Disco brasileiro inspirado em explosão solar e ETS chega ao topo da parada eletrônica da Apple Music

Por Claudia Assef

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Daí que tava eu no Facebook caçando notícias e músicas como de costume e eis que encontro este post do meu amigo Dudu Marote, produtorzaço que eu sempre acompanho pra sacar o que tem de legal sendo feito na música eletrônica nacional.

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Pra quem não enxerga letras pequenas, reproduzo o post abaixo.

“Novo álbum que produzi estreia em nono lugar na Apple Music! Produzi um álbum que mistura música eletrônica a ciência aplicada a coisas como explosões solares, radiações soltas no espaço e até o som de átomos como o hidrogênio. É o álbum Psicoff do irmão de sangue de BH, Chris Quites. Ele estreou na Apple Music há quatro dias e já é #9 no chart de electronic acima de Chet Faker, Die Antwoord e do novo álbum do Tomorrowland. Logo abaixo de Hardwell. O álbum não é nada comercial e soa lindo. Estamos muito impactados com a notícia”.

Lógico que fiquei bem curiosa com essa coisa de disco de música eletrônica com som de átomos e explosões solares. Lá fui eu ouvir.

 

O disco é lindo, se ninguém te contasse que tinha todas esses paranauês de explosões e átomos, soaria como um discaço de house apenas. Quis entender então quenhé afinal esse Psicoff (pura ignorância minha não conhecê-lo) e compartilho com você agora tudo o que descobri. Com a palavra, Dudu Marote, produtor do disco e amigo deste figura de Belo Horizonte que tem nome de gringo, Chris Quites.

“Conheci o Chris através da sagacidade dos posts do seu Twitter. Sem dúvida, o mais profundo de tecnologia musical no Brasil. O Chris tinha uma rede de informação a que eu não chegava, microfabricantes de software e hardware, galera DIY. Um dia, não me lembro por causa de qual post, comecei a me comunicar com ele. E um pouco depois ele me procurou pra me convidar a produzir o álbum dele. Lá ia minha carreira ter mais um artista de Belo Horizonte.

Eu tinha acabado de voltar de dois cursos sinistros na França com profissionais incríveis e tava loco pra aplicar os novos conhecimentos principalmente da aplicação de distorção controlada como ambientação em mixagens.

A princípio pelos elementos que o Chris usa parece que vai vir uma música supercomplicada e chata. E não é nada disso. O álbum soa lindo e o uso do vocoder é muito criativo. Além disso ele trouxe técnicas brabas que eu nunca tinha usado com os Max for Live do geniozinho Ícaro Ferre, brasuca tb. Tudo meio papo de maluco mas ganhei um grande amigo pra compartilhar esquisitices e teorias de conspiração e pra aprender um pouco mais sobre o lado mais obscuro da web, os games, e coisas da vida”, conta Dudu.

Chris e Dudu Marote

Chris e Dudu Marote

E agora quem fala, é ele, Chris.

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“Venho estudando sobre explosão solar desde 2002. O estúdio de áudio onde eu trabalhava ficava perto de uma antena de rádio e,  de vez em quando, captava umas interferências. Foi aí que descobri que aquelas interferências eram provenientes de explosão solar onde são lançadas partículas pela atmosfera da terra podendo interferir em sistemas de telecomunicações e aparelhos eletrônicos, principalmente em satélites, GPSs, linhas de transmissão de alta tensão, só que as interferências soavam interessantes”, conta o produtor.

Enquanto algumas coisas ficaram mais claras, outras nem tanto. Eu queria mais detalhes. Eis o papo que rendeu, aí embaixo.

Music Non Stop – Conta um pouco da ideia do álbum, o Dudu falou em explosões solares, radiações no espaço e som de átomos. Pode desenvolver um pouco sobre como esse conceito virou música?

Psicoff – A ideia principal do álbum era fazer música eletrônica de uma forma diferente e interativa usando conceito de ARG (Alternate Reality Game) e com elementos underground e extraterrestres, elementos esses que nos cercam diariamente, mas quase nunca prestamos muita atenção, mesmo porque nem sempre conseguimos ouvi-los, como explosão solar, ondas de rádio tanto terrestre quanto vindas do espaço, ecos de meteoros ou até mesmo o som do hidrogênio.

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Music Non Stop – O que pode explicar que o disco tenha chegado à primeira posição da Apple Music, ganhando de Grimes, Disclosure, Hardewell…?

Psicoff – Realmente essa é a pergunta que não vai “calar” rsrs. Claro, o álbum contou com a produção do Dudu Marote (PRZTZ), que, além de um grande amigo e mestre, é um profissional incomparável que dispensa apresentações e que me ajudou a tornar possível todo esse trabalho, e ao qual sou eternamente grato. Foi um privilégio e um aprendizado poder trabalhar ao lado dele.

A parceria com Konkreet Labs, empresa com sede em Berlim, Alemanha, pode ter ajudado muito. A parte interativa do álbum entra como conteúdo adicional e rolou através dessa convivência com sinais de rádio uma das principais matérias-primas de composição do álbum. A Konkreet Labs criou o incrível Konkreet Performer, um aplicativo para iPad que revolucionou a maneira de controlar um software de música no computador.

Cada música do disco contém um promocode (código promocional) do Konkreet Performer, cortesia gentilmente cedida pela Konkreet Labs, que deve ser decodificado, a fim de obter esse incrível app para iPad. Os códigos promocionais foram codificados através de sons de sinais digitais via ondas de rádio e embutidos sonoramente em cada música, é preciso usar um software gratuito como o FLdigi a fim de decodificar os códigos. Produzi um vídeo explicando melhor todo o processo.

Music Non Stop – Como foi o processo de composição do disco?

Psicoff – Venho estudando sobre explosão solar desde 2002. A fim de conhecer mais sobre o assunto, procurei alguns técnicos e alguns rádio-amadores. Conversando com eles pude descobrir que é normal eles consultarem diariamente o Space Weather, um serviço meteorológico do espaço para saberem como estará a qualidade da comunicação daquele dia, se as explosões solares iram prejudicar ou não. Comecei a me interessar mais, e imaginei como seria transformar esses dados em som usando softwares de sonificação como o Mathematica, e percebi que dava para fazer algo bem peculiar e interessante.

Music Non Stop – O que é Psicoff?

Psicoff – Psicoff na verdade é uma mistura do meu apelido de adolescência que era Psico e de um apelido virtual que recebi pelo twitter de alguns seguidores que zoavam por essas minhas loucuras que eu compartilhava, eles twittavam:  “u r crazy may ass off”.  Daí saiu Psicoff e que perfeitamente resume esse trampo todo.

Music Non Stop – O que fazer com esse sucesso agora?

Psicoff – Jámais imaginamos isso, ficamos muito impactados com isso tudo, a ficha meio que não caiu ainda… mas agora é continuar, produzir, criar, pesquisar, fazer barulho e que essa parceria com o Dudu Marote perdure por mais um montão de barulhos bons que podemos fazer.

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UM GUIA PRA VOCÊ OUVIR EXPLOSÕES SOLARES E “ETS” QUE ESTÃO NO DISCO, FAIXA A FAIXA

We’ve Found – 00:10 Efeito de passagem que chega ao ápice entre 00:16 a 00:17 e termina aos 00:23. Esse efeito é um eco de meteoro, que pode ser conferido neste link para melhor identificá-los. Os ecos de meteoro vão se repetindo nas passagens da música, como aos 01:06, aos 02:08, aos 03:50, aos 04:24 etc… Aos 04:04 aparece a primeira explosão solar, que vai até os 04:18, quando aparece tipo como uma ricocheteada, aos 04:20, todo o som da explosão.

DXing – “DXing” é o nome dado ao hobby de se comunicar via rádio-amador, seja por fala ou codificando/emitindo e recebendo/decodificando sinais de rádio, mais comumente conhecido como “fazer contato bilateral” com estações distantes de rádio-amador, as chamadas “citizens’ band”, e outras comunicações via rádio codificadas. A maioria dos “DXers” obtém verificações por escrito desses códigos de recepção ou contato. O nome DX vem da abreviação telegráfica de “distance” (distância) ou “distant” (distante).

Ao 0:28 rola a primeira explosão solar que vai até os 0:38. No 01:08 inicia outra explosão solar que vai até 01:15. Aos 04:10 e aos 04:22 são sinais de rádio provindos de Saturno captados pela sonda Cassini. Assim como uma variante desse sinal aos 04:37 até 04:41, se prolongando até o final e reagindo como cadeias de raios aos 04:55. Essa musica tem muita mais coisa, principalmente a fala inserida, gravada por mim numa dessas DXing usando o código internacional “Q”, que você pode entender melhor se clicar neste link.  As falas mais constantes são as dos códigos “QRU” e “QTI”.

Subzero – Tem muito ecos de meteoros nessa, soa meio como um paradoxo, pois ao mesmo tempo que soa gelada, no início o timbre do baixo é bem quente, com muito atrito, como o próprio meteoro, que provém de temperaturas subzero e quando entra na atmosfera terrestre sofre tamanho atrito ao ponto de encandecer e, dependendo do tamanho, até mesmo explodindo. Acho isso tão mágico que foi por isso que dei o nome de Subzero, aproveitando para usar muita frequência sub, além de zerar muitos knobs dos efeitos.

Whisper – Essa tem bastante explosão solar no início e no decorrer dela toda, é como uma homenagem. A ideia veio a partir da primeira vez que escutei o som de uma explosão solar. Fiquei tão de cara, porque pensava que era uma coisa mega ultra grave, pesada, como uma bomba atômica, sei lá… quando percebi que era um “sussurro” fique extasiado, era simplesmente perfeito, como o sol mesmo. Tive a ideia de fazer o vocoder da mesma maneira, como um “sussurro”. No final, além das explosõe solares, tem um sinal muito interessante captado pela sonda Cassine, provindo de Saturno, que por incrível que pareça tem as mesmas frequências da voz humana, são apenas “sussurros” que não sabemos “de quem” ou “do que”.

Hydrop – O som que fica em background é a sonificação do hidrogênio, o qual inseri em todos os timbres da música via vocoder, além de misteriosos e rítmicos sinais de rádio. Aos 01:36 eu apenas inverti a música até os 02:22. Ficou parecendo outra. Logo em sequida tem o sample do J. Robert Oppenheimer,que dirigiu o Projeto Manhattan para o desenvolvimento da bomba atômica durante a Segunda Guerra Mundial, no Laboratório Nacional de Los Alamos, no Novo México.

Earth Station – Começa com o som de uma explosão solar captada pela sonda Voyager 1 e retransmitida à Terra, som que foi sintetizado – sintetizar sinais de rádio é um processo onde esses sinais captados são filtrados por um sintetizador, vários sinais de rádio nos cercam todos os dias, WiFi, FM, AM, TV etc..

QRV – “QRV” vem do código internacional “Q”, essa música foi inspirada nas famosas e misteriosas “Numbers Stations”, também conhecidas como “Noise Stations” ou “Gost Stations”. Na verdade ela é uma “Noise Stations” particular, o “The Conet Project”, explica melhor o que sao essas rádios. “The Conet Project” é uma série de gravações dessas Number Stations espalhadas pelo mundo todo. Ao todo são 5 CDs de áudios dessas “estações de números” ou “estações de ruído”; são estações de rádio de ondas curtas bem misteriosas e de origem incerta, acreditando ser operado por agências do governo para se comunicar com espiões mobilizados. A coleção foi lançada pela gravadora Irdial Discos da Inglaterra em 1997, com base no trabalho do entusiasta Akin Fernandez.

D.M.O – Essa música é como se estivéssemos realmente viajando dentro de uma explosão solar, tem uma explosão no início, bem audível e muito amplificada, até parecem estilhaços de vidro voando no final. Ao longo da música tem variações das reações das explosões, o nome dado à música é uma homenagem ao amigo e parceiro Dudu Marote, é uma abreviação de “Dudu Marote Orchestration”, porque ele realmente pirou nessa música, e deu um grande sentido a ela, distorcendo elementos da música na mesma frequência das explosões, inserindo um efeito que se chama Flange, percorrendo todas as frequências e abrangendo toda a música, como um infinito mesmo, uma vez que reportei a ele em uma das várias conversas que tivemos sobre toda a arquitetura musical do álbum, que o espectro da explosão solar é cônico e que se propaga no espaço infinitamente.

Claudia Assef

http://www.musicnonstop.com.br

Autora do único livro escrito no Brasil sobre a história do DJ e da cena eletrônica nacional, a jornalista e DJ Claudia Assef tomou contato com a música de pista ainda criança, por influência dos pais, um casal festeiro que não perdia noitadas nas discotecas que fervilhavam na São Paulo dos anos 70.

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