Foto: ReproduçãoEx-inimigos, David Byrne e demais membros do Talking Heads voltam a se reunir
Edição: Flávio Lerner
Grupo, que acabou sob maus termos em 1991, se encontrará para participar da série Front Row, da rádio SiriusXM
“Quando era mais jovem, não era uma pessoa agradável para conviver. Quando estava nos Talking Heads, eu era meio que um tirano. Hoje eu aprendi a colaborar com as pessoas, ter uma boa relação, em vez de simplesmente ficar dizendo a todos o que fazer. O fim do grupo não foi legal. Foi uma coisa feia.”

Esse é David Byrne fazendo um mea-culpa sobre o final de sua icônica banda, em entrevista à revista People em 2023. E é por isso que surpreende a notícia de um encontro dos quatro fundadores do Talking Heads, marcado para a próxima segunda, 28, nos estúdios da emissora estadunidense de rádio via satélite SiriusXM.
O raro e emocionante episódio faz parte de uma série chamada Front Row, em que fãs lotam o auditório da empresa e fazem perguntas para seus ídolos, transmitidas ao vivo. Uma coisa é mais do que certa: alguém vai perguntar algo do tipo “vocês hoje se dão bem? São amigos?”.
Vão responder que sim. O grupo vem se reunindo algumas vezes, principalmente para honrar a história dos Talking Heads. Em 2023 e 2024, se viram para promover o filme Stop Making Sense, uma reedição do lendário show que entrou para a história como um dos melhores filmes-concertos de todos os tempos.

Em 2002, apareceram em público juntos para entrar para o Rock and Roll Hall of Fame, e tocaram Psycho Killer, Life During Wartime e Burning Down the House.
O feio fim
Mas a relação não foi sempre assim. E tudo começou com o tão “fim feio”, comentado por David Byrne. Quando decidiu, como um pequeno tirano, que os Talking Heads não estavam dando mais aquele caldo, soltou um comunicado à imprensa, em dezembro de 1991, avisando que sua banda havia acabado, sem conversar com os outros integrantes.
Meses mais tarde, em 1992, os remanescentes foram ao Los Angeles Times e conceceram uma entrevista jogando o ex-colega na fogueira. Afirmaram que souberam do fim da banda pelos jornais, que Byrne vivia tratando o Talking Heads como um projeto seu e que todo mundo tinha que “pisar em ovos” para lidar com o metódico vocalista.
Ficaram tão putos que resolveram continuar sem ele. Mais problemas. O cara foi na justiça impedir que usassem o nome original. Tina Weymouth, Chris Frantz e Jerry Harrison seguiram como The Heads, exeperimentaram vários outros vocalistas e chegaram a lançar o álbum No Talking, Just Head, em 1996.
Enquanto isso, Byrne seguiu com uma muito bem-sucedida carreira solo, que sustenta até hoje. O mais importante é que hoje admite que foi um tremendo babaca durante a dissolução do grupo, chegando até mesmo a tentar tirar, judicialmente, os créditos dos outros integrantes das músicas que ele afirmava ter composto sozinho.
E a paz reinou. Será que voltam?
O tempo, nobre tempo, foi resolvendo cada pendenga, graças ao esforço de Jerry Harrison. Foi o cara que menos usou a imprensa para espetar Byrne, e chegou a afirmar que os dois se falavam, tinham uma relação cordial. Contou que até tinha uma esperança de reunião da banda para uma turnê!

Mas para o ex-tirano David Byrne, a ideia é difícil de realizar. Em 2025, à Rolling Stone, ele afirmou que a divulgação de Stop Making Sense deixou os integrantes mais à vontade uns com os outros, mas disse não ter vontade de voltar a excursionar ou gravar com a banda. Afinal, sua trajetória musical havia seguido por outro caminho e que seria impossível reproduzir exatamente a experiência do grupo nos anos 1980.
Na mesma entrevista, disse que recriar o Talking Heads seria uma missão tola.



