Em seu segundo ano, Festival Marisco cumpre papel de juntar as pontas do groove brasileiro e internacional com line-up poderoso

Claudia Assef
Por Claudia Assef

FOTOS E VÍDEO FLAVIO FLORIDO
TEXTO CLAUDIA ASSEF E JOTA WAGNER

Entre 1971 e 1981, anos de chumbo da Ditadura Militar, o Colégio Equipe, em São Paulo, foi um oásis da música brasileira. Criado por uma cooperativa de professores de esquerda, o Equipe mantinha uma programação de shows (produzido por Serginho Groisman, então diretor do centro cultural da escola) que não se via em nenhum outro lugar da cidade. Por lá passaram Caetano, Gil, Cartola, Novos Baianos, Raul Seixas, Clementina de Jesus, entre outros medalhões da música brasileira. Os shows fizeram a cabeça de muitos alunos e, anos mais tarde, o Equipe seria o berço da reunião de uma das bandas mais importantes do rock nacional, os Titãs.

No último fim de semana, o Equipe voltou ser palco de uma pequena revolução musical. Fechada há quase 10 anos, a edificação original do colégio, que hoje funciona em outro endereço, recebeu a programação do Festival Marisco, que, em seu segundo ano de vida, voltou a mostrar que a mistura de medalhões nacionais com beats sintéticos variantes da disco à house music dão sim muito samba, no melhor dos sentidos.

No sábado (13) e no domingo (14), transformado em Marisco graças a uma inteligente e sustentável cenografia, o Equipe voltou a dançar. Com uma proposta musical bastante única, quem esteve por lá pode curtir, entre diversas atrações bacanas, shows históricos de Eumir Deodato Quartet (sábado) e da banda inglesa Crazy P (domingo), inédita por aqui.

A locação foi peça importante na composição do cenário, que se completou com uma noite de céu limpo, com direito a Cruzeiro do Sul, 3 Marias, Vênus piscante, um guindaste no prédio vizinho que parecia parte do cenário, aviões passando baixinho em direção ao Aeroporto de Congonhas e um light design dançante iluminando as antigas janelas do prédio, já em ruínas.

O sábado começaria com uma projeção do documentário Real Scenes NYC + Paris, do Resident Advisor, que seria seguida de um debate na sessão Cine Marisco, novidade na programação do festival deste ano. Tudo marcado para as 14h. Mas, ô cidade ingrata para promoters que gostam de começar seus programas cedo. Como as atrações principais estavam agendadas para a noite, nada de público chegar para o cinema. Portanto, sessão cancelada.

O Colégio Equipe foi mais uma vez palco de um imponente festival de música, o Marisco

Quem chegou cedo pode ir se ambientando e viajando no que aquelas paredes teriam a falar se pudessem. O carioca Carrot Green embalou a tarde dos early birds com suavidade, como se fizesse ali uma passagem de som, e entregou o palco principal ao inglês Red Greg, que às 17h já tinha uma pistinha para chamar de sua.

Na parte de trás do colégio, onde havia sido montado o cineminha, a segunda pista, Mareh on Stage, com clima de inferninho, abriu os trabalhos com Rafael Cancian e ainda receberia os gigantes do groove Nuts e Tahira. Programação de alto nível nos dois palcos. Os banheiros químicos chegaram a dar um susto nas funcionárias da limpeza, por conta de um vazamento, mas a produção da Mareh, agilizada, resolveu o enrosco em menos de uma hora.

A pista Mareh On Stage, com mais cara de inferninho, recebeu de DJ Nuts a Eric Duncan

Enquanto isso, no palcão debaixo de um céu paulistano atipicamente estrelado a dupla Laid Back subia ao palco, um tanto esvaziado graças a outro pólo de atração no palco menor, o fera DJ Nuts. Não demorou muito, porém, para os senhores Tim Stahl e John Guldberg, criadores dessa verdadeira instituição do funk dinamarquês, na ativa desde 1979, virarem o jogo. Eles de cara abriram com o hit Bakerman e todos ficamos de cara com o poder do groove produzido uma guitarra, um sequencer e duas poderosas vozes. Falando em hits, eles não economizaram. Com um layout pouco comum como fonte produtora de som tão dançante (dois senhores grisalhos sentados em banquinhos), não houve economia de hits: White Horse, Sunshine Reggae, Night Train Boogie, Cocaine Cool, todas no setlist. O groove da dupla transformou a festa numa pool party estelar, com seu balearic funk malemolente e aveludado.

Showzaço de dance music, apesar da cara de banquinho-e-violão: thumbs up pra dupla Laid Back

Com o nome Converse Dance, um show com uma dançarina andrógina ganhou o palco e manteve o povo atento, enquanto o Eumir Deodato Quartet se preparava para atacar. Quando o maestro carioca subiu ao palco uma bela plateia o esperava. Ao tocar as primeiras notas, era como se o martelo de seu piano estivesse quebrado sobre a cabeça da galera uma pinhata de memórias.

Tudo estava ali. Todos os lugares por onde Deodato tocou, todos os artistas com quem já trabalhou, todos os copos de uísque que ele tomou em excelente companhia em bares antes ou depois de seus shows pelo planeta. Tudo isso estilhaçado em pedacinhos de sons, notas e saídas do seu quarteto. Ele abriu e fechou seu número com Also Sprach Zarathustra, que no popular ficou conhecida como 2001 Space Odissey, por ter sido usada no blockbuster intergalático de Stanley Kubrick.

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Quem cuidou das cabeças – já elevadas a uma atmosfera diferente da terráquea graças a shows estonteantes – após o furacão Deodato foi o mágico da house music brasileira, Felipe Venancio. A pista já estava entregue ao sabor do saturday night fever e Venancio fez o que domina, emoldurou elegantemente os dançarinos a fim de curtição com faixas clássicas de garage e de selos como Strictly Rhythm, West End, Trax, nos levando de jato ora pra Chicago, depois pra Nova York, passando por Ibiza, sem esquecer que estávamos na América do Sul.

DOMINGÃO DA MÃES E DO GROOVE

A maravilhosa diva Danielle More, do Crazy P, não deixou ninguém parado no domingão no Marisco

Domingo o Marisco abriu suas portas com o Cine Marisco, com sessão de documentário Love Is The Message: a night at the Gallery party 1977, sobre o clube nova-iorquino The Gallery, seguida de uma mesa de discussão bem interessante sobre a relação cidade x noite, com participação de Edu Corelli, Camilo Rocha, Guilherme M. e Rudolf Piper. Joutro Mundo e a dupla Selvagem fizeram o esquenta para uma apresentação bem animada da histórica Banda Black Rio, mostrando a síntese do som que os fizeram indispensáveis em qualquer boa coleção de funk brasileiro.

Porém, foi com o live show dos ingleses do Crazy P e a super carismática presença da cantora Danielle More que a sintonia entre público, palco, céu e a locação da festa realmente aconteceu. O grupo esquentou a noite e trouxe ao Marisco definitivamente aquele ar de “que bom que eu não perdi essa”.

A banda passeia com graça e energia pelas fronteiras entre as batidas sintetizadas da house e seus estilos precursores mais importantes, a disco e o funk. Notável por elevar a níveis mais psicodélicos o padrão sonoro de artistas afins como a banda nova-iorquina Tortured Soul e o do francês Llorca, a trupe britânica fez tremer o dancefloor do evento. Pena o show ter durado pouco mais de uma hora.

Dono de uma discografia de 11 álbuns lançados desde 1999 e já chamado de Crazy Penis, o grupo segura as teclas, synths, bateria, guitarra e baixo com Tim Davies, Matt Klose, Chris Todd e Jim Baron, e tem no vocal a performática Danielle Moore, que poderia perfeitamente estar em turmas de peso do groove, por sua liderança segura, voz precisa e afinada e charme retrô não-nostálgico. Sim, a atuação de Danielle foi digna da turma do lendário mago do funk George Clinton, ou, em se tratando de atualidades, do conjunto seleto de divas globais da house, onde a canadense Lisa Shaw figura, por exemplo.

Na pista, parte do público demonstrava acompanhar a trajetória dos ingleses há mais ou menos tempo, enquanto outra fatia da galera – além de suar, sorrir e sonhar com as nuances de graves potentes e efeitos espertos – perguntava-se: “de que planeta veio esse tal de Crazy P?”. “É eletrônico, mas tem banda?”. “Ué, mas e a guitarra?”. Logo depois, viam que essa classificação não importava nada em termos práticos.

Tomara que o soberano desejo do público se multiplique e faça valer a promoção de uma gig somente deles por aqui, talvez em um lugar fechado e com duração mais extensa. Para nunca se esquecer que disco, funk e house podem conviver de maneira brilhante nos compassos de 32 batidas.

Tudo ficou perfeito para o encerramento com X-Press2, que foi convocado as pressas para substituir o DJ Chez Damien, que, por problemas de visto, não veio.

Final de domingão de Dia das Mães e sensação de dever como cidadão dançante cumprido. O que os organizadores do festival propõem interessa muito a São Paulo: arejar line-ups promovendo o encontro entre influenciadores e influenciados no mesmo palco, decifrando o DNA do groove. Vida longa ao Marisco Festival e que venha 2018.

colaborou Thiago Moreira

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