutiu como os antecessores e apenas o single Eu Vou Torcer ganhou remixes em single promocional – de capa holográfica – e chegou a tocar nas rádios. Em 2006, seguindo a tendência ditada pela MTV, Fernanda lançou seu álbum ao vivo com direito a show e DVD e ainda aproveitou pra fazer um cover fofo de A Dois Passos do Paraíso, da sua ex-banda, Blitz.

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Em 2016, 10 anos depois de ter lançado o último disco, após enfrentar perdas familiares, separação conjugal e toda a mudança mercadológica que a música sofreu desde o surgimento do MP3 e a chegada do streaming, Fernanda rompeu o seu silêncio e lançou Amor Geral, seu sexto álbum, com arte de Giovanni Bianco, um feat. com Afrika Bambaataa na música Tambor e um videoclipe simples e genial para o primeiro single, Outro Sim. O resultado é um disco coeso, que fala basicamente sobre o amor e tem tudo pra figurar entre os melhores lançamentos nacionais de 2016.

Outro Sim – Fernanda Abreu


Talvez agora algumas gerações que não conheceram a garota sangue bom dos anos 90 possam ouvir a mesma Fernanda inquieta, poética, cheia de referências e misturas musicais num trabalho moderno, atual e com a eterna essência Abreu .

Aproveitando o lançamento de Amor Geral, Fernanda deu um update digital e relançou todo o seu catalogo no Spotify e subiu seus vídeos antigos pro Youtube/Vevo e anda ativíssima na sua conta do Instagram.

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