William Orbit Foto: Reprodução

De Madonna a Blur: 5 faixas essenciais com o DNA de William Orbit

Claudio Dirani
Por Claudio Dirani

Edição: Flávio Lerner


Entenda por que o compositor e produtor britânico foi um dos maiores da história do pop eletrônico

“Eu nunca gastei dinheiro com coisas fúteis”, confessou o alto e introvertido William Orbit ao jornalista Richard Crommelin, em matéria publicada pelo Los Angeles Times em março de 2000.

“Nunca comprei carros, drogas, viagens ou coisas desse tipo. Sempre investi tudo em equipamentos de gravação”, complementou o artista inglês, demonstrando que sua carreira, desde o final dos anos 1970 até o momento de sua morte, divulgada no último dia 07, foi dominada pela música e por ferramentas que ampliaram sua criatividade.

Nascido William Mark Wainwright na região de Hackney, em Londres, em 15 de dezembro de 1965, o compositor e produtor de uma verdadeira a-list de estrelas (Seal, Prince, Queen, Blur, U2, Kraftwerk…) ganhou seu apelido dos colegas ainda adolescente, por aparentar, digamos, “estar fora de órbita”. 

O que Wainwright não desconfiava é que o aparente bullying se transformaria em uma das marcas mais valorizadas do pop e da eletrônica, graças inicialmente à sua parceria de extremo sucesso com Madonna no final do século XX.

Depois de beliscar dois prêmios Grammy por seu trabalho em Ray Of Light (1998), William Orbit ainda surfaria na pipeline dos hits da Rainha do Pop pela produção em Beautiful Stranger — tema de Austin Powers: O Agente Bond Cama (1999).

Hollywood, a propósito, sempre fora um sinal positivo para o músico londrino, que nunca se contentou apenas com os créditos técnicos nos álbuns das superestrelas. 

No início de sua jornada pelo vinil, Orbit esteve envolvido em dois projetos, sendo o trio Torch Song o mais importante deles, por logo emplacar uma de suas músicas na trilha sonora da comédia A Última Festa de Solteiro (1984), protagonizada por um Tom Hanks ainda coberto por acnes.

De 1987 a 2010, também compôs, produziu e gravou uma dezena de álbuns solo, combinando dance, eletrônica, pop e até música clássica.

Um raio de luz em sua órbita

Em uma singela e sincera postagem em suas redes sociais, Madonna se despediu de William Orbit descrevendo como foi sua relação profissional com o amigo.

“Quando conheci e comecei a trabalhar com você, tive uma epifania. Percebi que a música não precisava caber em categorias ou gêneros — então criamos os nossos próprios”, escreveu.

“Epifania” talvez seja uma das poucas palavras que mais fazem sentido nesse curto obituário, ao refletir exatamente o que o próprio Orbit pensava sobre o hype criado em torno do produtor após integrar a discografia da Rainha do Pop. Nenhum sinal de ego em sua frequência.

“Sabe o que realmente me incomoda? Muitos entrevistadores dizem: ‘Ah, a Madonna se juntou com o William Orbit e ele revitalizou a carreira dela’. Mas a carreira dela estava boa. Ela que revitalizou a minha carreira”, analisou o artista na mesma reportagem do Los Angeles Times.

Seja qual for a ordem das coisas, o seu impacto foi sentido não apenas pelos fãs da cantora, mas também por um público fora da bolha.

Lançado em 22 de fevereiro de 1998, quase quatro anos após Bedtime Stories, Ray Of Light conseguiu traduzir em camadas sofisticadas de arranjos musicais o estado de espírito de Madonna após a chegada da primogênita Lourdes Maria em 1996.

Sem nenhum sinal de estrelismo, William Orbit sempre preferiu lembrar de seu desenvolvimento no estúdio para dar vida a canções como Drowned World, Mer Girl e Shanti — três das seis faixas do álbum das quais ele também recebeu crédito como compositor.

“Toquei todas as guitarras no álbum, em uma das primeiras oportunidades em que demonstrei, realmente, que poderia tocar o instrumento. Foi demais me ouvir em um amplificador, algo que não é muito comum para mim”, relembrou ao site Official Charts UK, em 2018.

William Orbit e a constelação de estrelas

Após ser tocado pelas mãos reais de Madonna, William Orbit se transformou imediatamente em uma marca. No ano seguinte, veio a chance de emprestar seus talentos para o Blur dar um passo além do britpop com o eletrônico Thirteen. Em seguida, se uniu ao U2 para produzir o single Electrical Storm.

A onda pop seguiu com parcerias ecléticas com All Saints, Pink e até Britney Spears. Sua última incursão musical foi a William Orbit Labs, plataforma criada para inovar e diversificar a produção digital.

Em uma das últimas questões respondidas ao Los Angeles Times naquele março de 2000, o inglês meio que resumiu sua frutífera carreira, ainda que breve para a cronologia humana.

“Gosto de fazer música que, de alguma forma, evoque reflexões nas pessoas. Sinto-me realmente atraído por faixas que despertam todo tipo de pensamento que não surgiria de outra forma. Também gosto de fazer sons que acelerem o coração das pessoas e as façam dançar. Gosto de brincar emocionalmente com meus ouvintes”, confessou.

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5 faixas essenciais para conhecer o trabalho de William Orbit

U2 – Electrical Storm (2000)

Lançar músicas novas como bônus em coletâneas não é nada incomum. Porém, o trabalho de William Orbit no single Electrical Storm é digno de nota — e originalidade.

Prince – The Future (1989)

A trilha sonora de Batman (1989) é um espetáculo à parte. A entrada em cena de William foi definitiva para dar uma roupagem que vestiu tão bem que Prince substituiu a faixa original pelo remix.

Madonna – Ray Of Light (1998)

A música que dá título ao álbum de 1998 de Madonna também brilhou nas mãos de Orbit. Além da produção, ele é coautor da canção responsável por mais uma reviravolta na carreira da Rainha do Pop.

Blur – Tender (1999)

Aqui, a missão de Orbit foi além de demonstrar competência. Produzir e encorpar o som da principal faixa do álbum Thirteen foi algo tortuoso e gratificante ao mesmo tempo, já que a tensão dominava as sessões da banda inglesa.

William Orbit – Barber’s Adagio for Strings (1995)

Orbit incorpora o espírito de Brian Eno para reinventar a linda faixa lançada em 1995 em seu álbum solo Pieces In a Modern Style.

Claudio Dirani

Claudio D.Dirani é jornalista com mais de 25 anos de palcos e autor de MASTERS: Paul McCartney em discos e canções e Na Rota da BR-U2.