Conversamos com a doce e talentosa Flo Morrissey, diva da moda e do folk que é a “nova Joni Mitchell”

Adri Ferreira Silva
Por Adri Ferreira Silva

O contraste entre os traços infantis do rosto de boneca emoldurados por cabelos longos, repartidos ao meio, e o look hippie sexy, importado dos anos 1970, transformam a chegada de Flo Morrissey numa aparição.

A referência ao período não diz respeito unicamente ao fato de que ela adora usar maxicasacos marrom, botas e bolsas com franjas de couro. Flo canta folk como se tivesse nascido naquela década. Mas “a nova Joni Mitchell”, como a apelidaram os críticos, tem 20 anos.

A comparação não a desagrada. Mas a musa do folk não está entre os ídolos da menina, cujas referências são vozes masculinas de Bob Dylan e Neil Young. Foi pensando neles que Flo compôs as faixas de seu primeiro disco, “Tomorrow Will Be Beautiful”, lançado em meados de 2015, em meio a sua ascensão na música pop.

Desde o lançamento do álbum, a vida da garota mudou. Ela rodou por casas de shows e palcos de megafestivais como Les InRocks (França), South by Southwest (EUA) e Glastonbury (Reino Unido). Tornou-se diva de grifes como a italiana Gucci, e narrou essa mesma história inúmeras vezes aos jornalistas.

flo1Até então, Florence, seu nome de batismo, morava com a mãe Helena, diretora executiva de um importante fundo de investimentos, o pai, Richard, budista, professor de yoga e de meditação, e oito irmãos _cinco mulheres e três homens_, numa casa no badalado bairro londrino de Notting Hill.

Sua ainda curta trajetória começou aos 14 anos, idade em que Florence passou a fazer videoclipes caseiros, posteriormente enviados a blogs e sites especializados em música. Aos 17, finalmente ela foi descoberta. Aos 18, assinou contrato com a gravadora Glassnote, mesmo selo de Mumford & Sons e CHVRCHES. Nesse périplo, nunca duvidou de qual seria o seu destino.

“Minha mãe diz que, quando eu tinha dois anos, assistia à ‘Bela Adormecida’ e depois passava o dia todo cantando ‘Once Upon a Dream’. Eu sabia a letra de cor”, conta. “Aos 6, 7 anos, fazia performances na escola e frequentava as aulas de música clássica, o que me fez pensar que poderia interpretar ópera.”

Aos dez, o pai despertou sua atenção para Neil Young, que inspirou Flo a tocar violão e escrever as próprias composições. “Aos 14, me dei conta de que poderia ser realmente uma profissional”, lembra.

Foi o pai também quem lhe apresentou a fina flor do freak folk, os norte-americanos Devendra Banhart e as irmãs da dupla CocoRosie. “Adoro, mas meus preferidos eram Neil Young, Bob Dylan, Jeff Buckley, Frank Sinatra e outros artistas das antigas que me impressionaram muito”, descreve. “Meu gosto era muito diferente dos amigos da escola. Sempre me relacionei melhor com pessoas mais velhas.”

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Esse descompasso a isolou. “Os colegas da minha idade nunca entenderam muito bem quem sou ou o que estou fazendo”, conta. Seus verdadeiros companheiros eram os irmãos: “Nunca nos sentimos sozinhos e nos divertimos muito juntos”, diz a primogênita da superfamília.

Quando Flo decidiu abandonar a escola, aos 17 anos, seus pais não se opuseram. Também não houve pressão após a decisão de morar sozinha num pequeno apartamento na França. “As pessoas apreciam mais a vida aqui do que em Londres”, acredita. “Paris também é uma cidade estimulante. Aqui, há uma comunidade mais próxima do que gosto de fazer e de como sou”, diz ela, que encontrou sua turma nos bares ao redor do Canal St. Martin e nas pequenas casas de shows de Montmartre. Entre os novos amigos, estão Lisa-Kaindé e Naomi, as gêmeas da dupla Ibeyi, com quem fez uma turnê em 2015. “Elas são uma influência. Trabalham duro, tocando todos os dias. Me ensinaram muitas coisas.”

Sua vivência mais marcante, no entanto, foi a gravação do álbum, em Los Angeles, produzido por Noah Georgeson, responsável também por discos de Devendra Banhart. “Sempre gostei dele e ir para L.A. foi uma aventura”, relembra. “Pela primeira vez passei tanto tempo longe de casa sozinha, num lugar onde havia Sol o tempo todo. Amei a experiência, ainda que tenha sido duro em alguns momentos.”

Exceto por uma parceria com o francês Philippe Zdar, do duo eletrônico Cassius, todas as outras faixas foram uma parceria entre Georgeson e Flo. “Logo que comecei a me apresentar, as pessoas me tratavam como uma garotinha de 17 anos que não sabia sobre o que estava falando. Mas eu sempre soube muito bem o que queria fazer, e Noah respeitou isso.”

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O álbum narra aventuras e desventuras amorosas que Flo ainda não teve tempo de experimentar, mas expressa como se fossem dela. Reflexo, afirma, de sua própria maturidade. “Antes, tudo era excitante o tempo todo”, acredita. “Com o passar do tempo, percebi que existem outras nuances e podem ocorrer coisas desagradáveis. Mas, mesmo na tristeza, a vida pode ser bonita e inspiradora.”

Foi por isso que escolheu o título “Tomorrow Will Be Beautiful”. “Numa noite em que estava chateada, meu pai me disse essa frase antes dormir. Nunca me esqueci.”

EXTRA: Flo Morrissey entre cafés e papos sobre a música e a vida (em inglês)

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