Com ingressos esgotados, DGTL leva 9.000 pessoas a uma experiência sublime que misturou sets absurdos, design futurista e muito pouco lixo

Claudia Assef
Por Claudia Assef

FOTOS SIDINEI LOPES E DGTL

TEXTO CLAUDIA ASSEF

Estamos diante de um galpão industrial em Barueri, a 26 km do centro de São Paulo, numa região onde fábricas se amontoam criando uma paisagem cinza e um tanto inóspita. O movimento, normalmente, se restringe ao entra e sai de homens e mulheres em seus uniformes de trabalho, com picos no início e final de cada turno.

São 22h e estamos praticamente no início do turno desta fábrica, que até as 10h da manhã do domingo (7) abrigaria a edição paulistana do festival holandês DGTL. Na música eletrônica, a alusão a elementos que se popularizaram após a Revolução Industrial é bem comum. A começar pelo mais famoso operário desse universo, o grupo alemão Kraftwerk, que já traz embutido no nome, que significa “usina de energia”, esse conceito. Nos primórdios da criação do techno, em meados dos anos 80, o trio Juan Atkins, Kevin Saunderson e Derrick May, também conhecido como Belleville Three (em referência ao nome do Ensino Médio onde estudavam) emulava o som futurista das máquinas de sua cidade, Detroit, com suas fábricas de carro martelando o bate-estaca do proletariado, misturando referências de música negra americana (de Parliament a Bambaataa) com o technopop de Kraftwerk (Alemanha) e Yellow Magic Orchestra (Japão) para encontrar a trilha sonora perfeita pra o escapismo.

Cheio, apinhado, mas sem ocorrências graves: 9.000 pessoas se jogaram na primeira edição do DGTL em SP

Estamos em 2017, e é a vez de São Paulo mostrar que o seu cinza tropical orna perfeitamente com música eletrônica das mais diversas nuances. O DGTL é o segundo festival holandês a desembarcar na cidade só este ano, após uma muito bem-sucedida primeira edição do Dekmantel.

A cidade ferve, não tanto em sua economia, com taxa de desemprego na casa dos 18% (a maior desde 2005), mas é inegável que há muito tempo a noite de São Paulo não abrigava tanta efervescência criativa. A cidade, que sempre foi a meca eletrônica do país, com seus clubes históricos que pavimentaram o caminho para o que está rolando hoje, redescobriu em seus galpões abandonados a sua vocação para dançar. E num momento de crise política e financeira por que passamos nada mais acertado do que esquecer dos problemas por algumas horas numa pista de dança, onde a preocupação mais urgente é onde fica o banheiro e/ou bar mais próximos.

A área ao ar livre do DGTL,  com o palco Frequency, que recebeu Teto Preto e a dupla Tama Sumo & Lakuti, entre outros

Uma vez dentro do gigantesco complexo de galpões – que foi da Eucatex até os anos 80 e mais tarde passou para a Le Postiche – somos impactados por três palcos diferentes, com cenografia inspirada no evento original holandês, acentuando ainda mais a sensação de estarmos dentro de uma fábrica, com  maquinários expostos, esquadrias piscando em led de diversas cores e uma área externa pequena, mas aconchegante, com um espaço para food trucks todos com comida vegetariana – parte dos esforços de aumentar a sustentabilidade do evento.

Destaque para a concepção do palco Generator, assinada pelo artista plástico Ricardo Carioba, e para a instalação criada especialmente para o DGTL pelo designer Muti Randolph (responsável pelo design do D-Edge), com elementos gerados em tempo real por um software que foi desenvolvido especialmente para a ocasião. A obra acabou virando o point preferido para as selfies no festival.

Chegamos ao DGTL pouco depois das 22h, quando três atrações de peso já davam a sensação de “vou perder o set de fulano” que se repetiu ao longo das horas seguintes: enquanto na área externa, no palco Frequency, o grupo Teto Preto mostrava seu poderoso live, com direto a hit (Gasolina), macacões de operário (L_cio, Zopelar e Bica) e provocação artística (da vocalista Laura Diaz), no palco Generator o pioneiro DJ carioca Maurício Lopes mostrava o bom gosto e o peso que o colocam entre os melhores do país e, no palco Modular, a poderosa Eli Iwasa soltava suas pérolas sonoras.

Laura Diaz e o dançarino Loic Koutana no show do Teto Preto

O jeito foi flanar um pouquinho em cada palco, enquanto corríamos para reabastecer o copo comprado por R$ 4, dinheiro que podia ser recuperado depois, mediante devolução do recipiente. Foi a primeira vez que vi esse esquema de devolução de copos num festival no Brasil, só tinha visto funcionando em clubes, e que lindo foi ver o efeito disso nas pistas, com quase nada de lixo pelo chão.

O DGLT foi ocupado por instalações visuais como esta, na parte de fora da fábrica

Claro que os grandes nomes internacionais no line-up ajudaram a dar fim aos 9.000 ingressos colocados a venda, mas o interessante é perceber que, o que funcionou mesmo, foi a mistura entre os nomes brasileiros e gringos, realidade que é cada vez mais comprovada nos line-ups das festas independentes que acontecem a cada final de semana em São Paulo. Já foram muitas as vezes em que DJs locais colocaram os convidados importados no bolso.

Palco Generator, maravilhoso

Pedro Zopelar, por exemplo, tocou no mesmo horário que Apparat e a dupla Tamo Sumo e Lakuti (como tocara bem essas mulheres!). Outro duelo de gigantes começou às 4h, quando Derrick May (um dos pais do techno) e Marcio Vermelho (da ODD) tocaram em palcos diferentes, ambos lotados. Ao longo da noite, nos três palcos, o que se viu foi uma sucessão de apresentações de operários da música eletrônica nacional de diferentes vertentes, que se apresentam semana após semana na cidade, lado a lado com nomes que ajudaram a construir a fama do gênero mundialmente.

Ney Faustini foi um dos brasileiros que brilharam DGTL

Defendendo o Brasil, tivemos, além dos já citados, Tati Pimont, Carol Mattos, Gui Scott, Ney Faustini e Davis, da festa ODD, que ficou com a honraria de fechar o evento. Nada mais justo e elegante.

Entre os gringos, uma seleção de muito peso, que tinha desde mitos da era paleozóica dos beats, como Derrick May e Carl Craig, até monstros sagrados da história mais recente como Âme, Apparat, Mind Against, Patrice Bäumel, Speedy J e, pelo amor de Deus, o incrível Ryan Elliot, isso sem falar na dupla magia da noite, as DJs Tamo Sumo (Alemanha) e Lakuti (África do Sul), rainhas com a missão de fazer dançar.

Sobre a produção: ponto alto para o banheiro feminino que era um luxo, com direito a espelho, papel higiênico, luz e sabonete líquido, a gente gosta, obrigada. Ponto fraco: como não havia maquininhas de cashless para todos os funcionários do bar, houve momentos de filas gigantescas para pegar bebida. Apesar de estarem cheias o tempo todo a partir da meia-noite, quando o festival lotou, não cheguei a ver nenhuma situação de desconforto, brigas ou truculência por parte de seguranças.

Depois de gastar muita sola de sapato entre os três palcos, dançar até o pé ficar adormecido, encontrar amigos e conhecer novas pessoas, comer um delicioso hambúrguer de shitake e dar uma conferida nas fotos do festival na sala de imprensa (outra graça alcançada), percebi os primeiros raios de sol entrando pelas frestas do palco Modular. Era sinal de que meu turno na fábrica estava no final. Coletei meu pagamento (os R$ 4 do meu copo), peguei minha condução (um uber) e voltei pra casa com a sensação de ter feito um belo trabalho. Fui uma das 9.000 operárias da primeira edição do DGTL SP. Espero do fundo do coração que esta fábrica continue funcionando por muitos e muitos anos.

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