BLANCAh faz auto faixa-a-faixa de seu primeiro álbum, Nest, com exclusividade para o Music Non Stop

Claudia Assef
Por Claudia Assef

Não foi à toa que o título da nossa primeira matéria sobre a DJ, produtora, cantora e compositora Paty Laus aka BLANCAh era Ela canta, produz, mixa, faz tours bombadas e arrasa no Beatport. Conheça a poderosa BLANCAh, novo talento export de Floripa. De fato, desde que deixou de tocar num circuito de festas mais comerciais e resolveu investir numa carreira autoral, BLANCAh começou a mostrar a que veio.

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Em janeiro deste ano, ela ganhou o prêmio de produtora revelação do RMC (Rio Music Conference) e desde então o vulcão BLANCAh vem derretendo corações não só nas pistas do Brasil mas também em vários países da Europa e das Américas, por onde sua tour já passou este ano. Ela não para. Nesta sexta (7), ela se apresenta na Bélgica e sábado (8), no Líbano.

“Viver de arte é como um salto no escuro. Ou você tem muita fé de que vai aprender a voar sem se esborrachar, ou você é muito louco a ponto de não se importar com as consequências desta salto, apenas se lança e vai. Posso dizer que durante toda minha carreira intercalei estes dois sentimentos. Ora super confiante, ora kamikaze”, disse a artista primeira entrevista que fizemos com ela.

Sua mais nova munição para seguir nesta jornada é o álbum Nest, lançado na última sexta (30) pelo selo de deep house alemão Steyoyoke. Ela se inspirou na vida dos pássaros para criar as 10 faixas do disco, daí o título, Nest = ninho. “Assim como os pássaros precisa aprender a voar, nós precisamos aprender a nos orientarmos pelas construções institucionais e sociais deste mundo”, ela pondera no release.

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O resultado dessa criação que tem seu ponto focal ligado à natureza é um disco que transpira beleza em sua essência, seja em faixas mais emocionais e lentas ou em momentos focados na pista de dança. Ao mesmo tempo em que chega a ser frio e duro, sintético, também traz elementos orgânicos, com destaque para a voz de BLANCAh e seus muitos timbres de synths, que aquecem o coração. Uma dicotomia de emoções inscritas através de melodias, timbres e variações de dinâmica que conduzem quem ouve o disco a vários lugares, do porão do after até o colo da mãe.

Viagem ou sensibilidade exagerada desta ouvinte? Tire a prova.

Ouça Neste, de BLANCAh

Para falar sobre o disco, ninguém melhor do que sua autora. Pedimos a BLANCAh um faixa-a-faixa comentado, que você lê a seguir. Dê o play no disco e entenda como ele foi feito.

NEST

Nest é o abre alas do álbum e é uma música que fala basicamente sobre medo. Quis dar a ela uma carga triste e melancólica de modo a representar esse sentimento. O medo do pássaro em abandonar pela primeira vez o ninho; a insegurança que às vezes temos de nos jogarmos na vida pelo fato de não nos acharmos bons o suficiente é o tema desta canção. Comecei sampleando o som de uns pássaros cantando e usei esse som como a cama da música. Eles estão lá do início ao fim. Optei por usar elementos bem orgânicos nas minhas peças de bateria e percussão e o piano vem para acentuar a organicidade. Aliás, o piano claro e limpo está presente em boa parte das músicas do álbum. Acho que ele representa a poesia dos pássaros neste disco. Eu penso que a função de todo abre alas é sintetizar o conjunto da obra anunciando o que vem por aí. Foi o que quis fazer com esta musica. É como se eu estivesse dizendo: bom gente, o álbum não será totalmente 4×4, trará elementos orgânicos, trará instrumentos limpos, um pouco de poesia e também vou me aventurar nos vocais.

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URUATU

Urutau vem na sequência de Nest e a meu ver eleva um pouco o grau de dramaticidade da primeira. Tem ares de soundtrack. A primeira vez que fiz alguém escutá-la ouvi isso: parece música de filme. Fiquei encucada, pois não sabia se isso era bom ou ruim hahaha. Aí deixei ela guardada num canto pra digerir um pouco essa informação. O som da viola inicial é sintetizado e desenhei a mão. Gosto bastante desse timbre, ele está presente de modo sutil em Nest e em uma outra música minha de 2015, chamada Ripple Effect. O piano aparece de novo limpinho e nesta música usei bastante pads. Não sou muito boa com pads, admito. Eles aparecem pouco nas minhas produções, quero melhorar nisso. Assim como não sou boa com arpeggiators. Tudo o que soa como arpejo nas minhas músicas eu desenhei a mão. Esses são dois pontos que preciso melhorar nas minhas produções. Nesta música eu quis criar um diálogo melódico entre alguns instrumentos, uma espécie de conversa mesmo, com pergunta e resposta em frases curtinhas. De novo aparece meu vocal, mas dessa vez venho falar de amor. Um amor melancólico, mas ainda sim amor.

SWAN

Esta é a primeira música do álbum pensada para pista. Usei um sintetizador chamado Minitaur da Moog para fazer a cama dela. É uma sequência sem interrupção gravada em um único take onde eu trabalho o filtro e os envelopes. A partir dela criei o restante da música. O piano aparece de novo aqui e desta vez mais frenetiquinho. Abusei do recurso do Pan jogando o som da esquerda para a direita, este efeito é bem perceptível em um soud system reguladinho. Eu digo que Swan é a minha Carmina Burana eletrônica hahah. Obviamente guardadas as devidas proporções e me recolhendo ao lugar que me cabe hahaha. É que eu fico imaginando um corpo de violinos fazendo a melodia principal do synth dessa música. Devaneios…apenas devaneios.

Com dinheiro de vendas no Beatport, BLANCAh custeou rolê berlinense
HIGHER GROUND

Esta música acabou se tornando um interlúdio no álbum, mas inicialmente não era assim. Originalmente ela tinha 9 minutos e uma dinâmica dividida em duas partes, uma lenta e uma mais ritmada. Acabei ficando apenas com a parte inicial da música. Dentro da história que eu imaginei para o álbum ela marca a virada do jogo sentimental. Até aqui o drama da dor, do medo, de sentimentos mais densos, era o que pairava no ar. Quando a letra diz “não se culpe, não se machuque, não sangre as suas feridas” é a virada da chave para a parte mais otimista dessa história. É o pássaro crescendo, amadurecendo e se encorajando. Por isso mesmo esta música se tornou o interlúdio, que significa uma passagem ligando as partes de uma mesma peça.

HARPIA

Esta é a segunda música do álbum dedicada à pista de dança. Para mim, ela significa a tomada de força daquele pássaro que não queria abandonar o ninho em Nest. A base dela gravei em três takes diferentes e contínuos, a exemplo do que fiz em Swan. Defini os espaços, os breaks e depois toquei e gravei a melodia principal por cima disso. Tenho executado ela nas minhas últimas apresentações e fico sempre apreensiva porque o beat dela não é fluído. Ela entra naquele momento do set que a pista já precisa estar “dominada”, não dá pra encaixar ela em qualquer lugar. Pelo menos é o que eu sinto.

LEARNING TO FLY

O próprio nome já diz. Lá vai aquele pássaro que já está forte aprender a voar. É um vôo singelo, poético e calmo. Um vôo planado ao sabor do vento. Essa música é isso, etérea e branda. É um projeto musical realmente simples. Usei apenas quatro canais e novamente gravei a base em um take só. Tentei ser sútil na dinâmica dos instrumentos modulando a intensidade deles ao longo da música.

LEARNING TO FALL

Essa é meu xodó. É a minha jornada. Eu gosto de músicas longas, e o desafio nelas é não se tornar cansativo. Esse é um projeto mais complexo, cheio de texturas e detalhes. O piano gravei em apenas um take e por sorte deu certo. Nela novamente trouxe peças de percussão e de bateria orgânicas e alguns samples de pratos gravei tocando ao vivo pra deixar a música bem “humana”. Usei vários dos recursos que eu tenho no meu estúdio nela. Ela é uma composição crescente que vai ganhando força no decorrer dela, e minha idéia era culminar essa força na volta do break que acontece na parte final.

ALBATROZ

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Esta é a música mais despretenciosa do álbum. Fiz ela bem rápido e confesso que quase não dei importância a ela. Talvez porque ela esteja dentro do que eu considero mais convencional. Acho que a subestimei. Foi esta música que o Hernan Cattaneo escolheu pra incluir nos últimos sets dele. Quando eu soube disso foi um tapa na minha cara hahahahah. Mas essas são as maravilhas do processo artístico, né? Você cria algo e não tem dimensão do que o teu trabalho vai se tornar depois que ele cai no mundo. Na faculdade de artes na qual me formei alguns professores nos incentivavam a não falar sobre nosso trabalho e a sequer dar título às obras. Desse jeito elas ficariam mais abertas ainda às interpretações das pessoas. Um dia quero chegar neste ponto de desprendimento, a ponto de lançar um trabalho sem uma palavra sequer. Sem título, sem definição de conceitos, sem dar entrevistas nem falar das músicas hahahaha Quase um Buda musical hahahha.

APUIM

Em Apuim, quis fazer os elementos entrando devagar na música. É um projeto grande e pesado. Só de elementos percussivos e bateria são mais de 25 canais. Acho que esta é a música mais grooveada que fiz até hoje hehehe. Lembra que falei que não sei usar pads? Essa música é um exemplo bem claro disso, não há cama nem pad nela, por isso crio mil canais tentando preencher os espaços da música com outros elementos. Então aqui e ali vêm elementos, barulhinhos, efeitos e, claro, a melodia que não cessa um minuto. O lado bom é que ela fica ritmada. Sinto que Apuim é o ápice da parte forte e alegre desse pássaro e consequentemente do álbum. Acho a volta do break com o vocal um ponto especial dela. Compus esse vocal para um querido amigo meu e essa música é dedicada a ele.

QUEDA DO NINHO

Empunhando o microfone no clube Beehive (Foto: Juliano Conci)

Empunhando o microfone no clube Beehive (Foto: Juliano Conci)

A meu ver esta era a única forma possível e cabível de terminar este álbum. A saída definitiva de dentro do ninho. Quis que a última música fosse tão melancólica quanto a inicial, para que o círculo musical se fechasse. Se você ouvir o álbum no repeat por exemplo, a transição da última para a primeira música se torna leve. A melancolia do medo de se lançar no mundo (Nest) se confunde com a melancolia de estar no mundo (Queda do Ninho). É uma alegoria do nosso drama diário de certezas e incertezas. Nesta música eu tive o privilégio de contar com a participação de um grande amigo meu, o Marcelo Cotta, que a meu pedido gravou umas linhas de baixo elétrico. Esta é a minha primeira música autoral cantada em português e eu pretendo repetir a experiência no futuro.

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