Documentário “Paris is Burning” é um marco da cultura gay e voguing de NY, e segue relevante até hoje

Por Jade Gola

Shade! Strike a pose! Category is… Esses pajubás americanos nunca estiveram tanto na boca das bees, por aqui no Brasil inclusive, devido a fenômenos como a cultura voguing mais viva do que nunca, seriados como RuPaul’s Drag Race e apropriações pelo pop que já vêm de décadas: desde Madonna com “Vogue” até Azealia Banks e o cultuado produtor e house Leon Vynehall hoje em dia.

Toda essa reverberação cultural da cena nova iorquina gay, de bailes (balls) onde desfilava-se as mais diversas categorias de personificação de tipos célebres e de moda, tudo ao som da mais afiada disco/house music oriunda dessa capital global, são todos elementos registrados no inesquecível documentário “Paris is Burning”, da diretora Jennie Livingston, que foi lançado em 1991 e segue até hoje reverberando como uma fonte de referências, closes, absurdismos e contextos socioculturais que mapeiam bem a relação e o pertencimento dos gays com a noite, a música e o mundo ao redor.

O DOCUMENTÁRIO ESTÁ DISPONÍVEL, NA ÍNTEGRA, COM LEGENDA EM INGLÊS, PARA QUEM QUISER VER NO YOUTUBE:

RuPaul’s Drag Race recria as categorias e balls onde as drags atuais disputam o título de america’s next dragsuperstar, e muitos dos seus quadros e esquetes são releituras do filme e referências diretas – no programa, são gongadas as novinhas que não catam a referência, por exemplo.

  • O documentário retrata o falecido Willi Ninja, tido como um dos voguers mais talentosos que já existiram. Ele é estrela também do clipe de “Deep in Vogue”, de Malcom Mclaren.

O filme ilustra as “houses” de drag queens e travestis do final dos anos 80, sempre comandada por mothers que davam seus sobrenomes aos filhos, todos ilustres e criativos jovens expressando sua homossexualidade numa época de pobreza e devastação pelo HIV, ainda mortal. Essas houses e o contexto dos clubes dos balls tem relação direta com as origens da house music no mesmo contexto: as “casas” conceituais e reais, fechadas e restritas a uma certa comunidade, onde essa música e sua cultura eram vividas, houses culturais, house music.

“Haus of Gaga” é como Lady Gaga chama sua equipe criativa, e Erika Palomino tinha com Felipe Venancio um programa na 97FM chamado “House of Palomino”, todos bebendo na fonte Paris is Burning das houses gays, travestis e musicalmente houseiras.

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Nenhuma trabalho cultural e de entretenimento ilustra tão bem como as nuances e particularidades linguísticas dos gays (seu pajubá, quase um dialeto) reflete não só suas culturas, mas os sistemas de opressão e de luta os quais eles são submetidos. Some a isso toneladas de vaidade e glamour em disputa, e o que você tem é quase uma guerra flamboyant em curso.

  • “Kiki” é outro documentário, lançado este ano, que destaca e analisa jovens e “houses” de voguers dos Estados Unidos. O filme está circulando em festivais de cinemas e circuitos alternativos do país. Veja o trailer aqui.

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“Paris is Burning” é um hit entre papéis e trabalhos acadêmicos, quase foi indicado ao Oscar à época (diz-se que não foi pelo preconceito com o tema gay daqueles anos) e até hoje as queens retratadas geram qutoes-memes na Internet e na vida real, além de serem temas de novas produções e manifestações culturais, como a notícia que Dorian Corey, a drag mais “antiga” e sapiente que pontua o didatismo do documentário, terá um musical inspirado em sua vida.

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Na semana em que a Parada LGBT de São Paulo completa 20 anos, fica nosso registro e dica de um assunto “fierce” e de extrema importância histórica e sociocultural.

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