John Coltrane Foto: Reprodução

Cem anos de John Coltrane e uma das obras mais belas da humanidade

Adriana Arakake
Por Adriana Arakake

Edição: Flávio Lerner


Adriana Arakake homenageia o agora centenário mestre do jazz discorrendo sobre a importância de A Love Supreme

Hoje, dia em que John Coltrane faria cem anos, esta coluna celebra essa data tão importante falando sobre uma das obras mais bonitas e fundamentais que a arte conhece: A Love Supreme.

Lançado em janeiro de 1965, esse disco entrou na minha vida há mais de 20 anos, e na época, era o único lugar onde eu me sentia segura, já que morava no meio do mato. Tinha companhia, mas foi o período que mais me senti sozinha.

Então eu entrava no carro pra pegar estrada, rumo a lugar nenhum, e colocava o som no talo, janelas fechadas. A Love Supreme não me pedia nada. Não cobrava nada, só ficava do meu lado, me ajudava a respirar.

De outro jeito, com outras dores, Coltrane também conheceu o fundo do poço antes de criar essa obra; passou anos se afundando, depois se reconstruindo. Virou estudioso de religião, de filosofia, de tudo que pudesse responder por que ele estava aqui. Foi guardando essa busca dentro do saxofone, disco após disco, até chegar num ponto que ele mesmo chamou de “completo”. Pela primeira vez, tinha tudo o que queria.

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Convocou os três músicos em quem mais confiava: McCoy Tyner no piano, Elvin Jones na bateria, Jimmy Garrison no baixo. Foram pro estúdio de Rudy Van Gelder, em Nova Jersey, e em dois dias, gravaram uma das obras mais importantes que a humanidade já produziu.

McCoy dizia que achavam ter recebido um dom divino, não por ego, por missão. Dá para sentir isso em cada segundo do álbum. A delicadeza de um homem gentil demais para este mundo, a matemática escondida nas frases, o tal Círculo Coltrane, que estudiosos comparam até com os princípios da física. E por trás de tudo, dores que ele nunca gritou: a luta negra, segregação, perdas. John Coltrane preferia deixar a música falar. E ela fala.

O jazzista vivia deixando bilhetes de amor escondidos pela casa para sua mulher, Alice. A Love Supreme é um desses bilhetes. Mas a gentileza dele nunca ficou só entre as pessoas que ele conhecia. Ela sai do vinil e te alcança, décadas depois, sem nem saber seu nome. Foi assim que ela chegou em mim, pegando estrada, quando eu pensei que não ia dar conta.

A obra máxima de John Coltrane não preenche silêncio com palavra. Preenche com o que a palavra nunca alcança. Feche os olhos, e escute com a alma.

Coltrane vive.

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Adriana Arakake

Adriana Ararake é DJ e a especialista em jazz, soul e blues do Music Non Stop.