Dolly Parton Foto: Richard E. Aaron/Reprodução

Dolly Parton para além da música: o legado humanitário e progressista da caipira do Tennessee

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Edição: Flávio Lerner


Cristã que amava gays, “não feminista” que empoderou mulheres, cantora americana esteve acima do muro e dedicou sua vida à filantropia

Ela era branca, loira, do Tennessee, rejeitava o título de feminista, não declarava seu voto publicamente porque “tinha fãs republicanos e democratas”, cantava country music e era dona de um parque temático decidado a ela mesma, Dollywood. Tudo isso é verdade na vida de Dolly Parton, mega-artista que vive no coração do estadunidenses plantadores de milho e falecida no último dia 25, vítima de câncer, aos 80 anos.

Ainda assim, o parágrafo anterior, sozinho, é um baita desserviço para o jornalismo. Esconde a vida de uma mulher que se colocou acima de rótulos e disputas, mandou na própria carreira e torrou boa parte da própria grana em projetos para mudar seu país. Não ficava em cima do muro, como fazia parecer. Flutuava em um balão intelectual tão alto que, lá de cima, o muro se transformava em uma mera linha, quase invisível.

Ao perceber que era amada por todo tipo de americano, do mais caipira ao indie-rocker moderninho de Nova Iorque, a loirinha sacou: “aaaah, meus amigos, é nesse salão que eu vou sapatear bonito!”. Usou toda a sua influência para apostar no que acreditava, um mundo mais igualitário. Só não fez propaganda disso.

Dolly Parton colecionou uma porção de atitudes pra lá de louváveis nos seus 80 anos, muito bem-vividos. E respeitou tanto suas raízes pobres que seria capaz de fazer muito rapper morrer de vergonha.

Uma vida voltada à filantropia

Em 1986, a artista comprou um parque de diversões antigo, a 30 quilômetros do lugar onde nasceu, e o transformou em um complexo turístico dedicado a si própria.

O espaço reúne montanhas-russas, atrações familiares, shows de música country, restaurantes, hospedagem e eventos sazonais. A programação também valoriza a cultura dos apalaches, região onde Dolly Parton cresceu. Um olhar rápido nos faria dizer: “que bela jogada para ganhar dinheiro”.

E ganhou. Dollywood é uma empresa milionária. O que ninguém sabia, no entanto, é que a ideia dela foi criar meios para realizar caridade, de formas inventivas e transformadoras, como veremos mais abaixo. Mas ainda no mundo dos negócios, a cantora virou uma mãezona. Seu parque é o maior empregador individual do condado.

Dolly Parton

Dollywood. Foto: Reprodução

Dolly teria tudo para voar para longe. Nasceu em uma casa com 12 irmãos e cresceu em uma ambiente de extrema pobreza. Mudou-se para Nashville para estudar, onde começou sua carreira profissional. E foi essa carência material na primeira infância que norteou sua vida filantrópica.

Em 1988, dois anos após adquirir o parque que a ajudaria a financiar suas ideias transformadoras, criou a Dollywood Foundation, focando na educação de sua região natal, oferecendo bolsas de estudo para que os jovens estudassem no Hiwassee College, em Sevier County.

No começo da década de 90, extendeu o programa de uma forma prática e inovadora: passou a oferecer um prêmio de 500 dólares para qualquer aluno que concluísse o ensino médio. O resultado foi absurdo. A evasão escolar caiu de 35% para 6%. Dá-lhe Dolly!

Estátua de Dolly Parton

Estátua de Dolly Parton em Sevierville. Imagem: Prefeitura de Sevierville/Reprodução

Dentro de Dollywood, criou um departamento para cuidar do animal que é um dos maiores símbolos de seu país. Um santuário para águias-carecas impossibilitadas de voltar à natureza, administrado em parceria com a American Eagle Foundation. A estrutura abriga uma das maiores coleções de águias-carecas não reintroduzíveis dos Estados Unidos.

Testemunhando de perto o sucesso de seus programas educacionais, Dolly Parton juntou uns parceiros endinheirados e montou mais um programa, a Imagination Library, em homenagem a seu pai, analfabeto. A empreitada envia um livro por mês, de graça, para qualquer criança inscrita, sem fazer qualquer pergunta no cadastro. Não importa se você é rico ou pobre. Quer ler um livrinho novo? Pede pra tia Dolly que ela manda. A iniciativa começou local, se expandiu para o país inteiro cinco anos depois, e atualmente atende também outros países.

A mulher não parou mais. Em 2007, fez um show e juntou uma dinheirama para um hospital em sua cidade natal. Com a grana, ainda montou dois centros especializado na saúde das mulheres. Quando um incêndio provocou uma verdadeira tragédia em Silver County, angariou 12,5 milhões de dólares e distribuiu um salário de mil dólares por mês para todas as famílias que haviam perdido suas casas, no estilão Dolly Parton de ser: não fez uma só pergunta no cadastro. Toma aí a grana e reconstrua sua vida!

Quando soube que sua sobrinha estava com leucemia, gravou e lançou um álbum com toda a renda dedicada ao Monroe Carell Jr. Children’s Hospital, em Vanderbilt.

Dolly Parton: musa da vacina

Lembra-se da história em que contamos no malfadado primeiro parágrafo dessa matéria? A vida de Dolly Parton monstrou que ela não era tão apolítica quando dizia ser. Na verdade, ela sabia do tamanho da sua influência e não admitia que sua imagem fosse usada a favor de campanhas partidárias.

Tanto que rejeitou, por duas vezes, a Medalha Presidencial da Liberdade oferecida por Donald Trump, dando desculpas para não ir. Na segunda vez, disse que “não viajaria em meio a uma pandemia”. Toma! Mais tarde, Joe Biden tentaria surfar na celebridade de Parton. Esperta, também rejeitou para evitar uma saia-justa.

Mas sua atitude mais escandalosa politicamente, principalmente durante o contexto da pandemia e da onda de negacionismo que assolava o país, foi doar do próprio bolso um milhão de dólares para apoiar a pesquisa sobre a covid-19, incluindo trabalho ligado ao estudo de plasma convalescente e artigos científicos. Os velhos amigos do hospital de Vanderbilt, recebedores do dinheiro, também participaram da rede de testes da vacina da Moderna.

Parton minimizou sua participação dizendo que apenas “plantou a semente” para o seu desenvolvimento. Anos mais tarde, voltou a depositar grana na conta do hospital para pesquisas sobre doenças infecciosas, resistência a antibióticos e tratamento de infecções em crianças com câncer. Sua última grande doação foi de dois milhões de dólares (sendo um milhão do próprio bolso, e a outra metade juntando de amigos) às vítimas do Furacão Helene

E musa das mulheres, dos negros, dos LGBTs…

Rejeitar o rótulo de feminista não fez de Dolly Parton menos feminista, não. Ela chegou a afirmar que alcunha podia fazer com que as pessoas achassem que ela fosse “anti-homens”. Derrapou aqui, demonstrando pouco conhecimento sobre o movimento. Mas está perdoada.

Afinal, em 1980, foi uma das protagonistas, ao lado de Jane Fonda e Lily Tomlin, do filme Como Eliminar Seu Chefe (9 to 5), sobre a rotina de três trabalhadoras submetidas a um chefe assediador em uma sátira sobre machismo, abuso de poder e desigualdade profissional. Nele, escreveu a canção-tema, que se tornou um hino popular das mulheres trabalhadoras.

Parton também apoiou publicamente o movimento #MeToo, e deu exemplo de empoderamento quando o termo ainda nem existia. Ela escreveu suas canções, criou empresas, controlou sua imagem e protegeu seus direitos autorais.

Um exemplo decisivo foi sua recusa em ceder metade dos direitos editoriais de I Will Always Love You quando Elvis Presley demonstrou interesse em gravá-la. A decisão preservou sua autoria e, posteriormente, permitiu que ela se beneficiasse do enorme sucesso da versão de Whitney Houston. Testemunhou, ainda, o machismo em dezenas de embates na indústria musical.

Quando o movimento Black Lives Matter ganhou corpo, o país viu crescer um mimimi racista, com muita celebridade querendo passar de boazinha afirmando que “todas as vidas importam, não só as negras”. Muita gente, menos Dolly Parton, que apoiou publicamente os protestos, embora não tenha marcado presença em nenhuma passeata.

“Dixie” é um termo associado ao Sul dos Estados Unidos e à memória da Confederação, formada pelos estados escravistas que lutaram contra a União na Guerra Civil Americana, e o parque de Dollywood tinha um brinquedo chamado Dixie Stampede. Tão logo ficou sabendo do significado do termo, por ativistas, mandou limar a palavra da placa.

E a nação queer? Aaah, essa aí amava Dolly Parton. E o sentimento era recíproco. Apesar de cristã praticante, sempre declarou que “amor é amor”, e que julgamento, segundo o cristianismo, é um pecado maior do que qualquer outro.

Apoiou o casamento igualitário, usando até mesmo seu ótimo humor. Em entrevista na Austrália, informou que defendia o direito para que os gays pudessem ser “tão infelizes quanto os casais heterossexuais”. Declarou publicamente seu amor às pessoas trans, gays e lésbicas, e ainda usou sua fama para influenciar no debate sobre o uso dos banheiros públicos, nos Estados Unidos.

Escreveu Travelin’ Thru, a canção tema de Transamérica (Transamerica), filme cuja história acompanha uma mulher trans, e com ela ganhou uma indicação ao Oscar. Tudo isso sem falar na cultura drag. Parton curtia tanto os exageros do movimento que participou secretamente de um concurso de imitadoras dela mesma, em West Hollywood. Perdeu para uma drag queen!

Dolly Parton ensinou como ser muito maior do que a música e a fama. E do perigo de se julgar uma pessoa sem profundidade. Cristã da gema, ganhou seu lugar garantido no paraíso que acreditou existir.

Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.