HARPIA Foto: Divulgação

BLANCAh renasce como HARPIA no Lollapalooza

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Jota Wagner conversa com a nova personagem da artista catarinense Patricia Laus; com banda de mulheres, show rola neste sábado

Harpia – substantivo feminino. 1. [Mitologia] Monstro alado da mitologia grega, com rosto de mulher, corpo de abutre, unhas em forma de garras, que personificava as tempestades e a morte.

Patricia Laus Mattos, florianopolitana, abre a call para sua primeira entrevista “vestida” de HARPIA, com a máscara que levará para o palco do Lollapalooza para estrear seu novo projeto, em formato de banda, no sábado (28), no Palco Perry’s by Fiat. Um alter ego de seu consolidado projeto, BLANCAh. Uma indumentária não estranha à terra que tem Ney Matogrosso como ícone. Mas é em Sun Ra que sua influência cresce mais em nossa mente, principalmente na estratégia de sempre falar em terceira pessoa, definida para passar a ideia de quem está dando a entrevista é uma entidade, um ser descolado da DJ que já se apresenta pelo Brasil e o mundo desde que se estabeleceu no cenário eletrônico de Santa Catarina.

Por trás de ambas as personagens, claro, há a garota que encontrou nas pistas de dança sua forma de expressão e que usará tudo o que aprendeu ao longo da carreira, em cima dos palcos e na vida, para dar voo ao monstro musical que veremos no Lolla em poucos dias. Confira a entrevista.

Jota Wagner: Estamos a poucos dias do primeiro show da HARPIA, no Lollapalooza Brasil. Como nasceu tudo isso?

HARPIA: A HARPIA é um espírito que se manifesta nos momentos de crise. E essa crise já vinha latente dentro da cabeça da BLANCAh há um tempo — até o momento em que ficou insuportável, que não deu mais para segurar. E quando veio o convite para o Lollapalooza, a HARPIA veio pra fora com toda a força, com toda a potência. Tem sido um desafio muito grande, porque é um show onde a BLANCAh está fazendo tudo. Toda a logística, criação, conteúdo, músicas… São meses de trabalho dentro de estúdio para compor uma identidade totalmente nova para este projeto. O Lolla foi um catalizador.

HARPIA

Foto: Divulgação

Você fala em renascimento com este novo projeto. Uma palavra intensa…

A HARPIA é mais do que um ser. É um estado de espírito. Eu a encaro como uma manifestação de desejos e propósitos profundos. Qualquer um de nós tem a sua HARPIA e pode manifestá-la. Então ela não é somente uma personagem, mas uma manifestação. É uma tomada de coragem, como algo insustentável na alma de uma pessoa. Um engodo, o incômodo. Ela não nasce, ela incomoda.

E os propósitos nas nossas vidas são um pouco assim. Quando você não vive seu propósito, você vive incomodado, perturbado. Costumo dizer que quem consegue viver seu propósito, botou a HARPIA para fora. Nesse sentido, ela pode ter diferentes rostos, formas e dimensões. Óbvio que a BLANCAh continuará existindo como DJ, como a artista que ela sempre foi. Muita gente não tem coragem de trazer sua HARPIA para si.

E o que você diria para quem não criou essa coragem? Porque deve valer a pena pra caramba…

Sim, é imprescindível ouvir essa voz, ter coragem de olhar para dentro e entender onde está a sua HARPIA e o que ela está dizendo. Quando a gente não a põe para fora, a gente vive duas vidas. Uma é a vida do “se”. “E se eu fizesse? E se eu fosse feliz? E se eu corresse atrás disso?” Em algum momento, essas duas vidas ficam insustentáveis.

E é uma escolha também: ou você segue vivendo um cotidiano medíocre, porque não tem essa potência, essa coragem de encarar a sua HARPIA e abraçá-la… e não precisa ser algo extremamente grandioso. É a HARPIA de cada um. Mas é importante essa autoanálise.

Como é que foi o encontro com as outras mulheres artistas do projeto?

Então, a HARPIA da BLANCAh tinha essa necessidade. Porque uma HARPIA também, quando ela nasce, é pra curar. Nasceu para curar uma depressão, nasceu para curar medos antigos que ela tinha. A BLANCAh sempre teve medo de trabalhar com mais pessoas. Foi muito solitária no processo de composição, criação e estúdio. Sempre teve um relativo medo de trabalhar, inclusive, com outras mulheres. Como é que se explica isso? Freud explica, talvez. Com o tempo a gente precisa entender que não é sobre competição, é sobre soma.

Em processos muito profundos de autoanálise, a BLANCAh foi percebendo que a HARPIA precisava de companhia. E de mais mulheres, porque é uma HARPIA extremamente feminina. Ela se devia isso também, esse encontro com o feminino e com a compreensão do que, de fato, é ser mulher nessa indústria do entretenimento e da música. Eu acredito que, de alguma forma, ela sempre negligenciou um pouco o fato de haver dificuldades no ser feminino para enfrentar esses mundos todos, por não ter vivido tantas dificuldades assim. Agora vem uma consciência de que não é apenas sobre ela, em um mundo misógino que está aí desde sempre. Como a gente pode lidar com essa misoginia? Como entender e expor essa misoginia? Mesmo não tendo sofrido dores muito profundas, essas dores estão no mundo.

Essas mulheres que eu convidei são extremamente especiais. A Mariana é uma DJ, já toca profissionalmente há uns anos, e é uma cantora excelente, e a BLANCAh a havia convidado para fazer uma participação especial no álbum que vai ser lançado. E foi uma participação tão fluida, tão bonita, que a HARPIA disse: eu quero ela, eu quero ela para mim. A Maddox, que também é DJ e performer, pertence a um cenário de um hard-techno, sua presença e indumentária representa muito da essência da HARPIA também. E tem a Sara B, que é uma baterista profissional maravilhosa, que a BLANCAh já conhecia há um tempo. Todas essas mulheres foram gritos da HARPIA.

O repertório musical para este novo projeto é novo?

O repertório é totalmente exclusivo para esse projeto. Ele tem a estética de banda, um formato que será para sempre. As músicas tinham que, de alguma forma, refletir isso. A BLANCAh começou a estudar um pouco mais, não só sobre produção musical, mas sobre composição. Tem feito aulas para melhorar isso e trazer para dentro um aspecto, digamos, mais pop. Mas não poooooop [enfatiza, deixando claro que não se trata de se utilizar de fórmulas fáceis]. Mas no sentido de que agora temos cantoras, mais vocais… Então a gente precisa de ponte, verso, refrão… Uma estrutura que é um pouco diferente da composição de pista.

E tem outra coisa importante, que é o desejo da HARPIA de liberdade. Um exercício experimental de liberdade.

Que se reflete na liberdade musical, principalmente e também…

Principalmente e também. Nas músicas. Não esperem um DJ set. Claro que haverá momentos de pista, mas não é sobre isso. É um desejo, também, de descolamento. Muitas vezes um artista, incluindo a BLANCAh em alguns momentos, se perde querendo agradar, querendo pertencer, estar onde todos estão, porque nos dizem que ali é o lugar onde devemos estar. O grito de liberdade nos diz que há um outro caminho, em que não há o compromisso de agradar e nem pertencer a nenhum nicho, e nem de estar em um top 10.

HARPIA

Foto: Divulgação

Há todo um conceito no novo projeto. Tanto visual quanto na contextualização que você está me passando agora. Você fez isso sozinha?

Acredito que nasci de uma epifania. Estava sozinha em um quarto de hotel, esperando o horário de uma gig quando, por pura coincidência, um ilustre desconhecido que a BLANCAh não faz ideia de quem seja, enviou uma mensagem no Instagram com um link. Como estava ali sem fazer nada, clicou nesse link para para ver o que acontece. Era o show de uma banda chamada Fever Ray, só de mulheres. Aquilo foi arrebatador. O momento em que ela disse: “é isso!”. Atormentou a mente dela por várias semanas e foi tomando forma, crescendo cada vez mais. Foi a consciência de que a HARPIA tinha de vir para fora, existir dentro de sua concepção artística.

Não existe BLANCAh quando a HARPIA estiver presente. Foi um catalisador de um desejo que estava pulsando desde que a BLANCAh nasceu, de ter banda. E ela não tinha coragem de ter uma banda.

Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.