Cantar em inglês é proibido num país que ainda vive sob o medo da guitarra elétrica

Por Guilherme Silva

Em 17 de julho de 1967, no Largo São Francisco, em São Paulo, aconteceu a famigerada Passeata da MPB ou Marcha Contra a Guitarra Elétrica. Liderada por Elis Regina, a passeata contava com nomes da esquerda liberal engajada como Gilberto Gil, Edu Lobo e Jair Rodrigues, e tinha o grande objetivo de defender a música nacional contra a invasão da música internacional.

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A música feita no Brasil tinha que ser puramente brasileira. Com o slogan Defender o que é nosso, os militantes queriam mais “brasilidade” na música e viam a guitarra americana como invasora. A internacionalização da Bossa Nova já havia sido demais para eles.

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Em outubro de 1967, a Marcha Contra a Guitarra Elétrica virou tema de risada. A Record realizou o histórico III Festival da TV Record, onde Caetano e Gil apareceram “vomitando” influências de fora, de Beatles a Rolling Stones, e mamando na teta da psicodelia, criando o pré-Tropicalismo. Logo se viu que toda aquela caretice e imbecilidade da Marcha haviam sido em vão. O mito de que a guitarra elétrica era uma invasora havia se extinguido. Será?

Marcha contra a guitarra elétrica e o Tropicalismo

Cinquenta anos depois, algo mudou? Claro que, nas devidas proporções, mudou. Mas vivendo em uma banda brasileira que canta em inglês, vejo que não é bem assim. Talvez o lema de Jucelino Kubitschek caiba aqui: “50 anos em 5”.

Quantas vezes ouvi: “Cara, a banda é muito legal, muito boa, mas é uma pena que cantem em inglês”. E sempre, sem exceção, esse tipo de comentário vem da famosa esquerda “liberal” engajada. A mesma que quis proibir a guitarra elétrica em 1967. Quantos jornalistas já não deixaram de falar sobre a minha banda porque cantamos em inglês? Quantos festivais já deixaram de nos bookar por não sermos uma “banda brasileira”? É de dar pena essa xenofobia. Imagine se cada país só pudesse divulgar artistas que cantassem na sua própria língua! Não teríamos Björk, Daft Punk, Fela Kuti, Sepultura, só para citar alguns.

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Björk não existira se em seu país, a Islândia, não a “deixassem” cantar em inglês

Que medo é esse? Vivemos cada vez mais em um mundo global. As gerações mais novas pedem espaço e queremos viver neste mundo internacionalizado. Esta plataforma novinha que surgiu, a internet, permite que cada dia consigamos nos conectar com artistas de outros países, fazendo música legal e cantando em inglês, português, turco, ou seja lá o que for.

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O maravilhoso Tropix, novo álbum da Céu, é apenas um dos ótimos lançamentos em português de 2016

Apenas queria deixar claro que existe MUITA, mas MUITA música brasileira cantada em português sendo bem feita. Só em 2016 tivemos os novos do Terno, Carne Doce, Francisco, el Hombre, Céu, BaianaSystem, entre outras obras maravilhosas. Mas, em vez de querer definir como a arte deve ser feita (o que já vai contra o princípio de se fazer arte), por que não incentivamos e abrimos as portas para todo e qualquer tipo de arte? Esse nacionalismo está muito fora de época.

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Guilherme Silva (segundo da esq. para a dir.) é baixista da INKY, banda que canta em inglês, sim, e daí?

Mesmo com artistas brasileiros que cantam em inglês sendo exportados (Sepultura, CSS, INKY, entre outros) parece que não conseguimos nos desprender das molduras antigas. Qual será o “Festival da TV Record” da nossa geração? Anseio pelo dia em que o que será julgado não é o fato de se ter uma guitarra elétrica na banda, ou cantar em inglês, e sim o fato de que o som é bom.

GUILHERME SILVA É BAIXISTA DA BANDA INKY, DONO DO SELO UIVO RECORDS E ESCREVE SOBRE MÚSICA INDEPENDENTE PARA O MUSIC NON STOP

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