Como o cinema alerta e educa sobre a AIDS desde os anos 80! Conheça 12 filmes que tratam do assunto para assistir durante o dezembro vermelho

Por Yasmine Evaristo

O mês de dezembro começa com um importante alerta de prevenção à infecção pelo HIV – o dezembro vermelho.

Segundo dados da última atualização do Ministério da Saúde, no último ano 15.923 pessoas foram diagnosticadas soropositivas. A maioria das pessoas que vivem com HIV e AIDS no Brasil já passou por pelo menos alguma situação de discriminação ao longo de suas vidas. É o que indica um estudo feito com 1.784 pessoas, em sete capitais brasileiras, entre abril e agosto de 2019. Os dados fazem parte do Índice de Estigma em relação às pessoas vivendo com HIV/AIDS – Brasil, realizado pela primeira vez no país.

De acordo com a pesquisa, 64,1% das pessoas entrevistadas já́ sofreram alguma forma de estigma ou discriminação pelo fato de viverem com HIV ou com AIDS. Comentários discriminatórios ou especulativos já afetaram 46,3% delas, enquanto 41% do grupo diz ter sido alvo de comentários feitos por membros da própria família. O levantamento também evidencia que muitas destas pessoas já passaram por outras situações de discriminação, incluindo assédio verbal (25,3%), perda de fonte de renda ou emprego (19,6%) e até mesmo agressões físicas (6,0%). Apesar de termos completado quase quatro décadas de epidemia e de termos alcançado muitos avanços tecnológicos e biomédicos, para 81% das pessoas entrevistadas ainda é muito difícil revelar que vivem com HIV. Em geral, as pessoas responderam que não têm boas experiências ao revelar sua condição positiva para o HIV a quem não é próximo. Vizinhos e vizinhas foram as pessoas que, com mais frequência (24,6%), souberam dessa condição sem o consentimento das pessoas vivendo com HIV. Cenário semelhante foi relatado entre colegas de escola (18,2%), professores e demais profissionais do ambiente escolar (15,3%).

Para nos dar um panorama da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida nos anos 80 até aqui, o cinema vem produzindo filmes que retratam bem não só as pessoas que possuem o vírus, mas também a relação dela com as pessoas ao redor, porém, são poucos os filmes que tratam sobre o tema sem citar a questão do homossexualismo. Reunimos aqui alguns para que você possa assistir e aprender, ao mesmo tempo.

Os primeiros títulos a abordarem o assunto abertamente

Lembrado como o primeiro grande filme a abordar o assunto foi AIDS, Aconteceu Comigo (An Early Frost, 1985), estrelado por Aidan Quinn. O longa foi feito pela rede de TV NBC e exibido em 11 de novembro de 1985. Nele um advogado de sucesso precisa falar sobre sua homossexualidade com seus colegas de trabalho e familiares, mas também contar à seus pais que é soropositivo. O filme foi lançado um mês após a morte do ator Rock Hudson, primeira grande celebridade a morrer em decorrência de alguma doença relacionada a AIDS. Desta forma o interesse do público no tema era alto e o retorno foi uma grande audiência. 

Curiosamente alguns dias antes do lançamento de ‘Aconteceu Comigo’ um outro longa, chamado Buddies (Buddies, 1985) foi ao ar. Ele também tratava da vida de homens gays lidando com o HIV. Esse filme também foi feito para TV, mas só veio a ter atenção do público um pouco depois. Nele, um homem gay se oferece para ser o ‘amigo’ de cabeceira de um outro homem que está à beira da morte. O diretor Arthur J. Bressan Jr. foi um pioneiro do cinema queer e, infelizmente, faleceu em decorrência do HIV dois anos após o lançamento do filme.

Mas, voltando à ‘Aconteceu Comigo’ a maior reação negativa ao filme partiu dos patrocinadores que suspenderam os anúncios durante a exibição. Além disso, a censura também existia durante as gravações em forma de fiscalização das cenas. Segundo Aidan, em entrevista contida nos extras do DVD (edição internacional), a emissora tinha o cuidado de nunca mostrar o casal ocupando a mesma cama, se beijando ou sequer tendo contato físico. Vencedor de Emmys e Globo de Ouro o filme era avaliado como um dos mais importantes, mas também criticado por estereotipar a personagem homossexual. 

Diante do estigma por trás do vírus do HIV, a síndrome era chamada de ‘câncer gay’. Por isso é comum encontrar neste primeiro momento títulos que abordam a vida cotidiana das comunidades gays estadunidenses. Em  Parting Glances – Olhares de Despedidas (Parting Glances, 1986) de Bill Sherwood um casal está se separando, pois um deles vai se mudar para a África. Em meio aos dilemas do distanciamento, um dos argumentos para que a mudança não ocorra é o fato de Nick (Steve Buscemi), amigo do casal, portar HIV. Alguns anos depois, em  Meu querido Companheiro (Longtime Companion, 1989), um grupo de amigos homossexuais começa a sofrer com a epidemia. Aos poucos, um a um é diagnosticado com AIDS e o medo de lidar com a morte os desespera. 

Em terreno sólido as discussões sobre a AIDS se ampliam no cinema

A década de 1980 se encerra com Caminhos Cruzados (Common Threads: Stories from the Quilt, 1989), vencedor do Oscar em 1990. O documentário relata a história de pessoas que morreram nos primeiros anos da epidemia. Seus nomes estiveram na AIDS Memorial Quilt, uma colcha de retalhos colocada, pela primeira vez, na frente da Casa Branca em 1987

Ainda que o estigma da Aids esteja atrelado às comunidades LGBTQI+ o que podemos observar no cinema a partir dos anos 1990 é que cada vez mais o assunto vem sendo discutido. Em Paris is Burning (Paris is Burning, 1991) de Jennie Livingston o foco está na comunidade de Nova Iorque e em sua vida cotidiana. O filme trata dos extremos da vida da época: a beleza dos bailes e as discriminações provocadas pela epidemia de aids. 

Já em Filadélfia (Philadelphia, 1993) o apelo para que o tema alcançasse um público cada vez maior foi lançado. O filme trata do HIV/AIDS e da homofobia retratando a história de um advogado (Tom Hanks) que processa a empresa que o demitiu ao saber que ele está infectado. Com um elenco de atores que posteriormente se tornaram aclamados (incluindo Antonio Banderas e  Denzel Washington) o filme foi vencedor do Oscar de Melhor Ator. Até hoje a canção Streets of Philadelphia de Bruce Springsteen é lembrada por ser a música original da trilha desse filme. 

O vírus não escolhe idade, gênero ou orientação sexual 

Podemos observar que nos anos 1990 a abertura para se discutir o assunto foi tanta que as personagens passaram a ter mais nuances em sua representação. Além de falarem das comunidades LGBTQI+ os longas passaram a abordar também a vida de mulheres e jovens, pois o vírus nunca foi exclusivo de um único grupo social. 

Dentre as crianças retratadas, os dois filmes mais marcantes da época são Um lugar para Annie (A Place to Annie, 1994) e A Cura (The Cure, 1995). No primeiro filme uma enfermeira  (Sissy Spacek) tenta adquirir a guarda de Annie, um bebê que nasceu com HIV e foi abandonado por sua mãe. As dificuldades em se criar uma criança que vive com o HIV em um período que os recursos médicos eram tão poucos são a abordagem do filme.

No segundo filme o foco é na amizade entre dois garotos. Enquanto Erick (Brad Renfro) é solitário é um garoto negligenciado por sua mãe e Dexter (Joseph Mazzello) contraiu AIDS durante uma transfusão de sangue. Os dois meninos decidem ir para uma outra cidade em busca da cura para o amigo. De maneira pueril e comovente o filme apresenta as discriminações vividas por um jovem com AIDS nos anos 1990. 

No mesmo ano de ‘Cura’, três mulheres saem em uma viagem pelo interior dos Estados Unidos em um filme sobre maternidade, lesbianidade, relacionamentos abusivos e AIDS/HIV. Somente Elas (Boys on the Side, 1995) tem no elenco Whoopi Goldberg, Drew Barrymore e Mary-Louise Parker em um road-movie que fala sobre encontrar suporte em desconhecidos. Com um tom mais descontraído a comédia dramática mostra uma perspectiva de esperança ainda que diante do óbito. 

Mas o aumento de pessoas contaminadas gerou também filmes com sabores bem amargos. Kids (Kids, 1995) de Larry Clark foi um dos filmes mais usados para alertar a juventude sobre os riscos de uma vida sexual irresponsável. Ao acompanharmos jovens nova-iorquinos embalados por drogas, skates e rock’n’roll percebemos o quanto aquela geração acredita ser imune a qualquer percalço da vida. O diretor não doura a pílula e mostra que o descaso e a falta de empatia com o próximo cria um círculo de proliferação do vírus. 

As próximas duas décadas são marcadas por menos filmes focados no tema, mas apresenta em vários títulos personagens que são portadores do HIV. Com o avanço na medicina as narrativas vão se abrandando, ainda que encontremos personagens vivendo seus últimos dias como Ed Harris em As Horas (The Hours, 2002) ou disputas judiciais como em Código de Honra (Puncture, 2011). 

A afeição está nas telas nas formas de Marina (María Pedraza) personagem da série Elite (Elite, 2018) soropositiva com carga viral indetectável ou na memória da resistência do grupo ACT UP, em Paris, que teve sua história contada em 120 Batimentos por Minutos (120 Battements Par Minute, 2017). 

O cinema brasileiro também discute a AIDS

No Brasil, Cazuza talvez seja a pessoa famosa sobre a qual se fala quando o assunto é AIDS/HIV. Em 2004, a diretora Sandra Werneck e o diretor Walter Carvalho dirigiram o longa Cazuza: O Tempo Não Para, cinebiografia sobre a vida do cantor. Além do músico, o cinema brasileiro falou do HIV em outros filmes como em Boa Sorte (2014) de Carolina Jabor sobre um romance entre uma mulher soropositiva e um homem com problemas psiquiátricos que se conhecem em uma clínica. 

Mas a produção que mais abordou a nossa história e relação com a AIDS foi Cartas Para Além dos Muros (2019) dirigido por André Canto que mostra de maneira cronológica a epidemia de HIV no país. O documentário conta com o depoimento de familiares e amigos, além de alguns portadores da síndrome. O filme trata das dificuldades, das melhorias e dos estigmas existentes nessas três décadas observando que ainda há avanços a serem feitos principalmente no enfrentamento ao preconceito. 

Com um formato semelhante a MTV Brasil estreia hoje a noite, 1º de dezembro de 2020, um doc-reality chamado Deu Positivo protagonizado por pessoas com HIV que falarão sobre sua vida com naturalidade. O projeto foi desenvolvido e realizado pela GSK, Vbrand e Cine Group. O conteúdo é exclusivo da emissora e será exibido nos dias 1º, 2 e 3 de dezembro. 

Yasmine Evaristo

Artista visual, desenhista, graduanda em Letras - Tecnologias da Edição. Membro Abraccine. Pesquisadora de cinema, principalmente do gênero fantástico, bem como representação e representatividade de pessoas negras no cinema. Devota da santíssima trindade Tarkovski-Kubrick-Lynch.

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