Sister Rossetta Tharpe chacoalhou o mundo com sua guitarra muito antes de Elvis tirar as fraldas. Conheça a guitar hero

Ademir Fábio Quinot Ströher
Por Ademir Fábio Quinot Ströher

Quase completamente desconhecida hoje, a cantora, guitarrista e compositora Sister Rosetta Tharpe (1915-1973) ficou famosa na década de 30 por seu programa gospel na rádio americana. Reza a lenda que o rei do rock’n’roll, Elvis Presley, quando criança, saía correndo da escola para ouvir o programa e as músicas que ela cantava no rádio.

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Apesar de pouco reconhecida hoje, ela foi de fato a rainha dos reis, inspirou, além do rei Presley, outros nobres súditos: o rei do blues, B.B. King, e o rei do folk, Bob Dylan, foram devotos de Sister Rosetta Tharpe, a madrinha-avó do rock.

Quem vê Sister Rosetta Tharpe tocando em muitos vídeos agora disponíveis no YouTube logo imagina que ela tenha bebido na fonte de músicos como Chuck Berry. Na verdade, foi ela quem inspirou Chuck Berry. A mulher “bonita, divina sem mencionar sublime e esplêndida”, como Bob Dylan afirmou numa entrevista, é a essência do rock’n’roll.

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Nascida em 20 de Março de 1915, em Cotton Plant, Arkansas, Sister nasceu da união de Willis Atkins e Katie Bell Nublin, apanhadores de algodão. Sua mãe se tornou pastora evangélica, cantando e tocando para a sua congregação. E foi por intermédio da mãe que a pequena Rosetta fez a sua primeira atuação, aos 4 anos, acompanhada pela guitarra, cantando o conhecido tema gospel Jesus is On the Mainline. Aos 6 anos de idade, a menina se mudou para o norte do país, com a mãe, recém-separada do pai.

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Durante a juventude, fez digressões em circuitos evangélicos. Influenciada pelo seu meio e pela energia de Chicago, uma cidade que fervilhava blues e jazz, a jovem Rosetta misturava o gospel com ritmos seculares, o que, juntamente com o seu engenho com a guitarra, a tornaram bastante popular. A forma como tocava transpirava blues e impressionou geral, além do fato de Rosetta ser das poucas mulheres negras a tocarem guitarra na década de 20 do século passado.

Ela se casou com Thomas A. Thorpe, um pastor evangélico abusivo e controlador que se aproveitara do talento e da popularidade de Rosetta. Decidiu se divorciar, mantendo o nome do ex-marido, mas alterando a grafia para Tharpe, nome pelo qual ficou conhecida. Mudou-se para Nova York com a mãe, onde conquistou o sucesso e atuou no prestigiado Cotton Club, ao lado de Cab Calloway, para um público mais mundano. O que gerou polêmica junto do seu fiel público-base, formado pela galera gospel.

Fez história, quando, em 1938, se tornou a primeira cantora gospel a assinar por uma grande gravadora, a Decca Records. Um contrato controverso, pois impunha que Rosetta cantasse tudo o que o seu manager propusesse. Os temas Rock Me e The Lonesome Road conquistaram os charts pop de outubro do mesmo ano. A irmã Rosetta havia, enfim, se tornado uma superestrela. Apesar do mal-estar entre a comunidade gospel causado por músicas como Tall Skinny Papa, ninguém conseguia ficar indiferente ao seu estilo particular.

Sister Rosetta Tharpe – That’s All

Durante os anos que se seguiram, Rosetta somou sucessos. Todos queriam ver e ouvir a prodigiosa irmã, que percorreu os Estados Unidos, enchendo salas de espetáculos, e foi uma das poucas vozes femininas negras a animar os soldados norte-americanos durante a guerra. Ela gravou Down by the Riverside e Strange Things Happening Every Day, num período em que a segregação era a norma, sendo que normas foram algo que Rosetta nasceu para quebrar.

Rosetta seguiu sua carreira e, em 1951, surpreendeu a todos, quando anunciou seu casamento, o terceiro, com Russel Morrison, oficializado no estádio Griffith, em Washington D.C, perante uma audiência de 25 mil pessoas. Morrisson, seu marido e agente, a acompanhou até ao fim dos seus dias.

Com o aparecimento de jovens vindos do delta do Mississippi surge o rock’n’roll e Elvis foi coroado como rei do novo gênero musical. Rosetta, a mulher que 20 anos antes começara a fazer esse ritmo, se manteve fiel a si e a suas origens, mas a sua popularidade e o seu brilho ofuscaram-se pelos novos artistas.

Até que um dia, ela recebe um ligação de Chris Barber, que a convida a embarcar numa nova viagem, desta vez no Reino Unido. Para um público que nunca a tinha visto ao vivo, uma verdadeira artista gospel como Rosetta apareceu como algo do outro mundo. Era diferente, cativante, fervilhava energia e alma. Ela e a guitarra eram apenas uma. A atuação de 1964 em Manchester, gravada num dia frio e chuvoso na estação de comboios, é a prova disso.

 

O documentário The Godmother of Rock’n’Roll – Sister Rosetta Tharpe, dirigido por Mick Csaky, de 2014, será exibido nesta quarta (8) em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, com legendas em português, gratuitamente no Centro Cultural São Paulo. O filme será seguido de um painel de discussão promovido pelo Women’s Music Event, que irá discutir o tema Técnica x Feeling com as instrumentistas Sandra Coutinho (As Mercenárias), Elisa Gargiulo (Dominatrix) e Carol Navarro (Supercombo), além da DJ Cinara Martins, com mediação da jornalista Claudia Assef (Music Non Stop/WME).



WME ESPECIAL DIA DA MULHE
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Quarta, 8 de março, a partir das 19h
Centro Cultural São Paulo
Rua Vergueiro, 1000
19h – Exibição do documentário The Godmother of Rock’n’Roll – Sister Rosetta Tharpe
20h – Painel de debates Técnica x Feeling com Sandra Coutinho (As Mercenárias), Elisa Gargiulo (Dominatrix), Carol Navarro (Supercombo) e DJ Cinara Martins
Grátis

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