Foto: Instituto Moreira Salles/ReproduçãoEntenda como Clarice Lispector virou a queridinha das divas pop
Edição: Flávio Lerner e Jota Wagner
Traduzida em mais de 30 países, autora brasileira vira hype entre grandes artistas da música mundial e encanta leitores estrangeiros
Universos paralelos ou realidades alternativas, cena 1: Clarice Lispector não morreu e está em seu apartamento no Leme, no Rio de Janeiro. Em frente ao seu computador, com um cigarro na mão, vê a notícia de que está bombando em redes sociais como TikTok e Instagram.

Muitos dos posts são de frases retiradas de seus livros, incluindo frases que ela nunca escreveu, mas que são atribuídas a ela. “Filhos da puta!”, comenta.
Cena 2: no grupo de WhatsApp “Só divas”, Björk comenta que está escrevendo uma música inspirada em A Paixão Segundo G.H., de Clarice. Olivia Rodrigo, St. Vincent, Cate Blanchett e Lorde respondem com coraçõezinhos. “Amoooooo”, alguém comenta. Outra lembra que Elizabeth Bishop um dia disse: “essa aí escreve melhor do que eu”. Tremendo elogio.
Meio a contragosto da ácida escritora que desconfiava da fama, Clarice Lispector se tornou um fenômeno entre fãs do pop que apreciam a leitura. Não foi à toa, e nem é surpreendente, que uma das mais intrínsecas escritoras brasileiras caísse no gosto de tanta gente na gringa, principalmente porque sua solidão e angústia se adequam perfeitamente aos tempos de superexposição e frivolidade relacional com que os jovens precisam lidar atualmente.

Imagem: Reprodução
Mas foi necessário um empurrãozinho gringo para que uma escritora guardada a sete chaves no mercado literário brasileiro pudesse ter suas palavras voando além das fronteiras. E esse empurrão veio do biógrafo Benjamin Moser.
Mesmo sem ter um só livro publicado em inglês, Moser resolveu contar a história de Lispector para o mundo, desde sua infância na Ucrânia, onde nasceu, até as aventuras brasileiras. Em Why This World: A Biography of Clarice Lispector, de 2009, o biógrafo a colocou no mesmo nível de qualidade de barões como Franz Kafka, James Joyce e Virginia Woolf.
Claro, isso despontou tremenda curiosidade. Na esteira da bem-sucedida biografia, as editoras gringas correram para lançar lá fora os livros daquele diamante em forma de escritora.
Ver uma mulher brasileira descendo a caneta na hipocrisia social encantou St. Vincent. Foi ela quem deu de presente a Olivia Rodrigo um exemplar de A Hora da Estrela. Um ano depois, Rodrigo elogiou a escritora em entrevista à revista Vogue. Pronto. Todo mundo queria saber quem era aquela tal Clarice Lispector.
Cate Blanchett a chamou de “gênia absoluta”. Seus livros viraram uma coqueluche. Daí para recortes de internet como ostentação cultural dos postadores, foi um pulinho.
A mais recente notícia de uma ode a Lispector, via Björk, chegou com gotas de mistério. Só o que se sabe é que a islandesa fez uma música inspirada em A Paixão Segundo G.H. Não há mais nenhuma informação a respeito, como título, detalhes da produção ou data de lançamento.

Atualmente, as obras de Clarice Lispector já foram traduzidas em mais de 30 idiomas. O que a escritora acharia disso? Impossível prever, mas lá na reclusão de seu apartamento, apostamos que um risinho de canto de boca, pelo menos, iria rolar.



