Atração de show gratuito do WME, Karol Conká fala sobre aprendizados com a terapia e do processo de criação do seu novo disco, Urucum

Por Claudia Assef

Depois de sair do BBB, Karol Conká marcou um encontro com Caroline e Jaque Patombá. As três se encontraram na terapia e, depois de meses em debates internos, fizeram as pazes. Hoje vivem juntas e integradas.

Karol Conká, Caroline e Jaque Patombá são três personas de uma mesma mulher. Uma cantora que passou pela prova mais dura imposta pelo BBB, a do cancelamento público. Depois de ser eliminada com o maior índice de reprovação da história do programa, Karol teve medo, angústia, culpa, foi buscar ajuda e encontrou na arte a salvação. Compôs o disco Urucum, o terceiro da carreira, lançado em março deste ano, em duas semanas. Foi uma canetada terapêutica, que ajudou a expurgar seus demônios.

A cantora se jogou de cabeça na terapia e hoje consegue enxergar os motivos que a levaram a ter atitudes reprováveis dentro do reality. “Tem aquela coisa, cada um dá o que tem, né? Na época do reality, o que eu tinha era angústia. Então eu só ofereci angústia. Hoje, eu tenho alívio”, diz Karol Conká, em paz com suas personas, culpas e feliz com o novo trabalho.

Neste domingo (19), ela se apresenta no show de encerramento da WME Conference Phygital, na Casa Natura Musical, com ingressos gratuitos, fechando um line-up que ainda tem Kaê Guajajara e MC Carol. Os ingressos devem ser retirados na portaria da Casa Natura a partir das 16h.

Mais do que uma entrevista, a conversa abaixo foi praticamente uma sessão de terapia, em que Karol conversou abertamente sobre BBB, racismo, acolhimento, seu fandom infantil e, claro, seu novo disco. Dá o play no disco e boa sessão.

Music Non Stop – Vamos falar sobre seu disco, Urucum. Sou adepta e fã de terapia e li que você também está muito envolvida. O disco foi uma espécie de um uma canetada terapêutica que você deu depois de um um turbilhão de emoções?

Karol Conká – Nossa, o Urucum com certeza teve um processo bem terapêutico, porque à medida que eu ia descobrindo novas coisas com autoconhecimento na terapia eu pegava aquelas percepções e trazia pra produção do álbum. Eu não conseguia separar uma coisa da outra, aliás não consigo, né? Eu nunca tinha feito terapia, foi a minha primeira vez, mergulhei. Sou uma pessoa muito intensa, então eu fui com muita intensidade. Talvez seja por isso que o disco tenha nascido tão rápido, nunca tinha feito um álbum em duas semanas. Demorei um pouco pra lançar porque não queria um álbum em 2021. Eu tenho TOC, então acho que 2021 ficou pra mim como um grande aprendizado e Urucum  simboliza a cicatrização, o renascimento, a reconexão com a minha essência.

Music Non Stop – Ainda sobre terapia, qual é a linha que você segue ou é uma coisa freestyle?

Karol Conká – Eu gosto de umas coisas mais misturadas, mas a psicanálise é muito importante pra mim. É uma das coisas com que eu me identifiquei mais, gosto de trocar uma ideia com a minha psiquiatra de vez em quando, às vezes nem que seja pra falar uma coisa muito legal, porque eu aprendi também que a terapia não é pra só pra falar de dores e feridas, você pode falar de conquistas. Esse processo todo pra mim é muito importante e eu faço muitas pesquisas também. Tô há um ano nessa, diariamente eu boto um vídeo ou eu leio um livro sobre autoconhecimento, sobre autocontrole, inteligência emocional, esses assuntos todos que têm me atraído bastante.

Music Non Stop – Como você enxerga o racismo hoje no Brasil, houve uma evolução?

Karol Conká – Acho que entre a evolução e a exposição a gente caminhou mais para a exposição. Vejo muito mais as pessoas se sentindo à vontade para serem racistas. Não que antigamente não se sentiam. Mas a gente vê que com o passar do tempo, em pleno 2022, as pautas são as mesmas, as observações são as mesmas, as dores são as mesmas, elas só mudam o estilo, né? Muda o lugar, mas toda semana tem alguém na internet falando que sofreu racismo. A gente vê também pelo que aconteceu comigo no ano passado. Tive atitudes reprováveis, não me orgulho do que eu fiz. Mas a gente vê que o peso para mulher preta é muito maior do que para uma pessoa de pele clara. E aí quando a gente entra nesse assunto as pessoas falam que é mimimi ou é que essa artista preta está usando essa pauta para se defender ou minimizar o erro dela. E isso já é outra forma de racismo, achar que eu, como mulher preta, não tenho o direito de tentar melhorar ou querer me desculpar ou reconhecer os meus erros. Quando é uma pessoa branca que erra e pede desculpa, ela é vista como uma guerreira, uma pessoa humilde, que reconheceu. Então isso chega a dar preguiça, né?

Music Non Stop – Verdade. Existe porém um avanço com relação à contratação de mais pessoas pretas em empresas e também em cargos de lideraça…

Karol Conká – Ah eu notei essa essa mudança, né? Nos últimos três anos, vejo líderes de agências se preocupando em compor a sua equipe com pessoas pretas e eu percebo também que ainda assim é pouco. Não basta só rechear o ambiente, né? É importante que esses líderes, além de contratar pessoas pretas, tenham ouvido, saibam ter aquele lugar da escuta. Porque contratar pessoas negras pra trabalharem com ferramentas de branco é pedir pra que essas pessoas pretas embranqueçam suas suas cabeças, seu intelecto e aí é muito complicado. É igual quando colocam nas campanhas um preto, mas o produto não encaixa com aquela situação. Fico muito feliz de perceber isso inclusive na agência onde eu estou, onde existe essa preocupação. Me sinto mais confortável como artista estando numa agência onde as pessoas nos bastidores são pretas, pois essas pessoas vão saber se eu me sinto confortável com determinado tipo de proposta. Tenho só que parabenizar esses líderes e essas empresas que estão se preocupando com isso, é um sinal de que a luta tem surtido efeito.

Music Non Stop – Uma coisa que eu reparei muito no auge do seu cancelamento por conta do BBB foi que isso não afetou seu púbico infantil. As crianças, pelo menos as da minha casa, continuaram te achando “lacradora”, como elas mesmas dizem. Você sentiu isso quando saiu do BBB?

Karol Conká – É surpreendente, até porque o caos que foi, né? Era de se esperar que eu fosse exterminada do mapa, mas eu recebia muitas mensagens da geração Z, mensagens que me deixavam muito emocionada. Eram crianças e adolescentes escrevendo, falando pra eu não me culpar, eram palavras tão lindas que pareciam vindas de adultos, mas eram de crianças, sabe? Me mandavam vídeo tipo “Carol, está tudo bem. Todo mundo erra. Você estava nervosa”. Tinha criança de dez aninhos me escrevendo falando assim “se eu estivesse lá, ia te dar um abraço”. Tinha gente me mandando comer um docinho. Sabe essa ingenuidade? E tinha também umas que falavam “muito feio o que você fez, mas eu entendo porque você estava nervosa”. Me ajudou muito receber esse tipo de mensagem das crianças. Aliás o carinho delas comigo na rua é impressionante, é muito fofo e isso me trouxe uma reflexão de que a criança é a pureza, ela enxerga aquilo que é genuíno. Essas mensagens me ajudaram a me reconectar comigo mesma, porque eu estava tão afogada em hate que eu estava quase acreditando que eu tinha me tornado aquilo.

Music Non Stop – Como foi produzir um disco, sonoramente ele ta muito mais para o início da sua carreira, mais crua e mais calma.

Karol Conká – Conheci o RDD (produtor do disco) em 2020. A gente entrou aqui no estúdio a fez duas músicas, só que aí a gente teve que parar o processo de produção pra eu entrar pro reality; Aí quando eu saí a gente imergiu aqui ficamos internados no meu estúdio e a minha conexão começou com ele mandando uma mensagem me chamando pra fazer uma parceria com a Attoxxa.

Minha agenda tava muito lotada, na época eu não consegui conciliar com dele e a gente não tinha se conhecido ao vivo ainda. Então o Rogério, que é empresário dele, agora está trabalhando comigo também. Ele falou o que eu queria pro novo álbum. Falei, eu sinto que tem que ser um produtor baiano porque  sempre que foi um desejo meu. Minha vó é baiana e na época quando eu produzi o batuque que eu levei pro NAVE,  foi com  Zumbi e Olodum. Eu gosto muito dessa batucada, deve ser coisa de outras vidas, não sei, mas tem que ter a batucada ali pra mim.

O Rafa era exatamente o que eu estava precisando pra esse momento. Além dele ser um grande produtor, ele também tem um uma empatia na hora de produzir muito maravilhosa. Porque eu estava me sentindo numa pior e ele conseguiu extrair o meu melhor em duas semanas, sendo tranquilo e e deixando tudo fluir. Então eu não tinha assim um um roteiro do que seria meu álbum. Então eu chegava no dia e falava ‘hoje eu estou Caroline’. Aí ele falava,  ‘como assim Caroline’? Hoje eu estou mais Caroline. Eu aprendi que eu tenho quatro personalidades, pra cada situação e o Brasil, o que me ajudou a nomeá-las: a Caroline e Karol Conká,  e Jaque e a  É Pra Tombar. E aí ele deu risada e falou,’ ah, então tá’. Quem quer se inscrever hoje? Eu falei, hoje é a Caroline e a Caroline vai  vai escrever pra Jaque é pra tombar e o nome da música vai ser Calma.

E a gente começou a brincar com isso, então cada música. Por isso que o álbum passeia por emoções e sensações. Uma hora é a Caroline falando, uma hora é a Karol Conká, outra hora é Mamacita e Já que é pra tombar.

Essa compreensão dele com esse meu processo terapêutico de descobertas, e autoconhecimento foi muito legal. Porque aí fomos aprendendo junto. Ele já foi despertando mais…  aí ele falou, ‘eu acho que a Jaque tem que cantar porque esse álbum não era pra ter nada assim, muito porradão. A Jaque pra tombar tem que cantar no álbum’.

Também, eu  estava numa fase que eu queria concluir a Jaque pra tombar… então ele falou mas ‘você já está sofrendo cancelamento e vai cancelar a Jaque?’ É. Eu não posso cancelar quem faz parte de mim e quem me fez chegar muitas vezes em lugares e abrir a visão de muitas mulheres, foi a Jaque, sabe? Porque já é o meu temperamento, mas eu aprendi a reeducar essa Jaque através desse álbum.j Ele representa o renascimento mesmo e a minha reconexão com a minha essência,  com a essência da Caroline que estava abandonada também.

Music Non Stop – E aí, como vai ser tocar no encerramento do WME?

Karol Conká – Olha, eu eu sou muito fã do WME e foi muito importante eu ter participado do WME Awards no ano passado, O convite de vocês me fez muito bem. Hoje eu consigo rir de algumas coisas, eu falo “gente que doida que eu fui”.

Chegar naquele dia no prêmio… eu ainda estava me sentindo um um pouco acuada, sabe? Cheguei lá, eu pensei: “ninguém gosta de mim mais”. Aí eu falei, a Claudia gosta de mim, a Monique gosta de mim… Porque talvez se eu não tivesse recebido o acolhimento, talvez eu tivesse me afundado em amargura. Poderia ter ficado pior da cabeça, sabe? O remorso, a culpa, ela é tão ruim, e a gente só se alimenta disso, dá vontade de ir embora pra sempre, sabe? E aí, por causa do acolhimento, eu falei “gente, mas eu não não tenho tempo pra desistir”.

 

Qualquer pessoa pode se ver numa situação e ela perde o controle, né? Sei lá, aquelas luzes brancas, uma casa daquelas, com um monte de gente desconhecida. É muito barulho, é crise e abstinência, é TPM. E você não consegue dormir direito. Eu tenho TOC diagnosticado, né? Transtorno obsessivo compulsivo. Lá eu eu vi mais ainda o meu toque. Eu tenho problema real com TOC, porque eu nunca fui tratar, eu achei que era só cuidar das coisinhas assim, sabe? Tanto que eu falava um monte de besteira que eu não lembro. Quando eu olho, eu falo, mas eu não estava bêbada aqui. Por que que eu não consigo lembrar desse momento? E aí a minha psiquiatra explicou que é porque eu já tinha criado uma outra persona pra disfarçar minha vulnerabilidade. E o que aprendi com isso? Que quando a gente não quer expor, a gente vira monstro da nossa própria dor. Hoje eu fiz assim com a vulnerabilidade. Então eu estou bem mais calma mesmo, mais tranquila. Tem aquela coisa, cada um dá o que tem, né? Eu, na época, dentro de um reality… o que eu tinha era angústia. Então eu só vou oferecer angústia. Hoje eu tenho alívio. Então se alguém me ataca vou procurar não reagir da forma que eu agia antes, com agressividade ou já com dez pedras na mão, Eu vou entender que essa pessoa também não tá num bom estado pra ela estar me tratando dessa forma. Eu aprendi porque fiz isso, né? Pra eu tratar as pessoas dessa forma, independente se estava nervosa ou não, eu deveria ter perdido esse controle. Aí eu vi que eu estava sem autoajuda, sem autoamor. Hoje eu estou mais querida comigo, eu consigo ter paciência e ser mais empática.

 

Music Non Stop – Esse um ano de terapia tá valendo por cinco, hein…

Karol Conká – Eu acho que é isso. Às vezes a gente fica muito querendo botar um remendo num negócio que já foi e aí não tem como. Melhor coisa é a verdade. Aí fala mas qual é o caminho pra libertação da angústia do cancelamento? Eu falo: verdade e humildade, esses dois ingredientes são o melhor porque me faltou humildade pra reconhecer as minhas coisas, pra ficar mais calma e a verdade é a melhor coisa, qual é a liberdade? A verdade é que errei, a verdade é que não dá pra arrumar aqui, mas hoje é um novo dia. Como eu posso trazer pra o hoje o que eu vivi ontem, como que eu faço esse processo pra que amanhã eu não tenha que me me culpar de nada, eu me senti ruim por ter feito mal pra alguém, mesmo que verbalmente sabe? Então é esse que é o caminho assim, eu bem mais sossegada e é libertador mesmo. Nossa. Eu fico a minha doutora falou, você está se recuperando muito rápido pelo trauma que você passou. Pô. Mas é porque eu fico diariamente pesquisando, lendo sobre, né? Tem pessoas que para uma terapia e cabô acha que é só a terapia que vai trazer clareza. Terapia ela é uma das ferramentas né? Você tem que lincar mais a terapia a alimentação a mim e o estudo que que eu alimento na minha cabeça o que que eu olho nas minhas redes sociais. Uhum. É o vigiário. É isso aí. É porque a as assim tudo que é tóxico a sua volta você tem que eliminar né? Dar comida as pessoas pra você acelerar o teu processo de cura mesmo.

FESTA DE ENCERRAMENTO WME CONFERENCE

Domingo (19), a partir das 18h
Ingressos gratuitos: retirada na bilheteria a partir das 16h
Casa Natura Musical
R. Artur de Azevedo, 2134 – Pinheiros

Claudia Assef

http://www.musicnonstop.com.br

Autora do único livro escrito no Brasil sobre a história do DJ e da cena eletrônica nacional, a jornalista e DJ Claudia Assef tomou contato com a música de pista ainda criança, por influência dos pais, um casal festeiro que não perdia noitadas nas discotecas que fervilhavam na São Paulo dos anos 70.

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