Foto: ReproduçãoComo o rock está lidando com sua crise existencial
Edição: Flávio Lerner
“O gênero perdeu o monopólio da revolta. Mas ainda tem raiva. E enquanto houver raiva, haverá rock”, argumenta Alexandre Bezzi
Houve um tempo em que o rock fedia a álcool, suor, tabaco vencido e más decisões de vida. O camarim tinha cheiro de cerveja derramada, o palco parecia um acidente prestes a acontecer e ninguém precisava de um coach para explicar que aquilo provavelmente acabaria mal.

GG Allin transformava seus shows em uma mistura de punk, violência, fluidos corporais e completo desprezo pelo conceito de bom senso. O Guns N’ Roses fazia do atraso, da ressaca, das brigas e do excesso parte do espetáculo. Era o rock sendo inconveniente. E isso era parte da graça.
Nos anos 90, o Nirvana e o grunge fizeram algo ainda mais interessante: transformaram angústia, alienação e desconforto em produto de massa. Kurt Cobain parecia odiar a fama enquanto se tornava cada vez mais famoso. O paradoxo era maravilhoso. O underground descobria que também podia vender milhões de discos, aparecer na MTV e virar pôster no quarto de adolescente.
Na Inglaterra, os irmãos Gallagher transformavam o Oasis numa novela familiar com guitarras. Liam e Noel elevaram a escrotidão fraternal a uma forma de arte. Cada entrevista parecia uma ameaça diplomática. Cada show carregava a possibilidade de um novo barraco. Você nunca sabia se assistiria a um grande concerto ou ao início de uma guerra civil britânica.

Os anos 2000 ainda tinham seus sobreviventes do caos. Os Libertines atravessavam Londres como uma procissão de poetas bêbados, jaquetas amassadas e decisões questionáveis. Pete Doherty e Carl Barât tocavam como se estivessem fugindo da polícia. E talvez estivessem.
Amy Winehouse trouxe outra forma de perigo. Sua música bebia no jazz, no soul, no ska e no rhythm and blues, enquanto sua vida pessoal era transformada em espetáculo. Amy cantava sobre vulnerabilidade enquanto o mundo assistia à sua vulnerabilidade como entretenimento. Depois morreu. E a indústria fez o que sabe fazer melhor: transformou tragédia em produto. Documentário, biografia, pôster, camiseta, fast fashion. A autodestruição virou merchandising.
Só que alguma coisa mudou. O rock foi ficando confortável. Maroon 5 virou trilha sonora de consultório odontológico. Foo Fighters se tornou o equivalente musical de um golden retriever de colete: simpático, competente, energético e incapaz de provocar qualquer sensação real de perigo. E existe o Imagine Dragons, a entidade suprema da autoajuda em forma de estádio. Suas músicas parecem feitas para levantar braços, acender celulares e vender caminhonetes no intervalo do Super Bowl. É som corporativo.

O problema não é uma banda fazer sucesso. O rock sempre fez sucesso. O problema é quando a rebeldia vira estética. Quando o cabelo continua comprido, a guitarra continua distorcida, o palco continua enorme, mas ninguém ali parece disposto a contrariar absolutamente ninguém. O rock passou décadas sendo acusado de corromper a juventude. Hoje, parece desesperado para conseguir aprovação dos adultos.
Mas existe uma coisa que talvez salve o gênero: ele nunca foi puro. Nunca. Nasceu da mistura. Blues, rhythm and blues, gospel, country, folk e música negra americana foram se encontrando, brigando e se transformando. O estilo sempre foi bastardo. E talvez essa seja sua maior qualidade. Por isso não faz muito sentido procurar o “verdadeiro rock”. E esse é justamente aquele que não respeita muito a própria certidão de nascimento!
É aí que entram artistas como Idles, Fontaines D.C., Turnstile, Wet Leg, Big Thief e Baby Berserk. Cada um bagunçando a casa de um jeito.

Idles mistura pós-punk, hardcore e comentário social. Fontaines D.C. recupera a tradição literária do rock irlandês sem parecer uma banda cover do passado. Turnstile joga hardcore, metal, pop e energia de pista de dança no mesmo liquidificador. Wet Leg entende que uma música também pode ser engraçada sem pedir desculpas. Big Thief transforma folk, rock e experimentação em alguma coisa difícil de catalogar. Baby Berserk mistura synth-pop, punk-rock, moda, arte e uma certa dose de caos para se destacar na cena indie atual.
Ainda temos Måneskin e Greta Van Fleet fazendo versões mais caricaturais do rock clássico. E tudo bem. O problema seria se todos fizessem a mesma coisa.
No Brasil, produtoras independentes também ajudam a manter essa bagunça viva. A Balaclava Records é um bom exemplo. Seu festival virou um dos espaços mais interessantes para quem ainda quer ouvir música alternativa sem precisar viajar até 1997. DIIV, Blonde Redhead, Terno Rei, Wild Nothing, Raça, Beach Fossils e tantos outros nomes passaram por esse circuito, mantendo uma ponte entre o público brasileiro e uma cena internacional que continua se reinventando.

Isso importa porque o rock não desapareceu. Ele apenas deixou de ser o centro do universo. E talvez seja saudável. Durante décadas, o gênero carregou sozinho a obrigação de representar juventude, sexo, drogas, política, rebeldia e inconformismo. Hoje o hip-hop faz isso. A música eletrônica faz isso. O funk faz isso. A moda faz isso. A internet faz isso.
O gênero perdeu o monopólio da revolta. Mas ainda tem raiva. E enquanto houver raiva, haverá rock. Talvez com menos couro, mais sintetizador, mais maquiagem, mais eletrônico e muito mais mistura. Talvez apareça em bandas que nem se consideram roqueiras. Talvez venha de lugares que os puristas jamais reconheceriam.
E talvez seja justamente aí que ele sobreviva: não como conhecíamos, não como querem os puristas e certamente não como gostariam os departamentos de marketing. Ele sempre foi uma música bastarda. Que continue assim. Porque no dia em que precisar pedir autorização para incomodar alguém, aí sim podemos começar a procurar o atestado de óbito!



