Dekmantel: Conversamos com Elena & Interestellar Funk, Lena Willikens & Vladimir Ivkovic, duplas que farão você dançar (e pensar) no festival deste final de semana

Chico Cornejo
Por Chico Cornejo

Sinergias de gênero, número e grau

Ser artista é se expor e fazer isso profissionalmente amplia ainda mais a gama a frustrações envolvidas no jogo. Afinal ele é feito não apenas de expectativas, mas de reconhecimento e sentimento. Em meio a toda essa atmosfera competitiva conflitos naturalmente surgem e, de modo mais nocivo, a desigualdade representativa que acaba por criar uma paisagem artística menos diversa que o ideal. Todos sabemos que, em assuntos culturais, o que se torna hegemônico inevitavelmente gera um ambiente homogêneo e, com isso, um terreno estéril para a criação, seja em termos étnicos, políticos e sexuais.

É assim que a inclusão se torna algo fundamental para a opulência e a sobrevivência de qualquer cena. Ela pode se manifestar de diversas maneiras, indo de simples decisões curatoriais ao ativismo, procurando garantir espaços para que a polifonia de vivências e desejos que faz da pista um lugar tão rico em experiências se mantenha exuberante e contagiante. Quando a cabine expressa isso, dificilmente ela não reflete. Esta é a lógica que orienta os esforços que vêm ajudando a mudar o cenário da música eletrônica nos últimos tempos para melhor, revertendo a uniformização de artistas e público que se tornou predominante e algo curioso para uma cena que se sustentou na diversidade desde suas origens.

Então, quando se vê uma dupla binária compartilhando e não dividindo, não apenas os holofotes, mas paixões e sabedorias musicais, é bastante alentador. A escalação do Dekmantel nos traz isso em três ocasiões nas quais parceiros de afinidades expressam seus gostos e exibem suas coleções lado a lado. Nesta série, vamos recobrir parte desse terreno comum com perguntas simples respondidas por ambos e que, ainda que não incluam o alfabeto inteiro (seria cansativo demais, não acham?) procuram oferecer uma perspectiva matizada do ofício que escolheram.

Elena Colombi & Interstellar Funk

(Domingo, palco UFO, 14:30h)

Interestellar Funk

AMOR

Além de ser o ofício escolhido como carreira por vocês, qual o lugar da música em suas vidas?

EC: Onipresente!

IF: É bem isso, nada a acrescentar.

BUSCA

Quais são seus respectivos jeitos de usufruir de uma loja de discos ou métodos de garimpo?

EC: Como acontece com muitas coisas na vida, sua disponibilidade acaba afetando quando e como você sai para explorar … se tenho tempo, adoro me perder no processo de encontrar e escutar discos. Há algumas lojas às quais sempre retorno, mas com diferentes ideias e humores. E, se não tenho tempo, online é o caminho!

IF: Como Elena disse, seu tempo disponível afeta o modo como você procura e compra discos, o que para mim também implica adquirir mais no exterior e sempre tentar passar tempo em lojas quando viajo pelo mundo

COLEÇÕES

Se pensarmos nas crescentes limitações espaciais e Amsterdam e Londres, como cada um de vocês lida com uma quantidade grande de discos em casa? Isso entra e questão na hora de comprar?

EC: Creio que isso se aplica até mais a Londres que Amsterdam talvez…

Eu compro música constantemente, em todos os formatos disponíveis. Amo descobrir coisas novas e antigas e, não importa quanto conhecimento você assimile, sempre haverá algo novo a ser descoberto. Mas, ao mesmo tempo, não gosto de acumular muita coisa. Me sufoca! Alguns itens ficam, outros têm de ir. É uma evolução constante.

IF: Eu tenho pouco espaço para discos, o que me faz vendê-los com frequência. Gosto de manter minha coleção enxuta e, se não toquei algo por mais de um ano ou dois, eu vendo. Talvez isso seja ainda mais importante quando aplicado à minha coleção digital, pois sendo o espaço ilimitado eu me perco rapidamente em meio a tantos arquivos.​

DJING

Qual a abordagem de cada um?

EC: Pode ser que eu fique obcecada com algumas faixas e tento sempre incluí-las nos sets, mas para a grande maioria o que vale é que gosto de manter um frescor em tudo e mudar o que toco sempre que posso. Senão fico entediada.

IF: Alguns discos ficam no meu case por mais tempo que outros e são tocados com mais frequência, se tornando itens fixos dos meus sets. Mas, ainda assim, eu tento manter o frescor e semanalmente  insiro discos novos na minha bagagem.

ESFORÇO CONJUNTO

Há um plano que precede cada apresentação ? O diálogo entre vocês se desenvolve no decorrer do set ou há algum planejamento por trás?

EC: Nenhum tipo de plano! É um lance espontâneo.

FREQUÊNCIAS

Este talvez seja um dos traços que vocês sempre tiveram em comum, seja através da NTS (Elena) ou da Red Light Radio (Olf) Quais são suas perspectivas acerca do papel atual das rádios na disseminação de novidades musicais?

EC: Radio é um modo tão legal de expor as pessoas a músicas novas! Tanto a NTS como a Red Light Radio são plataformas que oferecem alternativas sólidas à radios comerciais.

IF: Provavelmente umas das razões que nos motiva a tocar juntos é o fato de que temos nossos respectivos programas, o que ajuda a moldar suas preferências de uma maneira totalmente diferente. Você tem que confiar no outro e ousar tocar coisas nova, o que torna tudo mais interessante para o público e para nós mesmos.

https://www.nts.live/shows/elena-colombi
http://redlightradio.net/residents/interstellar-funk

GROOVE

Quais são suas definições de um que seja irresistível?

EC: Boa pergunta! Mmmm, acho que depende muito do contexto… Estamos falando da pista ou de audição caseira?

Algumas das faixas e álbuns que tenho ouvido bastante ultimamente são:

Faixas:

BalabanTakarini

ChekovLapse V6

Ma SpaventiAttacco

Creepy AutographMurder Sex

Albums:

Cucina PoveraHilja

SubaWayang

XYREl Dorado

Iona FortuneTao Of I

MoralDance Of The Dolls

Eu acho cada um destes irresistível por razões bem diversas.

HINOS

Todo DJ tem suas ferramentas e armas secretas, mas como isso opera quando se toca com outra pessoa?

EC: Elas podem e serão tocadas no momento certo e cada um saberá qual é o momento de soltá-las no set.

IF: Acabamos com o dobro de hinos e armas secretas!

INTERNET:

Como este recurso modificou sua relação com a música, se chegou a mudar algo?

EC: Claro que mudou!! Há muita coisa positiva quem vem disso, as pessoas compartilham conhecimento de modo mais amplo. Ainda que disso decorram saturações ocasionais.

IF: A internet mudou totalmente a forma como nos relacionamos com a música. Toda a informação está online e ficou mais fácil se aprofundar mais num certo gênero. Creio que educa melhor as pessoas, o que penso que reflete diretamente na pista onde elas estão mais abertas para outros tipos de música.

JUNÇÃO

Tocar juntos exige uma cumplicidade, como conseguiram forjar esse laço que lhes permitiu se apresentar como uma unidade?

EC: Nós tocamos a noite toda juntos,  back to back, no De School no ano passado e foi logo que nos conhecemos! Acho que alguma pessoas simplesmente se conectam. E muito disso tem a ver com um confiar no gosto musical do outro. Além da versatilidade.

IF: Eu convidei a Elena para tocar no De School o verão passado e nem sequer tínhamos combinado de tocar back to back de antemão, mas curtimos um dia muito legal e combinamos logo de cara, então decidimos tocar a noite toda juntos, o que acabou sendo muito natural e inspirador.

KNOW-HOW

Onde sua preferências se encontram ou colidem?

EC: Mmmm, não tenho certeza. O que você acha, Olf?

IF: Acho que podemos pular esta, tudo rola ao vivo…

 

LABORATÓRIO

Há alguma maneira específica de testar novidades na pista? Isso muda de alguma forma quando tocam juntos?

EC: Gosto de testar demos tanto quanto possível, isto implica muitas vezes tocar algo que recebi logo antes de uma gig ou algo que editei naquele momento. Isto permite que algumas imperfeições permeiem o set e o mantenham interessante. Não creio que isso mude quando você toca com alguém.

Lena Willikens & Vladimir Ivkovic

Lena e Vladimir

AMOR

Além de ser o ofício escolhido como carreira por vocês, qual o lugar da música em suas vidas?

V: A música sempre foi uma parte essencial da minha vdia e sou feliz por poder expressar algo disso através dela

L: Sim, creio que somos muito afortunados.

BASE

Há um plano que precede cada apresentação ? O diálogo entre vocês se desenvolve no decorrer do set ou há algum planejamento por trás?

V: Não há planejamento prévio algum. Nos encontramos antes, sentamos e conversamos, raramente sobre música, mas sim sobre o que aconteceu desde a última vez que nos vimos. A música, então, vai fluir desses lugares.

L: Planejar nossos sets seria algo absurdo. É como ir encontrar um amigo e preparar nossas conversas de antemão.

COLEÇÕES

Se pensarmos nas crescentes limitações espaciais e Amsterdam e Colonia, como cada um de vocês lida com uma quantidade grande de discos em casa? Isso entra e questão na hora de comprar?

V: Não, para mim isso não se aplica. Eu compro música se eu gosto e, em alguns casos, se posso pagar ou ainda tenho espaço para acomodar.

L: Para mim esse é de fato um tópico sensível neste momento. Tenho todos os meus discos armazenados numa garagem e estou tentando achar um flat em Amsterdam em que possa me mudar adequadamente. Não parece ser uma tarefa fácil e estou começando a ficar impaciente, bem preocupada com meus discos em caixas neste exato instante.

DJING

Qual a abordagem de cada um?

V: Para mim é como uma caminhada imaginária na qual muitas coisas podem acontecer. Algo que começa numa manhã ensolarada pode repentinamente virar uma tarde fria e chuvosa, e vice-versa. Pode haver animais selvagens ou pirilampos ao anoitecer. Tento encontrar aquele lugar interior no qual posso soltar a imaginação, e usualmente sei o que aconteceu depois.

L: É uma boa comparação, mas por favor não imagine esta caminhada como algo esportivo. Ambos somos exatamente o oposto disso. É algo mais parecido com uma trilha na qual vale se jogar e deitar se esta for sua vontade. Tocar juntos para nós também é um diálogo, compartilhar humores e visões de pirilampos

EQUILÍBRIO

Qual o segredo para manter uma vida e carreira balanceada? Ambos têm tido agendas cada vez mais atribuladas, então como manter tudo sob controle?

V: Eu não vejo a vida de DJ como algo que se destaca. É uma parte integral de minha vida, como comer ou ler, então ela acaba expandindo minha mente. Eu não considero um fardo que me faz perder minha vida de vista. Tudo que faço se refere a essa vida que tenho e, para fazer o máximo que posso, não durmo muito. Mas isto não chega a ser um segredo…

L: Eu tampouco sinto como se tivesse de encontrar um equilíbrio. Equilibrar é algo em que não sou geralmente boa e muito menos interessada.

FLUXO

Há alguma maneira específica de testar novidades na pista? Isso muda de alguma forma quando tocam juntos?

V: A última vez em que nos apresentamos juntos eu quis tocar algo e avisei ela, para que então ela pudesse dizer não ou já começar a pensar no que tocaria depois. Isso me faz pensar numa caminhada novamente. É como chegar a uma encruzilhada em que diz para sua companhia: vamos à direita ao invés de seguir direto. Quando toco sozinho, estas situações não existem.

L: Tocar juntos é como simular uma conversação com um bom amigo. Aparecem ideias que não viriam à tona caso estivesse sozinha.

GARIMPO

Quais são seus respectivos jeitos de usufruir de uma loja de discos ou métodos de garimpo?

V: Eu tenho 2-3 pessoas e lugares que admiro, onde posso ver a ouvir discos novos, os quais não preciso necessariamente gostar, mas gosto muito de poder conhecer. No que se refere às lojas de discos das cidades que visito, não me importo se houver algum tipo de ordem, já que posso passar por seções que não me interessam. Se tenho tempo, então essas divisões não importam, eu só começo de um ponto e vejo o que acontece.

L: Depende totalmente de onde estou. Faz muita diferença se estou entrando numa loja de discos em Osaka pela primeira vez ou se colo na Redlight Records. Se não conheço bem a cena local da cidade, sempre procuro pelos selos e lançamentos locais, muitos dos quais não devem ter sequer distribuição.

HINOS

Todo DJ tem suas ferramentas e armas secretas, mas como isso opera quando se toca com outra pessoa?

V: Provavelmente da mesma forma. Uma faixa boa é uma faixa boa. Meus hinos, se é que existem, dependem do meu humor e se acho que deva tocar um deles, isso depende do clima em que eu e a Lena estamos naquele momento em que tocamos, aí essa faixa não vai soar como algo estranho naquele momento. A diferença é que eu posso perguntar imediatamente o que ela está tocando e não preciso descrever a música logo em seguida.

L:  Sim, e o fato de que as armas secretas vêm em dobro lhe dá muitas vezes mais liberdade e espaço para experimentar. Eu posso confiar plenamente no Vladimir para que salve a pista se eu preferir viajar um pouco.

V: Talvez eu nem salve a pista e siga a Lena só para ver o que acontece.

INTERNET:

Como este recurso modificou sua relação com a música, se chegou a mudar algo?

V: A internet é ótima para se comunicar e descobrir músicas novas, mas eu tendo a ficar distante de tudo que ela encerra: blogs, music groups… listas aleatórias de links de youtube. Eu ainda prefiro a comunicação interpessoal, as histórias e a empolgação das pessoas acerca de suas descobertas e estou de boa com o fato de não saber tudo ou ter tudo. Então basicamente a recepção de música e seu significado para mim não mudaram. Apenas o acesso a ela se tornou mais fácil.

L: Sim, eu concordo! Mas quando comecei a tocar, o discogs por exemplo, já existia. Claro que era menor, mas já era uma base de dados e negócios importante. Eu não consigo imaginar garimpar sem ele na verdade.

JUNÇÃO

Tocar juntos exige uma cumplicidade, como conseguiram forjar esse laço que lhes permitiu se apresentar como uma unidade?

V: Nos conhecemos já há muito tempo e existe muito respeito e confiança, além de muita diversão. Talvez haja um interesse mútuo no que ocorre nos redutos, nas bordas. Também tendo sido parte da longa história do Salon Des Amateurs de Dusseldorf em que essa mentalidade era uma das fundações, a ideia de generosidade e honestidade, de eliminação de egos… não existe muita coisa que precisemos explicar um ao outro. Eu posso imaginar que tudo que a Lena toque venha dessa base e também tenho curiosidade em ouvir o que ela pode vir a tocar ou como ela lida com certas situações.

L: O mesmo aqui! Não parece algo que temos de nos esforçar para fazer funcionar e criar uma linguagem. Tudo é muito natural.

KNOW-HOW

Onde suas preferências se encontram ou colidem?

L:  Creio que temos uma abordagem semelhante, tentando escutar cuidadosamente e curiosamente. Frequentemente me encontro super curiosa e ansiosa para ouvir a resposta dele.

V: Elas provavelmente se encontram numa certa atitude. Não há muita colisão. Recentemente houve uma faixa de que gostei muito por certas razões e acho que a Lena não suporta essa música. Mas tudo bem, essas situações viram mais uma piada que uma colisão séria.

LEVADA

Quais são suas definições de um groove que seja irresistível?

V: Hmmmm

L: Hmmmm

Esta elas não responderam e preferimos acreditar  que foi pelo fato de que isto se define na pista, numa conversa que só existe entre o DJ e o público, daquele tipo que vai abundar daqui a alguns dias no Dekmantel Festival São Paulo 2018.

Serviço:

Dekmantel Dia

03 e 04 de Março, no antigo Playcenter, das 13h às 23h

Dekmantel Noite

Dia 03 de Março, no Sambódromo do Anhembi, das 23h às 07h

Ingressos ainda disponíveis! Clique para a página de vendas do evento.

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