Craca vem das profundezas com o álbum solo ‘Traquitana Audiovisual’

Fabiano Alcântara
Por Fabiano Alcântara

Produtor musical e artista visual, Craca lançou recentemente o videoclipe com a faixa instrumental Brazuka Noir, que antecipa a sonoridade que virá em seu primeiro álbum solo

A faixa instrumental eletrônica foi lançada em single nas plataformas digitais e em videoclipe.

O videoclipe de Brazuka Noir não só antecipa a sonoridade do álbum, como também apresenta a expressiva performance visual de Craca.

Filmado em plano sequência, em uma galpão completamente “videomapeado”, mostra a atuação do artista “tocando música e imagens” com suas traquitanas audiovisuais, em tempo real, além do controle e sincronização do seu próprio figurino luminescente.

Esta performance audiovisual será vista também nas apresentações do lançamento deste disco.

Assista ao videoclipe no canal YouTube do artista:

O single está nas plataformas digitais, como Spotify, Deezer e Apple Music.

Craca é o pseudônimo (ou alter-ego sci-fi-trash) de Felipe Julián, músico, produtor musical e artista visual. A nomenclatura surgiu do desejo de unir suas carreiras paralelas, a musical e a visual, onde atua com frequência realizando instalações artísticas no Brasil e exterior. O videomapping tornou-se a sua principal ferramenta para esta fusão nos palcos.

Conhecido pela dupla Craca e Dani Nega, com a qual tem dois álbuns lançados (Dispositivo Tralha em 2016, ganhador do PMB, e O Desmanche em 2018) e circula pelo país tocando em palcos de grandes festivais com participações de Bnegão, Gog, Ilú Obá, Luedji Luna, Roberta Estrela D’Alva, Lurdez da Luz, entre outros. Craca foi premiado com o Troféu Catavento pelo conjunto de sua obra na categoria “Música experimental”.

O disco Traquitana Audiovisual tem previsão de lançamento para 26 de abril. Leia entrevista com o artista em que ele fala do seu processo, conceitos e visões políticas:

Craca por Roberta Peronico

Por que quis fazer esse disco visual e em que momento apareceu o conceito?
Craca –  Craca surgiu das profundezas oceânicas para instaurar o caos lúdico aos seres humanos a fim de salvar algumas almas ou ao menos divertir-se em sua saga. Mas para invadir as cabeças e “hackear” as mentes é preciso distrair a atenção. Seres humanos são bichos complexos, apegados à imagem das coisas e à imagem de sí. Dou-lhes imagem então. Muita imagem. Imagens por todos os lados. Pra que se distraiam e deixem a música entrar. Por acidente. Por descuido. Feito isso, o vírus está instalado: o corpo se move sozinho. Você pode fechar os olhos mas não pode piscar um ouvido. Tudo surgiu anos atrás, participando de uma residência artística em Fortaleza. Saí para andar na praia, olhei uma pedra repleta de cracas e mexilhões e ví sentido naquilo ali. Mais do que isso. Aquilo sintetizou pra mim o que eu queria fazer a partir daquele momento. Música e imagem pra dançar a partir de um outro brasileirismo, mais biológico.

O que tá rolando de mais interessante na música hoje, na sua opinião?
Craca – America latina é quem tá tendo o que dizer. Se você remexer o substrato e procurar na parte mais funda.. vai encontrar as vozes da gente historicamente calada. Principalmente índios e negros. Por isso canto “somos casi todos negros, somos casi todos índios, somos chinos japoneses, somos todos latinos. Somos portugueses holandeses, americanos y franceses. Somos golpes de Estado, somos senhores de esclavos”. Não tá mal escrito não. É pra ler em espanhol. Há uma eclosão de selos e artistas da eletrônica latina. E do hip hop/rap de afirmação indígena ou negra. São muitos nomes pra citar e ficaria mal não citar todos, mas é hora de conectar-se ao nosso território antes que os gringos venham e o levem embora. Novamente.

Existe algo na sua música que seja típico de seu lugar de origem?
Craca – Sim, lá na Terra usam-se muitos temperos interessantes vindos de todos os pedaços daquela bola. Alguns até meio afrodisíacos. Tem escala árabe, com frase bálcan. Tem cumbia com trance e pandeiro com sinth e o que mais cair na panela. Cracas como eu não tem morada. Foram arrancadas de sua terra natal por golpes e ditaduras e migraram, fixas à cascos de navios, para outros cantos do mundo. Eu, sou uma craca de origem russo/árabe/católico-judaica/europeia/latinoamericana/tercer mundista atéia. Sem exageros. Sou tipicamente um brasileiro não nativo. Tenho não menos do que 3 continentes e 5 imigrações forçadas no meu sangue. Tudo isso tá no meu som.

Quais são suas principais referências estéticas fora da música?
Craca – Pré-cinema – acho f… Cinema de arte – acho f… Instalações – acho f… Quadros do Emydgio e mantas do Bispo – acho f… Arquitetura – acho f… Opinião dos amigos – acho f…

Quais são suas maiores influências?
Craca – Tudo aquilo que eu como. As ruas por onde ando. As contas que tenho que pagar.

Quais são seus valores essenciais?
Craca – Democracia. Liberdade de expressão. Empatia. Jornalismo livre e independente. Power to the people. Desarmamento. Não é não. Ele não.

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