4 atitudes que podem ajudar a botar a sua banda numa turnê internacional

Por Guilherme Silva
Show da banda INKY no Primavera Fauna, no Chile

Show da banda INKY no Primavera Fauna, no Chile

Este ano há uma invasão brasileira de responsa nos festivais Primavera Sound, em Barcelona (INKY, O Terno, Quarto Negro, Aldo, Water Rats e Nuvem), e SXSW, no Texas (Far From Alaska, ruído/mm, DESAMPA, Jéf, Planar, Alaska, folks, Rubel, Cabezas Flutuantes, Clara Valente e Jota Erre). Isso me fez pensar como é incrível que cada vez mais bandas brasileiras estão indo tocar fora do país.

Apesar de termos bandas brasileiras “internacionais” muito bem estabelecidas, como Sepultura, Nação Zumbi e CSS, nunca como agora havia sentido uma vontade tão grande das bandas de quebrarem com os paradigmas de que rock nacional independente é só nacional e irem em busca de outros mercados.

A banda Ratos de Porão tocou em praticamente todo o mundo no esquema DIY

A banda Ratos de Porão tocou em praticamente todo o mundo no esquema DIY

Há seis ou sete anos, tínhamos uma presença menor internacionalmente do que hoje em dia. E para todo movimento que se gera, existe um precursor. Lembro de quando o Holger e Garotas Suecas eram presenças marcadas em festivais pelo mundo. E eles também tiverem seus precursores: Hurtmold tocou no Sonár em 2005 e os Ratos de Porão tocaram praticamente em todos os países do mundo no esquema mais DIY possível.

Brasileiros no Sónar 2005

Porém, hoje em dia, não estamos falando de duas bandas, estamos falando de seis bandas brasileiras tocando em um dos maiores festivais da Europa, e de outras onze rumando para o estabelecido SXSW. Sem contar os inúmeros tours internacionais de bandas independentes que rolam por aí: Boogarins fez mais de 30 datas na Europa e nos EUA, The Baggios fez 10 shows no México, no final do ano passado; INKY fez um tour pela América do Sul, passando pelo palco principal do Primavera Fauna, no Chile, e abrindo para o Wild Nothing em Lima; Francisco el Hombre vai para Cuba; Céu anunciou mais de 20 shows gringos para o meio do ano…

Boogarins fechou mais de 30 datas nos EUA e na Europa

Boogarins fechou mais de 30 datas nos EUA e na Europa

Fico muito feliz ao ver essa compreensão dos tempos em que vivemos por parte dos artistas e, por isso, resolvi escrever um pouco sobre como a INKY faz, quando quer tocar fora do Brasil. Quero ver cada vez mais artistas, bandas, produtores, DJs indo para fora do país e representando essa absurda quantidade de sons bons produzidos aqui.

A banda INKY tocando em Lima, no Peru

A banda INKY tocando em Lima, no Peru

1) Pense no plano macro: que tipo de artista você quer ser? Qual é o seu público? Onde você acha que seu som se encaixaria melhor? Quais são os festivais que têm a ver com a sua banda? Quais são as outras bandas do seu rolê?

Só você pode responder a essas perguntas. Lembre-se, a internet está aí como principal ferramenta da nossa era; use-a. Tem um festival que você ouviu falar e que parece ser legal? Pesquise-o. Veja de quem são os logos que estão no flyer. Pesquise-os. Viu o nome de uma pessoa que se repete em várias procuras? Pesquise-o. Eu sempre falo que as informações estão todas à sua frente, só depende de quanto você as quer. Após ter isso delimitado, pense em escalas menores.

Holger: desbravadores

Holger: desbravadores

2) Reflita em um plano a curto, médio e longo prazo. A INKY decidiu, no começo de 2015, que iria focar seus esforços na América do Sul. Começamos a trabalhar em fevereiro para uma turnê que se realizaria em novembro. O ideal, ao se tratar de shows internacionais, é que o booking comece um semestre antes. Ao delimitarmos que novembro seria o mês da turnê, ficou mais fácil ir para o próximo.

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Sua banda é o novo Pixies? Legal, mas o poupe o promoter local dessa ladainha

3) Pesquise pessoas (produtores, bookers, curadores de festivais, rádios, assessorias de imprensa, bandas, selos, entusiastas, fãs) e entre em contato com elas. Algo como: “Olá, me chamo X e represento a banda X. Temos planos de ir para a sua cidade daqui a X meses e, ao fazer uma pesquisa de pessoas que poderiam agregar ao nosso projeto, cheguei no seu nome. Aqui está o nosso som e o nosso vídeo mais legal. Aguardo sua resposta, caso possa ajudar ou conheça alguém que possa. Obrigado”.

Sinta-se livre para ser criativo nessa hora. Mas lembre-se, menos é mais, e ninguém quer ler que você é o próximo Pixies ou que toca guitarra como o Jimi Hendrix. Junte esses contatos e organize-os. Eu sempre gosto de pegar uma lousa branca grande e separar os contatos por país. Facilita bastante ter as informações todas visíveis. Assim que um contato responder, prossiga a conversa e veja se consegue evoluir para uma negociação. É muito importante pensar na rota que você quer fazer ao negociar com as pessoas. Shows em cidades próximas são sempre melhores porque o transporte custa menos. Por favor, saiba falar não. Vamos supor que o produtor tenha se interessado pelo seu som e quer levar você para a cidade dele, mas não pode pagar cachê, só transporte e hospedagem. Ponha essa gig na balança e veja se vale a pena. Às vezes, vale. Se for a sua primeira vez na cidade e ele está oferecendo pra você abrir um show local com 600 pessoas de público, pode ser que valha! Mas se for um show com bilheteria para 20 pessoas, não. Cada dia parado em uma turnê equivale a perda de tempo, esforço e dinheiro.

4) Promova o seu show. Confirmou uma data em Bogotá? Incrível! Entre em contato com a maior quantidade de pessoas possíveis para que seu show não seja um fiasco. Pergunte se elas conhecem bookers ou produtores de cidades próximas que poderiam ajudar com mais shows. Sempre entro em contato com bandas de que gostamos das cidades por onde passaremos. Elas serão seus maiores aliados na cidade. Que banda do mundo não gostaria de ter um lugar para ficar e ter amigos com bandas no Brasil? Use isso ao seu favor. Fale que você pode ajudá-los quando vierem para o seu país. Não só fale, faça isso. É bom para todo mundo. Assim que você voltar da turnê com todos seus merchs vendidos e tendo vividos dias inesquecíveis, inicie o processo novamente. Não podemos ser preguiçosos.

Trabalhamos com isso e, como em qual quer outro negócio privado, os seus competidores estão trabalhando enquanto você sonha.

GUILHERME SILVA É BAIXISTA DA BANDA INKY, DONO DO SELO UIVO RECORDS E ESCREVE SOBRE MÚSICA INDEPENDENTE PARA O MUSIC NON STOP

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