TikTok Foto: Solen Feyissa [via Unsplash]

Como artistas da música brasileira estão sendo redescobertos no TikTok

Gabriela Nova
Por Gabriela Nova

Edição: Flávio Lerner


Entre trends e memes, músicas de outras épocas encontram uma segunda vida e conquistam novos públicos

“Quando uma faixa encontra um novo contexto dentro do TikTok, ela pode ganhar uma segunda vida, alcançando novas gerações, voltando para playlists e reentrando na conversa cultural”, resume Eduardo Praça, líder de parcerias com artistas e labels do TikTok na América Latina.

A frase ajuda a entender o que vem acontecendo com a música brasileira dentro da plataforma. O que antes parecia restrito à memória agora reaparece com outra força — ganha novos sentidos, novos públicos e novas formas de uso. E isso não é exatamente novo.

A lógica sempre permitiu esse tipo de movimento, mas ele se torna cada vez mais visível à medida que a comunidade passa a resgatar e reinterpretar sons de outras épocas. Talvez o mais interessante esteja justamente aí: não é um retorno ao passado, mas uma atualização em que o que era antigo passa a ser percebido como novo.

Casos recentes deixam isso evidente: Freak Le Boom Boom, da Gretchen, e Nosso Sonho, de Claudinho & Buchecha, voltaram a circular impulsionadas por trends que cresceram organicamente — e rapidamente ganharam escala dentro do TikTok. Segundo Praça, quando as pessoas passam a usar um som de forma criativa, ele deixa de ser apenas música e “se transforma em um fenômeno cultural”.

Em 2025, músicas como Menina Veneno, de Ritchie, e Aliança, dos Tribalistas, apareceram lado a lado com lançamentos recentes nos Hits do Verão (ranking que reúne as músicas mais utilizadas em criações no TikTok durante a estação). Isso revela uma característica estrutural: trata-se de um ambiente em que catálogo e novidade coexistem, impulsionados pelas possibilidades criativas da comunidade e pelos diferentes formatos de conteúdo.

Na prática, isso acontece porque a experiência dentro da plataforma é altamente personalizada. O que chega até o usuário não é definido por ordem cronológica, mas por interesse e interação. Quando um vídeo começa a ganhar tração, outras pessoas passam a reutilizar o mesmo som em novos contextos, criando um efeito em cadeia que se expande para além da própria plataforma, refletindo em streams, playlists, rádios e charts.

Para Eduardo, não existe uma fórmula única capaz de explicar por que uma música volta a ganhar força. Pode ser uma batida específica, um trecho da letra ou até o tipo de emoção que aquele som desperta. Ainda assim, o que determina se ele ganha escala é a maneira como se conecta com a comunidade. Quando há identificação, deixa de ser algo pontual e passa a circular. O que realmente importa é a forma como a arte é apropriada pelas pessoas.

Nesse cenário, os criadores ocupam um papel decisivo: são eles que transformam música em linguagem. Uma faixa pode surgir em um contexto específico — um vídeo com crianças, por exemplo — e rapidamente atravessar outros formatos, como humor, rotina ou estética. O som se adapta, ganha novas leituras e passa a circular entre públicos diferentes.

Alguns números ajudam a dimensionar esse movimento. Amado, de Vanessa da Mata, voltou a ganhar força como trilha de conteúdos mais leves e celebrativos, ultrapassando cem mil criações em um único mês. Acenda o Farol, de Tim Maia, soma mais de 166 mil publicações.

Essa dinâmica não fica restrita ao TikTok. Na prática, o que começa como um vídeo pode rapidamente se transformar em consumo real. A música volta a tocar, reaparece em diferentes canais e se reinsere no cotidiano das pessoas, como se nunca tivesse saído dali.

Em muitos casos, esse processo acaba reacendendo o desempenho comercial de composições antigas, que passam a circular novamente entre novas gerações e retomam espaço em playlists, rádios e no próprio repertório popular.

É justamente esse impacto que chama a atenção do mercado. Para Praça, esse movimento também aproxima plataformas, artistas e gravadoras. O TikTok, por exemplo, trabalha em colaboração com esses parceiros, compartilhando informações sobre o que está acontecendo dentro da rede social — não para determinar tendências, mas para orientar decisões criativas e estratégicas e ampliar o alcance das músicas de forma mais natural.

Essa aproximação também permite que artistas já consolidados encontrem novas maneiras de envolver o público. No ano passado, Djavan realizou uma ação inédita na plataforma ao compartilhar um trecho de uma música ainda não lançada e convidar os fãs a criarem suas próprias versões para a melodia. A iniciativa antecipou o álbum Improviso e aproximou o público do processo criativo do artista, transformando a expectativa pelo lançamento em participação ativa da comunidade.

A campanha abriu espaço para que o público participasse da forma como aquele som começaria a circular, gerando uma onda de conteúdos criativos em torno do lançamento, reforçando a conexão de Djavan com novas gerações e mostrando que a lógica da descoberta também pode acontecer enquanto uma nova obra ainda está sendo construída.

Na avaliação de Eduardo Praça, mais do que o alcance, o que muda é a forma como essas músicas passam a ser percebidas. Isso reforça o papel da plataforma como um ambiente constante de redescoberta. Um exemplo recente é Viro, Vira, Virou, do Grupo Triii, lançada em 2015, que voltou a aparecer em trends com pets e bebês. O interessante não é só o retorno, mas a mudança de contexto, que faz com que ela seja percebida de uma forma completamente diferente e alcance novas audiências de maneira natural.

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Gabriela Nova

Redatora de cultura, entretenimento e comportamento. Escrevo sobre música, cinema, estética, feminismo e tudo aquilo que atravessa a cultura através de narrativas críticas e palavras que continuam ecoando mesmo depois do fim da canção.